Putin prepara anexação de olhos postos na URSS 

Líder russo preside a cerimónia de incorporação de territórios ucranianos na Rússia. António Guterres diz que a anexação é "condenável" e sem valor legal.

Como esperado, Vladimir Putin vai seguir o próximo passo da cartilha usada na Crimeia e, somente três dias após o anúncio dos resultados dos "referendos" em regiões da Ucrânia, vai anunciar a anexação de Lugansk e Donetsk (territórios "independentes" na perspetiva do Kremlin) e ainda de Kherson e Zaporíjia. A jogada do líder russo está a ser condenada de antemão pela generalidade dos governos ocidentais e pelo secretário-geral das Nações Unidas.

Na semana passada, ao discursar na assembleia geral das Nações Unidas, enquanto dizia que a Moscovo não restava outra hipótese que não a de lançar a "operação militar especial", o chefe da diplomacia russo Sergei Lavrov denunciava a "histeria" ocidental em relação aos chamados "referendos", mas mostrou algumas dificuldades em mostrar conhecimento das regiões que diz querer libertar, uma vez que só conseguiu acertar no nome de Donetsk.

Esta sexta-feira, Vladimir Putin leva o discurso do seu regime para outro patamar, ao anunciar a anexação dos territórios que representam cerca de um quinto da área da Ucrânia. Numa cerimónia a decorrer no palácio do Kremlin para emprestar um tom solene e oficial, e com a presença dos dirigentes destacados por Moscovo naquelas regiões, o líder russo, prestes a completar 70 anos, irá proclamar a incorporação dos territórios na Federação Russa.

"O que está a acontecer agora entre a Rússia e a Ucrânia (...) evidentemente, é o resultado do colapso da União Soviética", disse Putin.

Recorde-se que, ao anunciar a mobilização militar para defender "a ameaça à integridade territorial", Vladimir Putin disse que iria "recorrer a todos os meios" à disposição, uma ameaça velada ao uso de armas nucleares. E descodificada uma e outra vez pelo ex-presidente Dmitri Medvedev, que de forma recorrente brande com a ameaça atómica.

Ontem, Putin voltou a mostrar a sua fixação na União Soviética e que o seu fim explica os males atuais. Ao falar perante chefes dos serviços secretos de países da ex-URSS, afirmou: "Basta olhar para o que está a acontecer agora entre a Rússia e a Ucrânia, e para o que está a acontecer nas fronteiras de alguns outros países da Comunidade de Estados Independentes. Tudo isto, evidentemente, é o resultado do colapso da União Soviética". O presidente russo aludia aos confrontos entre tajiques e quirguizes e entre azerbaijanos e arménios nas últimas semanas. E a responsabilidade é do Ocidente, que está "a trabalhar em cenários para alimentar novos conflitos" no espaço pós-soviético.

Enquanto milhares de russos continuam a tentar sair do país para fugir à mobilização, não se ouviu uma declaração internacional de apoio à farsa eleitoral promovida por Moscovo. Para o secretário-geral da ONU António Guterres, o anúncio de Putin "não tem qualquer valor legal e é condenável", "desrespeita os propósitos e princípios das Nações Unidas" e "não tem lugar no mundo moderno".

A Ucrânia, cujo presidente convocou uma reunião urgente do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, mostrou-se inamovível, pela voz do conselheiro Mikhailo Podolyak. "Vamos libertar o nosso território por meios militares. As nossas ações dependem não tanto do que a Federação Russa pensa ou quer, mas das capacidades militares que a Ucrânia tem", disse em entrevista à AP.

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG