Tensão aumenta. Registados bombardeamentos no leste da Ucrânia

Observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa registaram vários "incidentes de bombardeamentos" entre os separatistas apoiados pela Rússia e as forças do governo no leste da Ucrânia.

Foram registados vários "incidentes de bombardeamentos" entre os separatistas apoiados pela Rússia e as forças de Kiev no leste da Ucrânia esta quinta-feira, disse uma fonte diplomática à Reuters. Situação terá sido verificada pelos observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Separatistas apoiados pela Rússia no leste da Ucrânia acusaram as forças do governo de abrir fogo no território nas últimas 24 horas, estando ainda por determinar a gravidade da situação. Por outro lado, o governo ucraniano acusa os separatistas de usarem artilharia pesada.

O centro de comando militar ucraniano no leste alegou que as forças apoiadas por Moscovo dispararam artilharia pesada numa aldeia na região de Lugansk, tendo atingido um jardim-de-infância. "Segundo dados preliminares, dois civis ficaram feridos", referiu o comando militar, citado pela AFP.

O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, condenou os alegados bombardeamentos, sem referir a existência de feridos. "Apelamos aos nossos parceiros que condenem rapidamente esta grave violação dos acordos de Minsk pela Rússia durante uma situação de segurança já tensa", disse o governante, referindo-se aos acordos assinados em 2014 e 2015.

Em comunicado, citado pela Reuters, representantes da autoproclamada República Popular de Lugansk acusaram as forças ucranianas de usarem morteiros, lançadores de granadas e uma metralhadora em quatro incidentes distintos. "As forças armadas da Ucrânia violaram grosseiramente o regime de cessar-fogo, usando armas pesadas, que, de acordo com os acordos de Minsk, deveriam ser retiradas", afirmaram os separatistas.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, já veio dizer que esta situação gera uma "preocupação profunda". Disse esperar que os EUA e os países da NATO usem "toda a sua influência para alertar as autoridades de Kiev sobre uma nova escalada".

Fonte da União Europeia fez saber que os bombardeamentos em Donbass, região separatista da Ucrânia, estão a ser analisados, referindo que estes incidentes podem ser usados como "teste ou desculpa".

De acordo com a Reuters, estes incidentes ocorreram muitas vezes ao longo dos últimos oito anos, mas este desenvolvimento ganha uma nova dimensão, uma vez que a tensão entre a Rússia e os países Ocidentais mantém-se, após mais de 100 mil militares russos terem sido destacados para junto das fronteiras com a Ucrânia.

O registo de bombardeamentos no leste da Ucrânia acontece numa altura em que estão a ser veiculadas informações distintas da Rússia e dos países ocidentais sobre uma possível diminuição da tensão na região.

Se por um lado a Rússia tem anunciado a retirada parcial de tropas estacionadas junto das fronteiras com o país vizinho, após o fim de exercícios militares - já esta quinta-feira Moscovo declarou que continua a retirar as suas forças militares na Crimeia -, os EUA, por exemplo, afirmam exatamente o oposto.

"De facto, confirmámos agora que, nos últimos dias, a Rússia aumentou a sua presença ao longo da fronteira ucraniana em sete mil tropas, algumas das quais chegaram hoje [quarta-feira]", afirmou um alto responsável da administração norte-americana, sob a condição de não ser identificado, citado pelas agências de notícias Associated Press e AFP.

Desta forma, as novas estimativas colocariam o número de forças russas próximo das 150 mil.

Esta quinta-feira, a ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Liz Truss, manifestou ceticismo em relação à informação que chega de Moscovo. "Não devemos ser enganados por uma falsa sensação de segurança pela Rússia, que alega que algumas tropas estão a regressar aos quartéis", disse ao jornal "Daily Telegraph".

"Atualmente, não há evidências de que os russos estão a retirar-se das regiões fronteiriças perto da Ucrânia", declarou a ministra.

O secretário de Estado das Forças Armadas diz mesmo que "é preocupante" o que se tem assistido nas últimas 48 horas. Afirma que não é a retirada parcial de tropas que foi anunciada pela Rússia que está a ocorrer, mas o contrário. "As tropas continuam a movimentar-se em direção à fronteira ucraniana", disse James Heappey em declarações à BBC Radio 4.

Heappey diz que milhares de soldados russos "estão a movimentar-se em direção à Ucrânia" e não a retirar-se das regiões fronteiriças.

Bielorrússia disponível para instalar armas nucleares em caso de ameaça ocidental

O presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, aliado de Moscovo, disse hoje que o seu país está disponível para receber "armas nucleares" caso haja uma ameaça do Ocidente no âmbito da crise na Ucrânia.

"Se for necessário (...) vamos colocar não apenas armas nucleares, mas também armas super nucleares para defender o nosso território", afirmou Lukashenko, citado pela imprensa bielorrussa.

A medida poderá ser acionada se forem tomadas "medidas idiotas" por "rivais e adversários" da Bielorrússia, aliada da Rússia na crise com o Ocidente devido à Ucrânia, disse Lukashenko.

"Se não houver ameaças de países hostis à Bielorrússia, não haverá necessidade de ter armas nucleares aqui durante os próximos 100 anos", acrescentou.

Após a dissolução da União Soviética, em 1991, a Bielorrússia, como outras ex-repúblicas soviéticas, renunciou a ter armas nucleares no seu território por pressão norte-americana e concordou em devolvê-las à Rússia.

A Constituição da Bielorrússia de então previa que o país permanecesse uma "zona livre de armas nucleares", mas este artigo foi substituído na nova versão da lei fundamental proposta por Lukashenko e sobre a qual os bielorrussos irão votar num referendo agendado para 27 de fevereiro.

O novo artigo mantém a ausência de armas nucleares do país "excluindo em caso de agressão militar ao território" da Bielorrússia.

Os Estados Unidos ficaram alarmados com essa alteração da Constituição, que pode permitir a instalação de armas nucleares russas na Bielorrússia, país que faz fronteira com a Ucrânia e com a Polónia.

A Rússia mobilizou milhares de soldados para junto da fronteira ucraniana desde o final de 2021, aumentando os receios de uma potencial invasão e provocando a pior crise com os ocidentais desde a Guerra Fria.

Lukashenko reúne-se esta sexta-feira com Vladimir Putin

Extensas manobras militares russo-bielorrussas também estão em curso na Bielorrússia.

Alexander Lukashenko é esperado na Rússia na sexta-feira para conversar com o seu homólogo e aliado, Vladimir Putin.

Lukashenko adiantou hoje que, nessa reunião, os dois chefes de Estado irão decidir se vão retirar os soldados russos que estão em exercícios militares na Bielorrússia, incluindo na fronteira com a Ucrânia.

"O que decidirmos amanhã [sexta-feira], acontecerá", afirmou Lukashenko durante uma inspeção às manobras "Allied Determination-2022" (Determinação Aliada), no campo de treino de Osipovichi, ao sul de Minsk, segundo a agência oficial bielorrussa Belta.

Os dois países estão a realizar estes exercícios militares desde o dia 10 e o plano é continuar até domingo.

O Presidente bielorrusso garantiu que "assim que a decisão for tomada, os militares se retirarão num período de 24 horas".

"Se tomarmos a decisão de que [a retirada só será feita daqui] a um mês, eles [os soldados] estarão lá durante um mês. As Forças Armadas estarão lá o tempo que for necessário. Esta é a nossa terra, o nosso território", afirmou.

Alexander Lukashenko adiantou ainda que não há necessidade de criar bases militares russas na Bielorrússia, mas que vai pedir à Rússia que crie um centro de treino para o desenvolvimento de mísseis russos Iskander de curto alcance.

Tanto Moscovo como Minsk garantiram que as tropas seriam retiradas para os seus quartéis de origem assim que os exercícios terminassem.

Uma vez que os exercícios conjuntos com a Rússia estejam concluídos, no domingo, "nenhum soldado ou equipamento militar" permanecerá em território bielorrusso", afirmou, na quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Bielorrússia, Vladimir Makei.

Na sua opinião, os dois países estão a realizar os exercícios conjuntos porque a NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte) reforçou a sua presença perto das fronteiras dos dois países, e lembrou a chegada recente de reforços às vizinhas Polónia e Lituânia.

Por outro lado, defendeu ainda Lukashenko, as manobras militares em curso não violam nenhum acordo ou documento internacional.

Moscovo e Minsk recusaram dar explicações aos países-membros da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) que assinaram o chamado Documento de Viena, que visa promover a transparência na movimentação de militares, alegando que os exercícios não têm alcance suficiente para ser necessário fazer uma notificação.

Segundo o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, cerca de 30 000 soldados, caças, mísseis Iskander e sistemas de defesa aérea S-400 estão a ser usados nos exercícios, que classificou como "o maior" destacamento militar na Bielorrússia desde a Guerra Fria.

Com Lusa

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