Relatório do partygate é prejudicial, mas Johnson deve resistir ao escândalo

Primeiro-ministro recusa demitir-se, apesar de dois terços dos britânicos defenderem a sua saída, e quer deixar o escândalo para trás.

Um novo pedido de desculpas, o assumir da "total responsabilidade", a recusa em renunciar ao cargo e o desejo de deixar para trás o escândalo para lidar com temas como o aumento dos preços ou a guerra da Ucrânia. O tão esperado relatório interno sobre as festas ilegais que ocorreram em Downing Street durante o confinamento foi publicado esta quarta-feira, mas o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, deverá sobreviver ao partygate - apesar de as sondagens dizerem que dois terços dos britânicos considerarem que se devia demitir.

No seu relatório, Sue Gray, a alta funcionária do Estado responsável pelo inquérito, analisou 15 eventos em Downing Street, com relatos de ocasiões em que os participantes ficaram embriagados, tendo um deles chegado a vomitar, casos de altercações e de festas com karaoke que se prolongaram pela madrugada fora. "Muitos desses eventos não deveriam ter ocorrido", escreveu Gray, que disse também que houve "vários exemplos de falta de respeito e mau tratamento da equipa de segurança e limpeza". O primeiro-ministro já pediu pessoalmente desculpa a estes funcionários.

O relatório de 37 páginas inclui em anexo fotografias em que se vê Johnson em alguns desses eventos - foi um dos que recebeu uma das 126 multas passadas pela Polícia Metropolitana que também investigou o partygate -, mas não aponta diretamente o dedo ao primeiro-ministro. "A equipa de liderança superior, tanto política quanto oficial, deve assumir a responsabilidade", refere contudo Gray.

Johnson, que encomendou a investigação quando surgiram as primeiras notícias sobre as festas ilegais, admitiu que ficou "chocado" com algumas revelações. O primeiro-ministro é também alvo de uma investigação parlamentar, sendo acusado de enganar o Parlamento quando reiterou em inúmeras ocasiões que todas as regras tinham sido seguidas. "Era o que acreditava ser verdade", disse. As conclusões de tal investigação normalmente resultam numa demissão, mas Johnson tem-se mantido firme na sua posição de não sair.

As atenções viram-se contudo para o Comité 1922, ao qual pertencem os deputados conservadores que não têm cargos no governo. Johnson reuniu-se esta quarta-feira com eles, voltando a repetir as explicações que tinha dado horas antes no Parlamento e depois em conferência de imprensa. São precisas 54 cartas a retirar a confiança em Johnson enquanto líder para desencadear uma moção de censura no Partido Conservador, que eventualmente poderá culminar na saída do primeiro-ministro. O número de cartas que já existem não é público mas, segundo as contas da Sky News, 16 deputados já pediram a sua saída - e anunciaram-no - e 24 questionaram a sua posição.

As próximas horas podem ser decisivas para saber se os conservadores avançam ou não nesse sentido, sendo que hoje o governo britânico já tem previsto apresentar um novo pacote de ajuda para lidar com o aumento do custo de vida. A ideia é tentar deixar para trás a polémica com o partygate. Durante o debate no Parlamento, o líder da oposição, o trabalhista Keir Starmer, tinha precisamente acusado Johnson de "falta de liderança" por deixar o governo "paralisado" no meio da crise económica. "O governo concentrou-se em salvar a própria pele. É profundamente vergonhoso", afirmou o líder trabalhista.

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG