Ramos-Horta afasta dissolução do parlamento ou queda do governo

Em entrevista à Lusa em Díli, o presidente eleito admitiu que os últimos anos têm sido de alguma "deceção" com a liderança política, mas ressalvou que não tem havido violência.

O presidente eleito timorense afastou o cenário de dissolução do parlamento e eleições antecipadas ou da queda do atual governo, considerando que esses cenários não são adequados dado o contexto de crise económica e social do país. Em entrevista à Lusa, José Ramos-Horta disse que esse compromisso de dissolução, defendido pelo Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT) de Xanana Gusmão - que apoiou a sua candidatura - "não é dogma" e que o essencial é apostar no diálogo de todas as forças parlamentares.

"Sim, isso foi o compromisso, só que nada é dogma em política e não podemos ser dogmáticos, porque isso leva a imprudências e políticas erradas. A grande preocupação de Xanana Gusmão é como fazer face a essa situação de extrema dificuldade da população, não quer maior instabilidade política", explicou. "Nesse sentido cabe ao governo da plataforma fazer gestos em direção ao CNRT e aos que estão no parlamento e em relação à sociedade civil. E esse gesto tem muito a ver com o diálogo".

Ramos-Horta confirmou que "nada deve acontecer de significativo" até à sua investidura, a 20 de maio, e que depois disso, há que ver "a situação de governação do país que não passa necessariamente pela dissolução do parlamento e eleições antecipadas".

O presidente eleito, que vai ocupar o cargo onde já esteve entre 2007 e 2012, referiu-se inclusive a um comunicado conjunto dos líderes dos três partidos da plataforma que apoia o atual governo em que reafirmam a união a pensar nas legislativas de 2023.

Ramos-Horta referiu-se a uma das menções do comunicado em que a plataforma se compromete a "criar uma nova dinâmica de inclusão capaz de contribuir para o reforço da vida e cultura institucionais do Estado e das instituições públicas". "O comunicado fala de diálogo e de maior inclusão e é por aí que vou explorar. Essa frase não foi colocada por acaso", explicou.

Ramos-Horta quer que qualquer programa do governo "seja resultado de consultas com todas as forças", especialmente quando, como agora, o executivo quer um Orçamento Geral do Estado retificativo, com parte do qual o presidente eleito discorda. "Sobretudo quando estamos numa situação em que o governo está a solicitar mais dinheiro, como por exemplo mil milhões de dólares para os veteranos, num período em que faria mais sentido pedir mil milhões para um programa a três, cinco anos, para debelar a crise económica e a crise humanitária e social", afirmou.

Questionado sobre se esse cenário de diálogo é possível se não houver aproximação entre Xanana Gusmão e Mari Alkatiri, líder da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), o maior partido no governo, Ramos-Horta considerou que isso tem que ocorrer. "Não sei se é possível ou não mas tem que haver aproximação entre o CNRT e a Fretilin, com o PLP, PD, etc.. Tem que haver. E Xanana não está fechado a isto, já conversei com ele. Ele tem sido a primeira pessoa a dizer que temos que trabalhar com prudência para assegurar que a investidura do novo presidente decorra em normalidade, tranquilidade, tendo em vista a dignidade e expectativa do nosso povo", frisou.

O presidente eleito notou que "os últimos anos têm sido de alguma deceção em relação à liderança politica" e à capacidade dos líderes "de dialogar e encontrar soluções para os problemas que se têm agravado". Situações de crise política agravadas pela pandemia de covid-19 e por cheias que tiveram "um impacto profundo no crescimento económico do país e com graves consequências sociais" e que deveria ter surgido "uma liderança nacional unida para fazer face à situação, estar com o povo, mais eficaz e mais próxima" da população. "Xanana Gusmão beneficiou pela positiva desta situação dada a sua maneira de ser e personalidade, aproximou-se rapidamente do povo. Foi sempre assim em crises anteriores menos graves", disse. "Não quero com isso dizer que o presidente Lú-Olo, o primeiro-ministro Taur Matan Ruak ou Mari Alkatiri fossem insensíveis. Isso seria exagerado, seria política barata dizer isso, mas cada um tem a sua forma de agir. E a forma do Xanana agir é celeridade, espontaneidade e mobilizar recursos. E ele fez isso, mobilizou muito o setor privado, que gastou centenas de milhares de dólares em material e outras coisas para apoiar".

Apesar das deceções e declarando-se otimista, Ramos-Horta ressalvou que "não houve violência política de espécie alguma" e que nenhum partido "pequeno ou grande, teve a tentação de instrumentalizar apoiantes através de jovens ou de artes marciais, para destabilizar o Estado, o governo". "Isto é para mim a melhor bênção deste país", disse. Agora quer uma presidência "muito dialogante, muito de fazer pontes com todos, sem exceção, e tentar levar a liderança nacional a desenvolver uma visão e, uma estratégia consensuais para os próximos cinco anos".

Jornalista da Lusa

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