Santos Silva alerta para "espiral negativa" se Europa descurar América Latina

Ex-chefe da diplomacia foi o galardoado este ano com o prémio IPDAL-Vista Alegre.

O presidente da Assembleia da República e ex-chefe da diplomacia, Augusto Santos Silva, defendeu ontem que "a relação entre a Europa e a América Latina é absolutamente necessária, em primeiro lugar, para a própria Europa", lamentando que os europeus nem sempre compreendam esta situação. Santos Silva avisou ainda que o facto de o Velho Continente estar menos presente naquela região, abre as portas a que outros estejam mais presentes, numa referência à China. "É preciso ter cuidado para não criar uma espiral negativa que prejudicará a América Latina e a Europa", afirmou.

O ex-ministro falou após ter recebido, das mãos do presidente do Instituto para a Promoção e Desenvolvimento da América Latina e Caraíbas (IPDAL), Paulo Neves, o prémio IPDAL - Vista Alegre pelo seu trabalho na promoção desta região enquanto chefe da diplomacia, cargo que ocupou entre 2015 e 2022. Santos Silva disse ter sido "obrigado, pela circunstância" a fazer algo de que não gosta, que é falar de uma área que tutelou, num curto discurso diante de vários embaixadores.

"A América Latina merece uma atenção particular da Europa", defendeu, falando em razões não só de ordem histórica, cultural e civilizacional, mas também das "afinidades estruturais" que existem. Essas razões têm de ser "respeitadas e cultivadas", sendo que "só podem ser respeitadas se forem traduzidas em relações fortes e quotidianas em todos os níveis, desde logo ao nível económico e comercial".

Neste aspeto, e lembrando que a Europa passou de segundo para terceiro parceiro económico da América Latina, atrás dos EUA e da China, Santos Silva deixou o aviso: "Nós, europeus, não gostamos de praticar uma política de exclusão. O facto de estarmos presentes não significa que outros não possam estar presentes, mas o que tem acontecido na América Latina não é isso. O que tem acontecido é que a Europa está menos presente e, em consequência, outros Estados estão mais presentes. E o facto de esses outros estarem mais presentes, torna a presença da Europa mais difícil".

Santos Silva defendeu ainda que a relação deve ser triangular. "É impossível a Europa lidar com a América Latina se não incluir, numa triangulação, a África", referiu, congratulando-se com o facto de, a partir de agosto, a Colômbia ir ter a primeira afrodescendente no cargo de vice-presidente, Francia Márquez.

A África, referiu, foi incluída nesta relação historicamente "por razões ligadas a uma das opressões mais brutais que a humanidade já conheceu", numa referência à escravatura, "mas deve incluir-se agora numa perspetiva de paz, de segurança mútua, de vantagens recíprocas, de crescimento económico e de gestão adequada da mobilidade humana."

susana.f.salvador@dn.pt

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