Presidenciável brasileiro assume homossexualidade

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e eventual candidato ao Planalto em 2022 pelo PSDB, revelou orientação em programa de TV. E disse equacionar levar Jair Bolsonaro a tribunal por ataque homofóbico

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e pré-candidato à presidência da República no próximo ano, assumiu ser homossexual em programa de TV na última madrugada. Leite, 36 anos, disputa primárias no PSDB, partido de centro-direita, com três colegas de partido.

"Eu sou gay, eu sou gay e sou um governador gay. Não sou um gay governador, tanto quanto Obama nos EUA não foi um negro presidente. Foi um presidente negro. E tenho orgulho disso. Nunca trouxe esse assunto a público mas nunca neguei ser quem eu sou. Nunca criei um personagem", disse o governador a Pedro Bial, apresentador do Programa do Bial, na TV Globo.

"Como ser humano que sou, também tive as minhas inseguranças, os meus questionamentos, mas foi um processo, para mim, de aceitação, de entendimento, afinal também fui criado dentro de uma cultura que tentou dizer para mim e para todas as pessoas que isso era errado".

"Passado esse processo", continuou o político, "e uma vez que eu tinha entendido isso para mim, na política eu nunca criei um personagem". "Nunca disse às outras pessoas que não era gay. Eu simplesmente não falava sobre o assunto. A minha orientação sexual toca na minha vida e a política é como eu posso tocar na vida dos outros. No que eu posso transformar as pessoas é com a minha capacidade como gestor e não por ser ou não gay"...

Para Leite, "o Brasil passa por um processo onde tentam rotular, estigmatizar, resumir uma pessoa a um atributo ou outro". "Por isso achei que nesse momento era importante que isso ficasse claro, resolvido. Porque uma coisa podem saber: as pessoas que estão comigo, que me acompanham no projeto político, elas sabem exatamente com quem elas estão."

"Entendo que as pessoas já têm muita frustração com os políticos, porque eles parecem ser uma coisa e são outra. E muito deles tem muita coisa a esconder. Não é isso, não é a minha orientação sexual, que não é algo de errado, que vai ser escondido", prosseguiu.

Leite mantém relação com Thalis Bolzan, pediatra no estado do Espírito Santo, de acordo com o jornal O Dia.

O governador de São Paulo, João Doria, rival de Leite nas primárias do PSDB, manifestou-se pelas redes sociais. "Admiração e respeito ao meu amigo Eduardo Leite", escreveu.

O senador Fabiano Contarato (Rede), que também é assumidamente gay, deu os parabéns em mensagem ao governador. "Parabenizo o governador Eduardo Leite pela bravura! Sei a dor que é a prisão do armário, sobretudo num ambiente conservador como a política, e cada um deve descobrir seu momento certo para esse gesto. Seja feliz e siga seu ótimo trabalho: a vida será mais leve!"...

Pioneiro na luta contra a homofobia na política brasileira, o ex-deputado Jean Wyllys, recém filiado ao PT, de Lula da Silva, foi crítico de Leite. "Quando se é branco, rico e soldado da plutocracia e do neoliberalismo que "não tolera" a homofobia porque LGBTQ viraram nicho de mercado rentável, fica fácil "assumir-se" gay (ainda que se negando) e catalizar a solidariedade acrítica dos cúmplices e ingênuos", afirmou.

"Que destaque foi dado por essa mesma imprensa ao fato de Fátima Bezerra (PT), governadora do Rio Grande do Norte e aliada desde sempre da comunidade LGBTQ, ser lésbica? Nenhum. Mas decidem fazer uma festa com o outing tardio do governador, feito sob medida num programa da TV Globo", continuou o deputado que saiu do país após a eleição de Bolsonaro por ter sofrido ameaças.

"Coragem grande teria o "governador gay" se tivesse se assumido e se colocado ao lado de LGBTQ no momento em que o seu aliado Bolsonaro disseminava mentiras como "kit gay" e "mamadeira de piroca" [biberon de pirilau, numa tradução para o português de Portugal] que objetivam associar-nos à pedofilia. Naquele momento o governador era cúmplice", escreveu em alusão a fake news do atual presidente durante a campanha eleitoral e ao apoio de Leite ao hoje presidente.

Leite, entretanto, rompeu com Bolsonaro, a propósito de controvérsia sobre os recursos para o combate à pandemia - alega o presidente da República que o governo federal enviou verbas mal utilizadas pelos governadores. No caso específico do Rio Grande do Sul, usou mensagem homofóbica. "Onde ele enfiou essa grana? Eu não vou responder pra ele, né... Mas eu acho que é feio onde ele botou essa grana toda aí. Não botou na saúde", disse Bolsonaro.

O governador equaciona processar o presidente. "É algo que a gente ainda está avaliando (...) mas no debate político com o presidente ou quem quer que seja, eu espero que a gente possa ficar no debate do que se pode fazer para o futuro do país e não no ataque pessoal. A gente já tem problemas demais para atacar pessoas, o ataque tem que ser aos problemas do país, à fome, à miséria, à corrupção, à pandemia."

Leite foi eleito vereador e depois prefeito de Pelotas, cidade do Rio Grande do Sul, em 2012. Em 2018, concorreu ao governo do Rio Grande do Sul, estado mais meridional do país, e venceu. Na segunda volta, declarou "apoio crítico" a Bolsonaro, que concorria em paralelo frente a Fernando Haddad (PT) à presidência. Eleito, tem tido atuação globalmente elogiada.

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