Trinta e seis horas para o reencontro de Myron e Miroslava

Myron levou 29 horas de viagem, os três familiares estiveram mais de 36 dentro do autocarro. "Pesada." É assim que uma exaurida Miroslava, de 31 anos, resume a viagem, de voz sumida e olhos sofridos.

Temos um cão na mala?", pergunta Myron, estarrecido. "Não, foi o telemóvel", certifica-se. Minutos depois, novo ladrar. Por duas, três vezes, o efeito sonoro dos pneus no pavimento da autoestrada ilude ambos. Em resultado do esforço físico extremo, acontece aos atletas de longas distâncias terem alucinações. Mal comparado, Myron Fedoriv estará exausto. Dormiu vinte minutos de sexta-feira para sábado e nos dias anteriores não terá sido muito mais. O riso provocado pelo inesperado som foi uma interrupção no estado de alma do ucraniano, que não volta a ceder o volante desde a primeira paragem na Alemanha.

O dia está a cair e a esperança de rever a filha e os netos nas próximas horas também. Os telefonemas que recebe de Miroslava não são animadores. Contava ao princípio do dia que os autocarros teriam prioridade nas filas da fronteira. "Ainda vamos chegar a Pilsen ao mesmo tempo", tomando o desejo pelos factos. Nada disso se verifica. "Bebés a chorar, tudo fechado no autocarro há horas", impacienta-se. Antes de chegarmos à República Checa somos desviados para uma estrada secundaríssima, estreita e ladeada de valas. Com tráfego de camiões no sentido oposto, Myron é obrigado a imobilizar o carro uma e outra vez, mais um moinho de vento a somar a tudo o resto.

Myron bate no volante e pragueja. Amaldiçoa Putin. Já em território checo, acaba de falar com a filha e, do que se ouve do autocarro, está tudo como antes. O plano de Myron era aguardar no carro e aí dormitar para fazer-se à estrada e voltar o quanto antes para Portugal. Convenço-o a irmos para um hotel. "Sim, preciso descansar", reconhece minutos depois.

"Ricos ou pobres, de nada vale se levarmos com uma bomba", diz depois de comer um goulash numa tradicional cervejaria no centro da cidade, e minutos depois de traduzir-me a notícia em ucraniano de que o líder russo tinha rumado a um bunker nos Urais.

Ontem, poucos minutos antes das 9 horas Myron telefona-me para dar a nova: "Muito bom! Muito bom! Eram 7 horas quando saiu. Graças a Deus", exclama. Por fim, Miroslava e os filhos tiveram autorização para partir. Ao que foi dito, as legações diplomáticas como a portuguesa abandonaram Lviv pela fronteira de Shehiny, passando à frente do comum dos cidadãos e provocando mais atrasos. Filha e netos estiveram 22 horas no autocarro até chegarem a terras polacas. Agora estavam separados do motorista ucraniano do grupo Bel (cujo proprietário é também acionista principal do DN) por uns 800 quilómetros, para, por fim, tomarem o caminho para Lisboa. Myron sorri. Diz que dormiu cinco horas. E de seguida ruma a uma igreja para ir agradecer.

O tempo passa devagar. Na central de autocarros, a empresa Rozmar, uma de duas que liga Pilsen à Ucrânia, recebe sacos e sacos com doações. Para cá chegam os fugitivos, para lá vai comida e roupa. Mas também capacetes ou binóculos com visão noturna, tudo o que se puder arranjar para a defesa dos compatriotas.

Um dos funcionários avisa Myron que o autocarro, afinal, está a 40 minutos e não a quatro horas de distância. Mais uma refeição adiada, é só o tempo de ir beber qualquer coisa a um bar próximo. Pergunto ao barman o que escreveu na lousa à porta do estabelecimento, além da frase de apoio à nação. "Putin is a dick." Por cima do seu ombro, o televisor mostra uma manifestação no centro de Praga contra a guerra.

Os checos não esquecem o que Moscovo fez em 1968, quando a URSS e mais três países do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia para pôr fim às reformas em curso. E em Pilsen as memórias da história não se ficam pela espuma da cerveja. Além do museu dedicado à bebida de cereais, há outro dedicado à libertação dos nazis por parte dos norte-americanos (Memorial Patton).

Mais cinco minutos, dizem a Myron, que nas últimas horas calcorreou a estação e ao seu redor, em natural desassossego. Na rua, ao pé de mais uns quantos ucranianos - poucos, porque a maior parte dos passageiros saiu na Polónia ou em Praga - pergunta de que lado chega o autocarro. A porta traseira abre-se e com ela o neto mais velho, Zakharij, que sai a correr para abraçar Myron. Já Jakiv é apanhado pelo avô a descer os degraus. Por fim, Miroslava. A última vez que estiveram juntos foi há oito meses, quando Myron passou férias na Drohobych natal, na região de Lviv.

Myron levou 29 horas de viagem, os três familiares estiveram mais de 36 dentro do autocarro. "Pesada." É assim que uma exaurida Miroslava, de 31 anos, resume a viagem, de voz sumida e olhos sofridos. Viu cenas de desespero, pessoas a quererem entrar no autocarro, duas mortes por atropelamento no caos das filas na fronteira. Agora é rumar a Portugal. O objetivo é regressar assim que possível, diz enquanto olha para os filhos, preocupada com a interrupção da escola. Há 21 anos, Myron também pensava em voltar à Ucrânia, mas apegou-se a Portugal e o seu país não ofereceu condições para o bilhete de volta. Como será agora? A resposta não se encontra em Pilsen nem em Lisboa.

* O DN atravessou meia Europa a acompanhar o esforço de um ucraniano que vive em Portugal para ir buscar a família. Myron Fedoriv regressa agora com a filha e os netos. O DN segue até à fronteira da Ucrânia.

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