Quase um ano depois de ter sido assinado, o acordo que permitia à Ucrânia a exportação dos seus cereais através do Mar Negro está morto. A decisão de Moscovo de não prolongar o prazo, que terminava esta segunda-feira às 22.00 de Lisboa, foi anunciada poucas horas depois de um ataque ter destruído (de novo) parte da ponte que liga a Crimeia ocupada à Rússia, causando a morte de um casal de civis e ferimentos numa criança. O Kremlin fala em "terrorismo" e aponta o dedo aos ucranianos e aos aliados ocidentais, mas garante que a decisão sobre o acordo não está relacionada com este ataque..O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse "lamentar profundamente" que a Rússia tenha decidido rasgar o acordo que permitiu a exportação de 32 milhões de toneladas de cereais (metade delas milho) e outros alimentos dos portos ucranianos. "Numa altura em que a produção e disponibilidade de comida é afetada por conflitos, alterações climáticas, preços da energia e mais, estes acordos ajudaram a reduzir o preço dos alimentos em mais de 23% desde março do ano passado. Centenas de milhões de pessoas enfrentam a fome e os consumidores enfrentam uma crise global do custo de vida. Eles vão pagar o preço", acrescentou num comunicado, prometendo continuar a trabalhar para reverter esta decisão..Antes da invasão russa, a Ucrânia era o principal exportador mundial de trigo - o país era conhecido como o "celeiro do mundo" - e a Rússia era o quinto maior. O acordo permitiu a saída das toneladas de cereais que estavam bloqueadas nos portos - tendo 45 países de três continentes recebido esta mercadoria. A maior parte chegou à China, Espanha e Turquia, com 44% das exportações a chegarem a países considerados ricos. Cerca de 725 milhões de toneladas chegaram através do Programa Alimentar Mundial a países necessitados..Ao mesmo tempo que a Ucrânia podia exportar os seus cereais, um acordo paralelo (nunca nada foi assinado diretamente entre Kiev e Moscovo) facilitava as exportações de alimentos e fertilizantes russos. A Rússia queixa-se de que partes deste acordo não foram cumpridas, além de alegar que os cereais ucranianos não estão a chegar a quem precisa. A ONU explica contudo que só o facto de ter baixado os preços já teve impacto..O acordo dos cereais foi assinado com o apoio das Nações Unidas e da Turquia, com o presidente Recep Tayyip Erdogan a manter-se confiante de que o "amigo" Vladimir Putin queria manter o acordado. Isto apesar das declarações do porta-voz do Kremlin. "O acordo dos cereais terminou. Assim que a parte russa for cumprida, o lado russo vai voltar de imediato ao acordo", afirmou Dmitry Peskov..Apesar de Peskov garantir que o ataque à ponte da Crimeia não tem nada a ver com a decisão, este novo embaraço para os russos pode não ter ajudado a manter abertas as negociações. Símbolo do sucesso da anexação ilegal da Crimeia (em 2014), a ponte rodoviária e ferroviária de Kerch foi inaugurada pelo próprio Putin em 2018. Os seus 19 quilómetros são a única ligação entre o território ocupado e a Rússia, sendo a ponte crucial para o fornecimento de alimentos e combustível para a Crimeia e para as tropas que estão no sul da Ucrânia..Em outubro, Moscovo acusou a Ucrânia de estar por detrás da explosão de um camião armadilhado que destruiu parte da ponte, matando três pessoas e obrigando a fechar a passagem durante meses. Putin retaliou ao "ataque terrorista" com ataques contra várias cidades ucranianas, incluindo Kiev, atravessando ele próprio a ponte logo em dezembro (apesar de só ter reaberto ao tráfego já em fevereiro). A Ucrânia nunca reivindicou oficialmente o ataque, apenas de forma indireta e meses depois: o presidente Volodymyr Zelensky incluiu a ponte num dos "sucessos" do seu exército em 2022..Entretanto, a ponte tornou-se num dos pontos mais bem vigiados, com o reforço das defesas antiaéreas para prevenir ataques com mísseis e buscas nos veículos para evitar novos camiões carregados com explosivos. Nas águas, há mais golfinhos treinados para proteger não só a frota do Mar Negro, mas a própria ponte. Nada disso terá sido suficiente para evitar o ataque desta segunda-feira, por volta das 3.00 da madrugada, que segundo a investigação russa foi perpetrado com recurso a "dois drones de superfície marítima não tripulados"..Oficialmente, a Ucrânia não reclamou a autoria do ataque, mas várias fontes confirmaram à AFP e a meios ucranianos que os serviços de inteligência (SBU) são responsáveis. O porta-voz do SBU disse que depois de ganharem a guerra darão pormenores, sem chegar a admitir nada. Putin prometeu retaliar. O ataque, que matou um casal e feriu a filha, só destruiu a parte rodoviária, com a ferroviária a ficar intacta e também não houve danos nos pilares - isso obrigaria a uma reparação mais demorada. As previsões são que as travessias possam ser retomadas num sentido a 15 de setembro e nos dois sentidos a 1 de novembro..Cerca de 50 mil turistas russos que estavam na Crimeia (apesar da guerra continuou a ser um popular destino de férias), muitos deles com os próprios carros, terão que encontrar outra forma de regressar. A Rússia sugere que façam o percurso de 400 quilómetros por zonas ocupadas pelos russos na Ucrânia, dizendo que o exército lhes garante a segurança. Esta segunda-feira, as filas já tinham vários quilómetros de comprimento para entrar na região de Kherson..susana.f.salvador@dn.pt