”Quarenta anos em quatro!”, bradou Tarcísio de Freitas num evento no luxuoso Palácio Tangará, em São Paulo, depois de desafiado a escolher o lema para um eventual governo de centro-direita no Brasil. Sob aplausos de meia classe política do país reunida pela Esfera Brasil, uma organização de empresários, o governador de São Paulo, ex-ministro de Jair Bolsonaro e nome mais bem colocado nas sondagens para concorrer com Lula da Silva nas presidenciais de 2026, adaptou o slogan de Juscelino Kubitschek, o mítico presidente de 1956 a 1961 que inventou o “50 anos em cinco”.“Temos que escolher se queremos ir para o passado ou para o futuro”, clamou em seguida Tarcísio, num suposto tiro retórico contra Lula que, na verdade, mirava muito mais o mentor Bolsonaro, inelegível e provavelmente condenado em breve por crime de golpe de estado. Tarcísio, 50 anos, natural do Rio de Janeiro apesar de governar o vizinho estado de São Paulo, é, por um lado, um engenheiro com longa carreira na função pública que trabalhou de perto com Dilma Rousseff no governo da sucessora de Lula. E é, por outro, um capitão do exército, como Bolsonaro, nomeado pelo ex-presidente para o ministério da Infraestrutura, onde se destacou por uma gestão dinâmica e técnica que o tornou palatável na centro-direita ao ponto de bater Fernando Haddad, hoje ministro da Fazenda, na corrida ao governo paulista em 2022.É paradoxalmente na extrema-direita, que ainda acredita que Bolsonaro, inelegível desde 2023 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, possa ser amnistiado e candidato em 2026 e não vê Tarcísio como um “bolsonarista puro sangue”, que o presidenciável enfrenta mais resistências. Em mensagem ao pai, revelada pela Polícia Federal, o deputado Eduardo Bolsonaro escancarou a desconfiança da família em relação ao governador de São Paulo. “Só para te deixar ciente”, diz o terceiro filho ao ex-presidente, “Tarcísio nunca te ajudou em nada no Supremo Tribunal Federal e sempre esteve de braços cruzados vendo você se f****, se aquecendo para 2026”. Para o cientista político Carlos Melo, “Tarcísio está num dilema”. “Ele precisa dos votos de Bolsonaro para arrancar no país inteiro mas se o anti bolsonarismo crescer ainda mais e for a força dominante na eleição ele pode ser vetado pelos anti-bolsonaristas numa eventual segunda volta”, disse o académico da faculdade Insper ao site G1. Nas sondagens, Tarcísio está acima de qualquer outro nome da direita, tanto dos pares governadores Ronaldo Caiado (Goiás), Romeu Zema (Minas Gerais) e Ratinho Júnior (Paraná), quanto dos familiares de Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle ou os filhos Flávio e Eduardo. A Genial/Quaest, de dia 21 de agosto, mostra Lula à frente na primeira e segunda voltas em 14 cenários diferentes mas com apenas oito pontos de vantagem sobre Tarcísio, o único a um dígito de distância do presidente. O próprio Bolsonaro, atingido na popularidade pelo aumento das tarifas dos EUA sobre o Brasil por pressão do filho Eduardo, fica a 12 pontos.Lula, que também parece já ter slogan para 2026, “governo brasileiro, do lado do povo brasileiro”, à boleia da tal questão das tarifas de Trump após o lóbi de Eduardo Bolsonaro, ficou por sua vez irritado com o citado encontro no Palácio Tangará onde Tarcísio foi aclamado por membros de partidos de centro e de direita, como Republicanos, a formação a que pertence o próprio presidenciável, União Brasil e PP, que têm um total de cinco ministros no governo. Em reunião ministerial na terça-feira, o presidente pediu que esses ministros deixem o governo caso não se sintam confortáveis. Na reunião, Lula já se referiu a Tarcísio como “candidato”, conta o jornal Folha de S. Paulo. Os sinais, além do slogan “40 anos em quatro”, parecem dar razão ao presidente brasileiro: em agosto, o governador paulista participou em quatro eventos, além daquele no Tangará, ao lado de líderes dos partidos de centro e de direita onde debateu temas da agenda nacional, como reforma política, equilíbrio orçamental, envelhecimento da população, financiamento do sistema nacional de saúde e investimento em inovação, tecnologia e segurança pública. E intensificou as críticas ao governo federal, sublinhando que “o Brasil não aguenta mais nem Lula, nem o PT”.Por outro lado, está a ser disputado por partidos. Marcos Pereira, o presidente do Republicanos, disse que a formação vai ter candidato presidencial próprio, mencionando o militante Tarcísio, num jantar citado pela revista Veja. Enquanto isso, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, a formação de Bolsonaro, revelou que o governador se comprometeu a migrar do Republicanos para o partido que dirige, em caso de candidatura presidencial.