Padre recusa abençoar Domingo de Ramos por ser contra a posição do Vaticano sobre homossexuais

O Vaticano esclareceu este mês que não pode abençoar a união entre homossexuais. O padre Giulio Mignani é contra esta posição e recusou-se a abençoar os ramos de oliveira durante a missa de Domingo de Ramos

O padre Giulio Mignani recusou-se a abençoar os ramos de oliveira e de palmeira durante a missa de Domingo de Ramos na localidade de Bonassola, em Ligúria, no noroeste de Itália. O gesto foi uma forma de protesto contra a posição do Vaticano que este mês esclareceu que não pode abençoar uniões entre homossexuais.

Durante a homília, o padre afirmou que "na Igreja tudo é abençoado", até as armas, "mas o amor verdadeiro e sincero de duas pessoas não pode ser abençoado por serem homossexuais", criticou, citado pelo Corriere della Sera. "Mas, ainda mais grave, é o faco do seu amor continuar a ser considerado 'pecado'", acrescentou.

Na missa de Domingo de Ramos, que dá início à Semana Santa, o padre Giulio Mignani explicou aos fiéis que este gesto foi uma forma de protestar contra o documento da Congregação para a Doutrina da Fé, onde é manifestada a posição da Igreja em não abençoar as uniões dos casais homossexuais.

Padre fala em decisão "absurda" da Igreja

O padre começou por dizer que o gesto de abençoar os ramos está associado à procissão realizada em memória da chegada triunfal de Jesus a Jerusalém, que não pode ser realizada devido às regras sanitárias no âmbito da pandemia de covid-19. E acrescentou aos fiéis: "Mas também estou extremamente feliz que a minha decisão de não abençoar os ramos tenha ocorrido poucos dias após a publicação do documento da Congregação para a Doutrina da Fé".

O não abençoar os ramos foi também "uma forma de protesto através do qual pude expressar a minha convicção de que esta proibição, reafirmada pela Congregação para a Doutrina da Fé, era absurda", confirmou.

"Se não posso abençoar casais do mesmo sexo, também não abençoo palmeiras e ramos de oliveira", terá afirmado o padre, segundo o jornal italiano. Já em 2017, Mignani manifestou-se a favor das uniões entre homossexuais e lésbicas. Aliás, na altura, chegou a ser pedido o seu afastamento do sacerdócio, refere a agência de notícias Efe.

Para este padre, quem perde com esta decisão não são os homossexuais, "que podem facilmente prescindir da bênção da Igreja", mas sim a própria Igreja Católica.

Um protesto que surge após o esclarecimento do Vaticano, divulgado a 15 de março, dando conta que a Igreja não dispõe, nem pode dispor, do poder de abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo.

O esclarecimento divulgado pelo Vaticano é assinado pelo prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o cardeal Luis Ladaria, e surge na sequência de algumas dúvidas sobre a matéria em alguns círculos eclesiásticos.

"Não é lícito conceder uma bênção a relacionamentos, ou mesmo casais estáveis, que impliquem uma prática sexual fora do casamento (ou seja, fora da união indissolúvel de um homem e uma mulher aberta, por si só, à transmissão da vida), como é o caso das uniões entre pessoas do mesmo sexo", escreve a Congregação para a Doutrina da Fé.

Com um "Responsum ad dubium", isto é, uma resposta a uma pergunta, aprovada pelo Papa Francisco, foi assim dada resposta à pergunta que muitos padres faziam: a Igreja tem o poder de dar a bênção às uniões de pessoas do mesmo sexo?

A resposta deve-se ao facto de que em "alguns ambientes eclesiásticos estão a ser divulgados projetos e propostas de bênçãos para uniões de pessoas do mesmo sexo" e que "esses projetos são motivados por uma sincera vontade de acolher e apoiar os homossexuais, aos quais são propostos caminhos de crescimento na fé ", mas que não podem ser convertidos em bênçãos, é indicado na nota.

A Congregação para a Doutrina da Fé exorta a comunidade cristã e os padres a "acolher com respeito e delicadeza as pessoas com inclinações homossexuais"

A Congregação para a Doutrina da Fé esclarece que "Deus ama cada pessoa" e que a Igreja rejeita toda discriminação injusta.

"A declaração de ilegalidade das bênçãos das uniões entre pessoas do mesmo sexo não é, portanto, e não quer ser, uma discriminação injusta, mas sim reivindicar a verdade do rito litúrgico e do que corresponde profundamente à essência dos sacramentais, como a Igreja os entende", refere a congregação.

A bênção das uniões homossexuais, explica, não pode ser considerada lícita, na medida em que "seria de certa forma uma imitação ou analogia com a bênção nupcial, invocada sobre o homem e a mulher que está unido no sacramento do matrimónio".

"Não há base para assimilar ou estabelecer analogias, nem mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus para o casamento e a família", acrescenta o documento emitido pelo Vaticano.

Apesar de não defender a bênção, a Congregação para a Doutrina da Fé exorta, na mesma nota, a comunidade cristã e os padres a "acolher com respeito e delicadeza as pessoas com inclinações homossexuais".

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