PM timorense considera que país "perdeu um grande irmão" em homenagem a Max Stahl

Taur Matan Ruak, primeiro-ministro timorense, afirmou que Stahl "não morreu, apenas seguiu primeiro, antes de nós".

O primeiro-ministro timorense, Taur Matan Ruak, disse esta quarta-feira (15 de dezembro) que com a morte do jornalista Max Stahl, que filmou o massacre de Santa Cruz em 1991, Timor-Leste "perdeu um grande irmão", cujo legado e arquivo deve ser preservado e partilhado.

"Nós perdemos um grande irmão que fez o nosso país seu também e deu o seu melhor. Ele não morreu, apenas seguiu primeiro, antes de nós", afirmou Taur Matan Ruak, em declarações à Lusa depois de visitar o espaço do arquivo do jornalista, em Díli, onde estão desde hoje e até sexta-feira as cinzas de Max Stahl.

"Para mim, como guerrilheiro, a contribuição dele foi fundamental na nossa luta. O mundo teria esquecido Timor se não houvesse nenhuma imagem de 12 de novembro", sublinhou.

O chefe do Governo foi uma das individualidades que visitou hoje o Centro Audiovisual Max Stahl em Timor-Leste (CAMSTL), onde decorre até sexta-feira o velório do jornalista, e onde a viúva, Ingrid, e três dos filhos, Barnaby, Leo e Marlin, receberam hoje as condolências de muitos timorenses.

Taur Matan Ruak sublinhou a importância que o trabalho de Max Stahl e outros media tiveram na divulgação da ocupação indonésia de Timor-Leste, dos abusos cometidos no país e da luta pela independência, que terminou com o referendo de 1999.

O centro tem milhares de horas de filmagens recolhidas pelo jornalista, incluindo alguns dos momentos marcantes desde 1991 e entrevistas com os principais intervenientes na luta, sendo já um património reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

"O papel dos media foi fundamental. Ninguém conhecia a situação, toda a gente ignorava e os media foram fundamentais e espalharam a causa pelo mundo inteiro. Fez acordar o mundo para a nossa causa", disse, considerando essencial preservar este arquivo e dá-lo a conhecer às gerações mais jovens.

O secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), maior força política no parlamento, foi outro dos dirigentes nacionais a visitar o local, reiterando a importância do trabalho do jornalista e a necessidade de preservar o seu arquivo.

"Melhor do que eu, os jornalistas sabem qual foi a importância dele. Soube assumir a causa e continuou a tentar fazer o seu registo e a luta não acaba na independência. Para mim Max Stahl é um militante internacionalista de causas", afirmou Mari Alkatiri, em declarações à Lusa.

"Todos sabem o que é necessário fazer para preservar o seu trabalho. Já devia ter outro sítio mais apropriado para trabalhar. Não tenho dúvidas que há que manter este registo, que é muito importante para a História", sublinhou.

Antes, vários deputados caminharam desde o Parlamento Nacional, a algumas dezenas de metros do local, com uma coroa de flores e com cânticos e orações, saudando depois a família.

Até ao final do dia de hoje e ao longo de toda a quinta-feira está prevista a visita de um elevado número de representantes de instituições e organizações nacionais.

O dia ficou marcado por alguma controvérsia, tornando-se viral nas redes sociais um vídeo registado no momento em que o avião que transportou a família e as cinzas de Max Stahl aterrou em Díli, proveniente de Sydney, na Austrália.

No vídeo é possível ver o ministro da Presidência de Conselho de Ministros, Fidelis Magalhães -- no local em representação do primeiro-ministro -, a tentar cumprimentar o líder histórico timorense, Xanana Gusmão, que recusa o cumprimento.

Numa publicação na sua página no Facebook, o "Media Centre" do Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), partido de Xanana Gusmão, responde à polémica causada pelo vídeo explicando que a recusa "não tem a ver com uma questão pessoal" com Fidelis Magalhães.

"Xanana Gusmão não tem problemas pessoais com Fidelis Magalhães, mas tem um problema de diferença de princípios políticos com Fidelis Magalhães como político, porque não defende os valores do Estado e foi colaborador na ação de assalto ao poder", refere a publicação.

"Xanana Gusmão liderou a longa luta junto com o povo para criar a República Democrática de Timor-Leste e não quer dar lugar a ´afundadores´ do Estado como Mari Alkatiri e o seu grupo ou Taur Matan Ruak e o seu grupo", disse, acusando os líderes dos dois maiores partidos no Governo, Fretilin e PLP respetivamente, de "colaborarem para destruir o Estado".

A publicação explica que o líder do CNRT "rejeita e condena a nova geração como Taur Matan Ruak e o seu grupo, que deviam ser protetores do Estado, mas que se transformaram em ´afundadores´ do Estado por ganância e por quererem poder", refere, num trocadilho com a palavra 'fundadores' do Estado, regularmente usada em debates políticos em Timor-Leste.

"O gesto de Xanana Gusmão não é pessoal, mas sim uma mensagem política para todo o povo, especialmente para a nova geração, para não seguirem os comportamentos do grupo de Mari Alkatiri e do grupo de Taur Matan Ruak, que põem o interesse no poder acima do interesse de fortalecer" o país, lê-se.

O CNRT Media Centre considera que o gesto de Xanana Gusmão pretende ser uma "lição política", pedindo aos jovens um "exame de consciência".

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