Afeganistão. Que tipo de ameaça representa o grupo jihadista Estado Islâmico?

O Estado Islâmico odeia firmemente os talibãs, sendo uma ameaça para os milhares de afegãos que esperam no aeroporto de Cabul conseguir fugir para o Ocidente.

O grupo jihadista Estado Islâmico (EI), que reivindicou os atentados junto ao aeroporto de Cabul, odeia firmemente os talibãs, os novos senhores do Afeganistão.

O que é o Estado Islâmico da Província de Khorasan (ISKP, na sigla em inglês)?

Pouco depois do EI ter proclamado um "califado" no Iraque e na Síria em 2014, antigos membros do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP, talibãs paquistaneses) declararam a sua lealdade ao líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi.

Juntaram-se a eles dissentes talibãs afegãos e, no início de 2015, o EI reconheceu oficialmente a criação da sua província ('wilaya') do Khorasan.

O Khorasan é o antigo nome dado a uma região que incluía partes do atual Afeganistão, Paquistão, Irão e a Ásia Central.

O ISKP estabeleceu-se em 2015 no distrito montanhoso de Achin, na província oriental de Nangarhar, a única onde se consegue implantar de forma permanente, além de na vizinha Kunar.

Em todos os outros locais, o grupo entrou em confronto com os talibãs, embora tenha conseguido formar células adormecidas noutras partes do Afeganistão, sobretudo na capital, e no Paquistão, de acordo com as Nações Unidas.

As últimas estimativas dos seus efetivos variam entre um mínimo de 500 e alguns milhares de combatentes, segundo um relatório do Conselho de Segurança da ONU divulgado em julho.

Que tipo de ataques realizou o ISKP?

O ISKP reivindicou alguns dos atentados mais mortíferos dos últimos anos no Afeganistão e no Paquistão. Massacrou civis em mesquitas, hospitais e outros locais públicos.

O grupo, extremista sunita, tem como alvo principal os muçulmanos que considera hereges, em particular os xiitas.

Em agosto de 2019, reivindicou um atentado contra xiitas num casamento em Cabul, que causou 91 mortos.

É também suspeito de ter realizado um ataque em maio de 2020 contra uma maternidade num bairro maioritariamente xiita da capital afegã, que matou 25 pessoas, incluindo 16 mães e recém-nascidos.

Nas províncias em que está instalado, os seus homens mataram a tiro, decapitaram, torturaram e aterrorizaram aldeões e colocaram minas terrestres em todo o lado.

Quais são as relações entre o ISKP e os talibãs?

Embora ambos os grupos sejam sunitas radicais, têm divergências em termos de teologia assim como de estratégia e são concorrentes em relação à incorporação da 'jihad' [guerra santa].

O ISKP, que chegou a descrever os talibãs como apóstatas em comunicados, enfrentou a repressão destes em relação aos seus dissidentes e não conseguiu expandir o seu território, do contrário do EI no Iraque e na Síria.

O ISKP se opôs à repressão dos talibãs contra os seus dissidentes e não conseguiu expandir seu território, ao contrário do EI no Iraque e na Síria.

Em 2019, o exército afegão, após operações com os Estados Unidos, anunciou que o ISKP tinha sido derrotado na província de Nangarhar.

Segundo Washington e a ONU, desde então, o grupo terrorista tem agido praticamente apenas através das suas células adormecidas, com ataques mediáticos.

Como é que o ISKP reagiu à tomada do poder pelos talibãs?

O grupo criticou o acordo de retirada das tropas norte-americanas e estrangeiras concluído em fevereiro de 2020 em Doha entre Washington e os talibãs, acusando estes de terem renegado a causa 'jihadista'.

Após a sua entrada em Cabul e a tomada do poder a 15 de agosto, os talibãs receberam felicitações de vários grupos 'jiahistas', mas não do EI.

No entanto, o ISKP pode ganhar com o desmoronamento do Estado afegão. Segundo "Mr. Q", um especialista ocidental sobre o grupo que divulga a sua investigação com aquele pseudónimo na rede social Twitter, o grupo realizou 216 ataques entre 01 de janeiro e 11 de agosto, contra 34 no mesmo período do ano passado.

"Isto faz do Afeganistão uma das províncias mais dinâmicas do EI", disse "Mr. Q" a semana passada à agência France-Presse, adiantando que "a vitória dos talibãs também 'dá oxigénio' ao ISKP".

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