Rushan Abbas: "Guterres está a apoiar um regime genocida"

A ativista pelos direitos dos uigures esteve em Lisboa para a projeção de um documentário em que é protagonista e no qual expõe a campanha de Pequim contra aquele povo do noroeste do país.

Rushan Abbas não se cansa de ver o filme. "Sim, já o vi tantas vezes, mas há emoções diferentes, reações diferentes, no envolvimento dos espectadores. Ao ver o impacto que causa nas pessoas sinto que, por fim, estamos a chegar às pessoas." O ativismo pelo seu povo leva décadas, mas foi com a criação da Campaign for Uighurs (Campanha pelos Uigures) em 2017, em Washington, em paralelo com as notícias de que as autoridades chinesas estavam a criar campos de concentração na província de Xinjiang, que a palavra começou, por fim, a espalhar-se. Em In Search of my Sister, o realizador Jawad Mir, que há quatro anos desconhecia o povo uigure, acompanha a luta de Rushan Abbas na defesa do seu povo e também pela libertação da irmã, a médica Gulshan Abbas, que desapareceu em setembro de 2018, e só dois anos e três meses depois Pequim disse ter sido condenada a 20 anos de prisão por "terrorismo".

No final da sessão, que decorreu na Universidade Católica também com a presença do seu marido, igualmente ativista, Abdulhakim Idris, e do realizador, Rushan Abbas, de 55 anos, falou ao DN e criticou o papel de Michelle Bachelet e de António Guterres.

Como vê a perceção do povo chinês no que respeita aos uigures?
O genocídio é um processo, não acontece de um dia para o outro. O primeiro passo é rotular um povo, o segundo ou terceiro é demonizá-lo. Foi o que o governo chinês fez quando decidiu executar as políticas de genocídio, demonizaram o povo uigure, estigmatizaram a nossa cultura, fizeram da religião um ato criminoso e usaram todo o tipo de propaganda. Antes do 11 de Setembro, e depois de ter entrado na Organização Mundial do Comércio, o governo chinês fazia vídeos em que se dizia "bela terra com um povo pacífico, venham e invistam", depois da tragédia nos EUA os uigures passaram a ser terroristas, um povo não civilizado, bárbaro. Muitas pessoas dizem que se está a tirar os uigures da pobreza e a criar postos de trabalho. Isso são mentiras porque estão a levar os han [etnia predominante na China] para a nossa região, a dar-lhes trabalhos, casa e dinheiro. Se há um problema de desemprego por que estão a levar os han para a região? Este tipo de desinformação fomenta o ressentimento entre os han e os uigures. Para os restantes chineses, os uigures são o problema, um povo retrógrado e sem educação. Muitos deles desconhecem o que se está a passar, mas se alguns sabem que os uigures são levados para campos de concentração, não mostram afeto. Num documentário da PBS questionam uma mulher septuagenária han sobre o assunto e ela responde: "Está bem."

Pequim alegou ter problemas de segurança e no filme recordam ataques terroristas na região. Era de facto um problema?
O governo chinês começou as políticas de "atacar primeiro, disparar no alvo" no início da década passada. O que significa isto? Se uma pessoa passar um sinal vermelho de bicicleta, a polícia de trânsito pode matá-la. Qualquer força de segurança pode entrar nas casas dos uigures e fazer o que bem lhes apetecer. Muitos aproveitam o facto de os homens estarem fora em trabalho para atacarem as mulheres. É errado, mas alguns acabam por retaliar. Há ressentimento e alguns incidentes aqui e ali, mas nada justifica ter três milhões de inocentes nos campos.

"Para os restantes chineses, os uigures são o problema, um povo retrógrado e sem educação. Muitos desconhecem o que se está a passar."

O relatório da alta comissária dos Direitos Humanos da ONU saiu após muita pressão e ter-lhe-á custado a hipótese de permanecer no cargo. Valeu a pena a espera?
Era o que queríamos? Nem por isso, porque não fala em genocídio, como seria se tivessem seguido o que está documentado. E estiveram a atenuar o texto até ao último minuto. Por exemplo, retiraram a parte sobre a esterilização forçada, a parte mais importante sobre o genocídio. Ao fim de anos à espera é uma pequena vitória, mas agora, como é que os estados-membros e as Nações Unidas vão usar este relatório? Michelle Bachelet demorou quatro anos a publicar o relatório e fê-lo no último minuto, e António Guterres enquanto secretário-geral não criticou a China uma única vez. Foi ele quem pôs Bachelet naquele lugar. Agora, com este relatório, e com o acontecimento de hoje [EUA, Reino Unido, Canadá, Noruega, Suécia, Dinamarca e Islândia pediram para o relatório ser discutido no Conselho de Direitos Humanos da ONU] espero que tome a decisão certa e se coloque no lado certo da história, porque a sua reputação está em jogo. Basicamente está a apoiar um regime genocida. Tem sido uma grande desilusão para nós. Porque é que esta entidade existe? Para impedir atrocidades como esta. Cabe a Guterres fazer o que está certo e tomar medidas concretas. De outra forma, o seu legado ficará manchado tal como o de Michelle Bachelet.

A lei aprovada no congresso norte-americano contra o trabalho forçado, que na prática impede a importação de produtos de Xinjiang, terá um impacto grande?
Está a começar a ter. Foi aprovada em junho e deu seis meses às empresas para limparem as cadeias de abastecimento.

cesar.avo@dn.pt

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