Simone Tebet junta-se a Fernando Henrique Cardoso e vota Lula

Antigo presidente recebe apoio do governador do Pará e de barões do PSDB. Bolsonaro conquista mais dois governantes estaduais, além do antecessor, Michel Temer.

Simone Tebet, terceira classificada na primeira volta das eleições do Brasil, com 4,2% dos votos, equivalentes a 4,9 milhões de eleitores, declarou apoio a Lula da Silva, o vencedor do pleito, com 48,4% dos sufrágios, após encontro em São Paulo. Depois de conquistar o apoio, tímido, de Ciro Gomes, quarto mais votado com 3%, o presidente do Brasil de 2003 a 2010 tenta, com Tebet a seu lado, ganhar avanço decisivo sobre Jair Bolsonaro, candidato à reeleição e escolhido por 43,2% dos brasileiros.

"A minha decisão é por um projeto de país", disse Tebet, ainda antes de almoçar com Lula, em encontro com Geraldo Alckmin (PSB), o candidato a vice-presidente. Na ocasião, ela entregou o seu programa de governo, fez cinco sugestões a Lula, em caso de vitória deste, no dia 30, e comprometeu-se a participar na campanha do antigo presidente.

No final do encontro garantiu: "Apesar das críticas que fiz, depositarei nele o meu voto. Seu compromisso é com a democracia e Constituição, o que desconheço no atual presidente". Tebet afirmou ainda que não "cabe omissão" neste momento e que, "até ao dia 30 de outubro" estará nas ruas em campanha pelo petista. "Meu grito será pela defesa da democracia e por justiça social", afirmou....

Uma posição que repetiu no Twitter, onde explicou que "meu apoio é por um Brasil que sonho ser de todos, inclusivo, generoso, sem fome e sem miséria, com educação e saúde de qualidade, com desenvolvimento sustentável".

A luta entre os candidatos por apoios é renhida, já que parte dos partidos deu liberdade de escolha. Por exemplo, Michel Temer, presidente de 2016 a 2018, anunciou apoio a Bolsonaro instantes antes de Tebet se juntar a Lula - e ambos são do MDB.

Uma situação equivalente ao PSDB, partido de centro-direita que durante 20 anos rivalizou no poder com o PT, de Lula, e fez parte da coligação de apoio a Tebet, no último domingo, dia 2. Rodrigo Garcia, o governador de São Paulo que não chegou à segunda volta, declarou apoio ao atual presidente, o que motivou uma debandada no seu governo, incluindo de Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Já José Serra, histórica liderança do partido, candidato derrotado à presidência em 2006 e em 2010, opta por Lula, assim como Tasso Jereissati, um dos mais destacados senadores do partido.

"Pela democracia"

Mas o apoio mais aguardado entre tucanos, como são chamados os membros do PSDB, era o de Fernando Henrique Cardoso, aos 91 anos o patriarca da formação. O presidente de 1995 a 2002 vota Lula "pela democracia". "Nesta segunda volta, voto por uma história de luta pela democracia e inclusão social", escreveu nas redes sociais como legenda a duas fotos antigas de ambos, aliados e rivais ao longo de todo o período de redemocratização do Brasil. "Pela democracia e pela inclusão social. Obrigado pelo seu voto e confiança. O Brasil precisa de diálogo e de paz", respondeu Lula.

O Cidadania, terceiro partido, ao lado de MDB e PSDB, da coligação de Tebet, também apoia Lula, assim como o PDT, partido de Ciro, enfático a pedir voto ao presidente de 2003 a 2010 no último domingo de outubro. "De um lado, tem o Lula, que é um democrata. Do outro, o Bolsonaro, que é um aspirante a ditador, que representa o atraso do nosso país, que é um malversador do dinheiro público e que é um falso cristão", disse Carlos Lupi, presidente do PDT. Ciro seguiu a indicação do partido - "endosso-a integralmente" - mas sem se referir a Lula.

Lula e Bolsonaro lutam ainda, palmo a palmo, pelos governadores dos estados, embora parte já tenha tomado partido na primeira volta. Além de Garcia, em São Paulo, o atual presidente recebeu a confirmação do apoio de Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e de Cláudio Castro, seu correligionário no PL, do Rio de Janeiro, ainda na terça-feira, dia 4, e de Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, e de Ratinho Junior (PSD), do Paraná. Helder Barbalho (MDB), do Pará, confirmou aliança com Lula.

Máquina estatal

O principal aliado de Bolsonaro na campanha, entretanto, tem sido a máquina estatal. O governo gastará 6,4 mil milhões de reais até 25 de outubro com benefícios que não estavam incluídos no Orçamento. A conta soma, segundo reportagem do site PoderData, o valor extra no Auxílio Brasil; aumento do vale-gás; e vouchers aos camionistas e taxistas. Os beneficiários já haviam recebido 12,2 mil milhões de agosto a setembro, às vésperas da primeira volta. No total, são 18,6 mil milhões de reais, cerca de 3,6 mil milhões de euros.

O PT chama as medidas de "eleitoreiras". O candidato à reeleição garante que o seu ministro da economia, Paulo Guedes, já sabe de onde virão os recursos, mas não especificou o local.

Violência

No primeiro caso de assassinato conhecido depois da primeira volta, um eleitor de Lula matou um bolsonarista, após discussão ao almoço. Luiz Ferreira, eletricista, alegou legítima defesa para esfaquear o estilista José Mendes. "Devido a uma crítica política da vítima, o suspeito sentiu-se ofendido. Ambos passaram a discutir e evoluíram para a agressão. Um deles, a vítima, muniu-se com uma faca e, na luta com o autor do crime, este conseguiu pegar a arma da vítima, e esfaqueou-a", disse o delegado Arilson Brandão.

dnot@dn.pt

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