Partido de Putin perde votos mas mantém supermaioria

Kremlin diz que eleições que deram nova vitória à Rússia Unida decorreram com "transparência e probidade", mas a oposição fala em fraude semelhante à de 2011.

A Rússia Unida, que apoia Vladimir Putin, perdeu votos em relação às eleições de 2016, mas manteve a supermaioria que detinha no Parlamento russo. Um resultado que agrada ao Kremlin, numa altura de queda da popularidade do chefe de Estado (ronda os 61%, mais baixo só em maio de 2020) e a três anos das presidenciais. Putin, que está desde 1999 ou na presidência ou na chefia do governo e terá então 71 anos, ainda não disse se será ou não candidato à reeleição. A oposição, grande parte da qual impedida de participar nestas eleições, denunciou a existência de fraude, mas o governo russo elogiou a transparência do escrutínio.

Apesar de uma queda na percentagem de votos em relação há cinco anos, quando a Rússia Unida tinha chegado aos 54,2% ao sabor da onda de patriotismo desencadeada pela anexação da Crimeia, e de ter perdido cerca de 20 deputados, o partido de Putin não deixa de ser o grande vencedor. O líder da Rússia Unida, Andrei Turchak, falou numa "vitória clara e convincente". Tudo porque com os cerca de 49,8% agora alcançados consegue manter a supermaioria na Duma (mais de dois terços dos 450 deputados) e a capacidade de aprovar qualquer reforma constitucional sem depender de outras formações políticas - foi uma reforma da Constituição que abriu a porta a uma eventual reeleição de Putin.

O Partido Comunista da Federação Russa (KPRF, na sigla original), foi segundo tal como há cinco anos, mas com mais seis pontos percentuais do que então - chegou aos 19% dos votos e terá ganho 20 deputados. Suspeita-se que, apesar de serem muitas vezes apontados como a oposição autorizada (e votar ao lado das iniciativas legislativas da Rússia Unida), os comunistas tenham concentrado muitos dos votos de protestos dos opositores ligados ao detido Alexei Navalny, cujo movimento foi considerado "extremista" e ilegalizado. Tal como aconteceu com o novo partido "Gente Nova" (centro-direita liberal), de Alexei Nechayev.

A estratégia do "Voto Inteligente" de Navalny, que visava encaminhar os eleitores para o candidato que mais hipótese tinha em cada distrito de derrotar o da Rússia Unida, enfrentou este ano um obstáculo inesperado: a aplicação criada de propósito foi retirada das lojas online da Google e da Apple na sexta-feira, o primeiro dia de votação, e o YouTube removeu um vídeo de Navalny a falar do tema. Os seus apoiantes denunciaram "um ato vergonhoso de censura política" por parte das empresas ocidentais.

Nas eleições para a Duma, metade dos lugares são distribuídos por representação proporcional e a outra metade atribuída a quem vence nas várias circunscrições eleitorais. Além dos quase 50% a nível nacional, a Rússia Unida conquistou quase 200 das 225 circunscrições.

Irregularidades

O Kremlin alega que o escrutínio decorreu com "transparência e probidade", mas a oposição fala em irregularidades. O líder dos comunistas, Gennady Zyuganov, denunciou a existência de fraude, incluindo a colocação de mais votos nas urnas. A Rússia Unida parece ter-se saído também especialmente bem nas urnas eletrónicas em relação aos votos tradicionais, levantando mais suspeitas. "Estes são eleições falsas de que ninguém precisa e estão a aprofundar as divisões na sociedade", afirmou, alegando que o seu partido recebeu um "apoio colossal" e que os votos "foram roubados". A porta-voz de Navalny, Kira Yarmysh, fez uma comparação com o passado: "Isto é verdadeiramente inacreditável. Lembro-me do sentimento em 2011, quando eles roubaram a eleição. A mesma coisa está a acontecer agora."

Há dez anos, denúncias de fraude nas eleições federais levaram milhares de russos às ruas, numa onda de protestos liderada precisamente por Navalny. O líder opositor, apontado como o principal crítico de Putin, foi detido em janeiro deste ano e condenado por violar a liberdade condicional, referente a uma acusação antiga, depois de ter estado na Alemanha a recuperar de um envenenamento com o gás nervoso novichok - Navalny acusa o Kremlin de estar por detrás desse ataque, algo que Moscovo nega.

"Há acusações de observadores eleitorais e de elementos russos da oposição que falam de irregularidades massivas, que devem ser levadas a sério", disse o porta-voz do Governo alemão, Steffen Seibert, lamentando a falta de observadores internacionais - pela primeira vez desde 1993 não estiveram presentes elementos da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) devido aos entraves colocados por Moscovo.

Já a União Europeia denunciou, através do porta-voz do chefe da diplomacia Josep Borrell, um "clima de intimidação contra todas as vozes críticas independentes". Em comunicado, o próprio Borrell disse que Bruxelas está "profundamente preocupada com o padrão contínuo de redução do espaço para a oposição, a sociedade civil e as vozes independentes", apelando aos responsáveis para "reverterem estes desenvolvimentos negativos".

Para os EUA, as eleições russas decorreram "sob condições que não favoreceram procedimentos livres e justos". O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, indicou que a perseguição aos críticos restringiu o "pluralismo" e "impediu que os russos pudessem exercer os seus direitos civis e políticos". Também o Reino Unido considerou as eleições "um revés sério para as liberdades democráticas", considerando que as ações das autoridades de Moscovo "minam a pluralidade política".

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG