Segundo Ministro da Saúde de Bolsonaro diz que se demitiu por pressões para uso de cloroquina

Nelson Teich, médico oncologista que ocupou a pasta por um mês no ano passado, afirmou em Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a responsabilidade do governo nos 412 mil mortos que sentiu não ter "autonomia" em relação ao medicamento sem eficácia comprovada para covid-19. O presidente, entretanto, fala em guerra química da China

O segundo dos quatro ministros do governo Bolsonaro ao longo da pandemia afirmou nesta quarta-feira (5 de maio) ter saído do governo apenas um mês após a posse por não sentir autonomia para aplicar as políticas que defendia no combate ao vírus. A gota de água, disse o médico oncologista Nelson Teich, foi a pressão para o uso de cloroquina, o remédio sem eficácia no combate à doença defendido pelo presidente da República do Brasil.

"As razões da minha saída do ministério são públicas, elas devem-se basicamente à constatação de que eu não teria autonomia e liderança que imaginava indispensáveis ao exercício do cargo. Essa falta de autonomia ficou mais evidente em relação as divergências com o governo quanto à eficácia e extensão do uso do medicamento cloroquina para o tratamento da covid-19, enquanto a minha convicção pessoal, baseada nos estudos, era que naquele momento não existia evidência de sua eficácia para liberar".

A explicação foi dada no segundo dia de audições na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado Federal do Brasil que investiga a responsabilidade do governo nos mais de 410 mil mortos na pandemia. No primeiro dia de audições [terça-feira, dia 4], foi ouvido o antecessor de Teich, o ortopedista e presidenciável em 2022 Luiz Henrique Mandetta, que sublinhou "o desprezo de Bolsonaro para com a ciência". No dia 19, será a vez de prestar declarações Eduardo Pazuello, o general paraquedista que exerceu o cargo por nove meses, alinhado às ideias do presidente. O atual ministro é o cardiologista Marcelo Queiroga.

Teich completou o seu depoimento sobre o tema: "Existia um entendimento diferente por parte do presidente que era amparado na opinião de outros profissionais, até do Conselho Federal de Medicina que naquele momento autorizou a extensão do uso e foi isso aí que motivou a minha saída". "Sem a liberdade para conduzir o ministério conforme as minhas convicções, optei por deixar o cargo", destacou.

"Eu não diria que me senti enganado, mas percebi ao longo daquele período que eu não teria a autonomia necessária para conduzir da forma mais correta. O pedido de demissão específico foi por causa do pedido de ampliação do uso da cloroquina. Era um problema pontual, mas isso refletia numa falta de liderança".

Sobre a ordem para produção de cloroquina dada pelo governo, Teich disse desconhecer de onde ela partiu. "Eu não participei disso. Se aconteceu alguma coisa [sobre a produção de cloroquina], foi fora do meu conhecimento. Ali eu tinha uma posição muito clara em relação não só sobre a cloroquina, mas a qualquer medicamento. Não fui consultado [...] Do que eu vivi naquele período, a gente nem falava em cloroquina [...] Foi um assunto que não chegou a mim, a produção da cloroquina."

"É uma conduta que pra mim, tecnicamente, era inadequada [a implementação da cloroquina]. Isso é para qualquer medicamento. Existe uma metodologia para você incorporar um medicamento", disse ainda.

Durante uma sessão atribulada - houve discussão entre senadoras, que queriam ter a palavra uma vez que na CPI nenhum dos 18 membros é mulher, e senadores alinhados ao governo, que reivindicava falar primeiro - ecoaram declarações de Bolsonaro à mesma hora. "Canalha é aquele que é contra o tratamento precoce e não apresenta alternativa, esse é um canalha. O que eu tomei​​ todo mundo sabe", declarou Bolsonaro em discurso no Palácio do Planalto, em evento de abertura da Semana Nacional das Comunicações.

"Ouso dizer que milhões de pessoas fizeram esse tratamento", continuou, antes de insinuar que farmacêuticas e laboratórios não estariam a investir na busca de um remédio por questões financeiras. "Porque não se investe em remédio? Porque é barato demais? É lucrativo para empresas farmacêuticas ou laboratórios investir no que é caro? Nós conhecemos isso". O presidente do Brasil não se sustentou em provas para basear as suas insinuações.

Na sua comunicação, Bolsonaro acrescentou também que o covid-19 "é um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado". "Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?".

Confrontado com essas frases, Teich disse discordar de todas elas.

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