Sismo espalha morte e destruição. "Meses ou anos" para a recuperação

O número de vítimas mortais do sismo de sexta-feira em Marrocos não para de aumentar: Sábado à noite estavam contabilizadas 1305 mortes e quase dois mil feridos, com 1200 em estado grave. Entre portugueses, só foram registados dois, que estão fora de perigo. 75 portugueses pediram para regressar e a Força Aérea enviou um avião. A Cruz Vermelha diz que a recuperação vai demorar "meses ou anos".
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Mais de dois mil mortos (2012) era este sábado à noite o último balanço de vítimas do sismo de 6,8 na escala de Richter que na sexta-feira atingiu Marrocos. Com epicentro a cerca de 70 km a sudeste de Marraquexe, o terramoto atingiu sobretudo a província de Al-Haouz, registando-se aqui mais de metade dos mortos que até este sábado à noite tinham sido contabilizados pelas autoridades marroquinas. Os balanços - sempre em evolução - apontavam também para 2059 feridos, com mais de 1200 em estado grave.

Dois dos feridos são portugueses (um adulto e uma criança, pai e filho), tendo o ministro português dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, afirmado ao fim da tarde, em Lisboa, que estão fora de perigo, embora carecendo de acompanhamento hospitalar.

À hora do fecho desta edição, as autoridades portuguesas preparavam-se para enviar para Marraquexe um avião da Força Aérea, numa missão de resgate a turistas portugueses que querem voltar a Portugal (75 pessoas). Ao todo, estarão 300 portugueses em Marrocos. O sismo, apesar da sua enorme intensidade, não interrompeu o normal fluxo de voos de Portugal para Marrocos, segundo fonte da ANA (Aeroportos e Navegação Aérea). Salientando uma fonte da empresa, que falou à Lusa, que o sismo "não afetou as estruturas aeroportuárias marroquinas", precisou que os voos para "Marraquexe, Fez e Casablanca, da TAP, Easyjet, Ryanair e da Royal Air Maroc, estão a operar normalmente a partir de Lisboa ou do Porto".

A Cruz Vermelha Internacional alertou que Marrocos vai precisar de ajuda para os próximos "meses ou mesmo anos", além das necessidades das primeiras "24 a 48 horas críticas". Em comunicado, o diretor regional para o Próximo Oriente e Norte de África da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) disse que a organização está a mobilizar-se para "apoiar o Crescente Vermelho Marroquino". "Não será uma questão de uma ou duas semanas, como a nossa região viu com o grande terramoto na Turquia e na Síria no início deste ano. Esperamos meses, senão anos, de resposta", alertou Hossam Elsharkawi.

As equipas do Crescente Vermelho Marroquino deslocaram-se imediatamente para o terreno para "avaliar a situação, apoiar as operações de busca e salvamento e prestar ajuda às populações afetadas, em estreita coordenação com a FICV e as autoridades locais", sublinha o comunicado. A ajuda é múltipla: "primeiros socorros, apoio psicológico e ajuda no transporte dos feridos para os hospitais", mas "as zonas mais afetadas são bastante remotas e montanhosas, portanto de difícil acesso".

Três dias de luto nacional

Numa reunião presidida pelo rei de Marrocos, Mohammed VI, foram decretados três dias de luto. O monarca emitiu instruções para "o prosseguimento com celeridade das ações de socorro no terreno", para a formação imediata de uma "comissão interministerial responsável pela elaboração de um plano de urgência de reabilitação e de ajuda à reconstrução dos edifícios destruídos nas zonas sinistradas" e ainda para o fornecimento de "apoio às pessoas em maior dificuldade, particularmente os órfãos e pessoas vulneráveis". Ordenou ainda "o apoio imediato a todas as pessoas que se encontram sem abrigo devido ao sismo, em particular em termos de alojamento, alimentação e outras necessidades de base", e a abertura de uma conta especial junto das Finanças e do Banco Al Maghrib (o Banco Central), para receber as contribuições voluntárias de solidariedade dos cidadãos e dos organismos privados e públicos.

"É a vontade de Deus"

A vila de Moulay Brahim, nas montanhas do Alto Atlas, terá sido o aglomerado populacional mais atingido pelo sismo. Uma reportagem da France Press deu conta do testemunho de Lahcen Aït Tagaddirt, um homem que perdeu a mulher e os quatro filhos. "Perdi tudo", diz Lahcen, falando no posto de saúde desta pequena localidade, localizada a mais de uma hora de carro da turística cidade de Marraquexe.

Durante a tarde os socorristas ainda não haviam conseguido retirar o corpo de sua esposa e de um dos seus filhos dos escombros de sua casa, que desabou durante o terramoto. Os corpos de dois dos seus filhos já haviam sido retirados. "Tudo o que eu quero é afastar-me do mundo e lamentar a minha perda", afirma o marroquino - que só não morreu porque à hora do sismo não estava em casa.

Além da sua família mais próxima, Lahcen sofreu a perda de dois sobrinhos, de três e seis anos. "É a vontade de Deus", repete este homem, vestido com uma túnica tradicional, lamentando a dureza da vida nesta região montanhosa: "Não temos nada aqui." Os moradores do município, que tem cerca de três mil habitantes, já começaram a cavar sepulturas numa colina.

"É uma tragédia terrível, estamos chocados com essa desgraça", diz Hasna, uma moradora sentada à porta de sua casa, incapaz de esconder a sua comoção. "Embora a minha família esteja a salvo, toda a vila chora pelos seus filhos. Muitos vizinhos perderam parentes. É uma dor indescritível. Ainda tremo..."

No topo da cidade, Bouchra enxuga os olhos marejados enquanto vê alguns dos seus vizinhos a cavar sepulturas. "Os filhos da minha prima morreram. Vi os estragos do terramoto ao vivo e ainda tremo agora. Foi como se uma bola de fogo tivesse devorado tudo no seu caminho. Todo o mundo aqui perdeu alguém da sua família, seja na vila ou em outros pontos da região."

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