Ucrânia contra-ataca para estragar festa e travar avanço russo no leste

Todos os civis já terão sido retirados na fábrica Azovstal em Mariupol. Em véspera do festejo da vitória sobre os nazis em 1945, Rússia intensificou ataques, mas Kiev está a responder.

A Ucrânia alega ter destruído outro navio russo e ter recuperado o controlo de cinco localidades nos arredores de Kharkiv, num contra-ataque destinado não só a estragar a festa russa - que amanhã assinala com uma grande parada em Moscovo o aniversário da vitória sobre os nazis em 1945 - mas também a travar o avanço das forças de Vladimir Putin em Donbass. A Rússia intensificou também os seus ataques, incluindo na fábrica de Azovstal, em Mariupol, de onde já terão saído todo os civis.

O Ministério da Defesa ucraniano disse ter destruído com um drone armado um navio russo no Mar Negro, uma lancha de desembarque da classe Serna, e um sistema de defesa antimísseis que estaria a ser entregue na Ilha Zmiinyi. A Snake Island ou Ilha das Serpentes, como também é conhecida, tornou-se um símbolo da resistência no início da guerra, quando soldados ucranianos recusaram render-se aos russos a bordo do cruzador Moskva, o principal navio da frota russa que mais tarde acabaria por ir ao fundo. "A parada tradicional da frota russa no Mar Negro a 9 de maio deste ano será próximo da Snake Island - no fundo do mar", indicou o Ministério da Defesa. A Rússia não confirmou nem desmentiu o incidente, mas pelo menos quatro mísseis russos terão atingido o porto de Odessa, a menos de 150 km de distância.

As forças de Kiev alegam também que os militares russos foram forçados a demolir três pontes nos arredores de Kharkiv (a segunda maior cidade da Ucrânia), para travar os seus avanços. Nos últimos dias, os ucranianos terão recuperado o controlo de pelo menos cinco localidades na área e os serviços de informação britânicos dizem que terão conseguido, com as armas fornecidas pelos ocidentais, destruir um dos tanques mais avançados da Rússia, o T-90M. "Será preciso um tempo considerável e dinheiro para a Rússia reconstruir as suas forças armadas depois deste conflito", indicaram os britânicos.

As armas ocidentais vão continuar entretanto a chegar a Kiev, com o presidente norte-americano, Joe Biden, a anunciar um novo pacote de 150 milhões de dólares em armamento para a Ucrânia - incluindo munições e radares. Desde a invasão, a 24 de fevereiro, só os EUA já enviaram armas no valor de 3,8 mil milhões de dólares para as autoridades ucranianas.

Segundo os analistas do Instituto para o Estudo da Guerra, o objetivo deste contra-ataque de Kiev é afastar as forças russas de Kharkiv, deixando esta cidade a uma distância segura da artilharia inimiga, mas também obrigar à interrupção da ofensiva no Donbass. "A vontade das forças ucranianas de concentrar as forças necessárias para esta escalada de operações ofensivas, em vez de as destacar na defesa do leste da Ucrânia, mostra a confiança na sua capacidade de repelir a operação russa para cercar as forças ucranianas em Severodonetsk", segundo os analistas, citados pela agência EFE. Esta cidade, a mais a leste ainda sob controlo de Kiev, estará quase cercada.

Apesar dos esforços ucranianos nos arredores de Kharkiv, os russos continuam os ataques na área - terão destruído um arsenal de armas vindas dos EUA e da União Europeia. "Como resultado dos ataques, cerca de 280 nacionalistas foram aniquilados e 48 equipas de combate foram destruídas", disse o porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov. E também prosseguem com a ofensiva para conseguir o controlo total sobre Donetsk e Lugansk. O governador de Donetsk, Pavlo Kyrylenko, fala em "bombardeamentos massivos" junto à linha da frente.

Evacuação da Azovstal

O governo ucraniano indicou entretanto ter terminado a retirada de todas as mulheres, crianças e idosos da fábrica de Azovstal. "Esta parte da operação humanitária em Mariupol terminou", disse a vice-primeira-ministra Iryna Vereshchuk. Num vídeo na sexta-feira à noite, o presidente Volodymyr Zelensky revelou que "intermediários influentes" e "países influentes" estão envolvidos num esforço diplomático para salvar também os militares e combatentes, sem dar mais pormenores. Há semanas que os russos exigem a sua rendição e ainda ontem voltaram a tentar conquistar o espaço.

A fábrica de Azovstal é o último bastião da resistência ucraniana na cidade portuária de Mariupol, que Kiev diz estar completamente destruída, tendo-se tornado um símbolo. Zelensky chegou a alegar que a morte dos últimos combatentes na fábrica implicará o fim de qualquer negociação de paz com Moscovo - apesar de há várias semanas não haver novidades no plano diplomático em relação a uma solução para o conflito.

susana.f.salvador@dn.pt

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