Putin espera reforçar laços com Xi, que mantém reservas sobre a Ucrânia

Numa reunião por videoconferência, presidente russo convidou o homólogo chinês para uma visita de Estado. Relações entre Moscovo e Pequim são as "melhores na história".
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Isolada a Ocidente, a Rússia procura reforçar os laços com o Oriente. Numa reunião de final de ano por videoconferência, que já começa a ser tradição, o presidente russo, Vladimir Putin, convidou o homólogo chinês, Xi Jinping, para uma visita de Estado na primavera, dizendo querer reforçar a cooperação militar entre Moscovo e Pequim. Mas, no relato do encontro, os chineses não fizeram referência nem ao convite nem a uma maior cooperação militar - apenas em áreas como economia e comércio, energia ou agricultura. E, sobre a guerra na Ucrânia, deixaram claro que "a China vai continuar a manter uma posição objetiva e imparcial".

O presidente russo alegou que as relações entre Moscovo e Pequim são atualmente "as melhores na história", defendendo que uma visita de Estado de Xi Jinping irá "demonstrar a todo o mundo a força da amizade entre Rússia e China", assim como o acordo de ambos em temas chave. "A sua visita vai tornar-se no principal evento político do ano em relações bilaterais", disse Putin nas declarações públicas no início do encontro.

Mas, na resposta, Xi não fez menção a essa eventual viagem à Rússia, apesar de lembrar que em 2022 teve dois encontros frente-a-frente com Putin - a 4 de fevereiro, antes da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, e a 15 de setembro, à margem de uma cimeira de segurança regional no Usbequistão. O Kremlin precisou mais tarde que não existe ainda uma data concreta para a visita de Estado.

No início da reunião também não houve referência direta àquilo que a Rússia apelida de "operação militar especial" na Ucrânia. Mas houve ao "contexto de pressões e provocações sem precedentes do Ocidente", com Putin a dizer que tanto russos como chineses estão a "defender" os seus princípios e interesses. Lembrando que a "cooperação militar e técnica" contribuiu para a "segurança" dos dois países e para a "manutenção da estabilidade em regiões-chave", o presidente russo disse desejar "reforçar a cooperação" entre as respetivas Forças Armadas.

No relato do encontro feito nos sites oficiais chineses, é contudo dito que foi discutida a "crise na Ucrânia", com Xi Jinping a dizer que "o caminho das conversações de paz não será fácil, mas enquanto as partes não desistirem, haverá sempre perspetiva de paz". O presidente chinês reiterou também a posição "objetiva e imparcial" de Pequim em relação ao conflito.

A China não se juntou às sanções ocidentais ou às críticas à Rússia, mas também não apoiou a invasão da Ucrânia, defendendo sempre uma resolução pacífica para o conflito. Em setembro, antes de um outro encontro, Putin admitiu contudo que Xi tinha expressado "preocupações" em relação à situação na Ucrânia.

Xi lembrou nas suas declarações iniciais que "diante da situação internacional desafiadora e ambivalente", a China está pronta a "construir uma cooperação estratégica com a Rússia, proporcionando oportunidades de desenvolvimento mútuo e permanecendo parceiros globais para o benefício dos nossos países e no interesse da estabilidade em todo o mundo". Mas não houve referência a maior cooperação militar.

"A China está preparada para dar as mãos à Rússia e a outras forças progressivas em redor do mundo que se opõem à hegemonia e à política de poder, para rejeitar o unilateralismo, protecionismo e bullying, salvaguardar firmemente a soberania, segurança e interesses de desenvolvimento e defender a justiça internacional", lê-se no relato do encontro. Moscovo e Pequim apresentam-se como contrapeso geopolítico face aos EUA e aos aliados.

A videochamada entre Putin e Xi surgiu horas depois de novos ataques russos com drones suicida contra a Ucrânia, durante a noite. De acordo com a Força Aérea ucraniana, todos os 16 drones foram intercetados e destruídos pelo sistema de defesa antiaéreo. O presidente da câmara de Kiev, Vitali Klitschko, disse que sete desses drones teriam como alvo a capital, tendo dois deles sido abatidos antes de chegar à cidade e outros dois já por cima dos edifícios, causando danos, mas não vítimas.

No Telegram, o presidente Volodymyr Zelensky lembrou que os ucranianos estão a lutar "pela Ucrânia, pelos valores que unem a Europa e o mundo democrático e pelo valor global da vida". A lutar "por tudo o que o estado terrorista [como apelida a Rússia] está a tentar destruir". Zelensky reiterou que "não é fácil", mas mostrou-se confiante de que "a agressão russa vai falhar de forma a que todos os outros potenciais agressores no mundo não ousem repetir o que o "russismo" faz". A palavra "russismo" junta "Rússia" e "fascismo" e tem sido usada pelos ucranianos para designar a ideologia política e as práticas sociais da Rússia de Putin.

susana.f.salvador@dn.pt

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