"Os chineses percebem que sem o PCC não haveria a Nova China"

Entrevista a Wang Suoying, presidente da Associação Portuguesa dos Amigos da Cultura Chinesa. Doutorada em Linguística pela Universidade Nova e a viver em Portugal desde 1991, oferece uma visão chinesa de 100 anos de Partido Comunista Chinês.

É uma China de sucesso, apesar da pandemia, esta que celebra hoje o centenário do Partido Comunista, o PCC?
O dia 1 de julho é celebrado todos os anos, sobretudo este ano, em que se assinalam os 100 anos do PCC. É uma data tão importante que não pode ser passada de maneira desapercebida, porque os chineses percebem que sem o PCC não haveria a Nova China. A pandemia está controlada e as localidades celebram a data com iniciativas diferentes. Em Xangai, a minha terra, onde nasceu o PCC, vão realizar-se shows de luzes, acompanhadas de músicas, imagens e legendas alusivas à história do PCC, ao longo do rio Huangpu, até ao dia 4.

Em que circunstâncias históricas nasceu o PCC?
Convém dar uma olhadela para o passado. O ano de 1840 foi de extrema humilhação para a Nação chinesa, pois a Grã-Bretanha invadiu a China, declarando a Guerra do Ópio. A derrota da China nesta guerra, seguida de outras até 1905, com a participação de quase todas as potências capitalistas, reduziu a China de um país feudal independente a um país semifeudal e semicolonial. O Dr. Sun Yat-sen dirigiu a revolução burguesa de 1911 acabando com a monarquia, sem conseguir, porém, mudar o destino da China, pois o país caiu nas mãos dos caudilhos militares e o povo continuava a viver numa miséria extrema. A Revolução de 1917 na Rússia trouxe uma nova esperança aos chineses que viram no marxismo a salvação da China. O eclodir do Movimento 4 de Maio de 1919, inicialmente em protesto contra a derrota diplomática chinesa relativa ao Tratado de Versalhes, teve grande impacto na sociedade chinesa e contou com a adesão da jovem classe operária, o que acelerou a divulgação do marxismo na China. Foi neste contexto que o PCC nasceu em julho de 1921, decidido a lutar contra o feudalismo e o imperialismo, pelo bem do povo.

Da sua experiência, e da sua família que vive na China, as transformações positivas durante a República Popular da China são evidentes?
Certo. Na mentalidade chinesa, o mais importante para um povo é viver em paz e trabalhar com gosto. Vivi 40 anos na China e senti a melhoria constante da vida, para a grande maioria dos chineses. Tivemos períodos em que a comida era racionada e as pessoas de uma família compartilhavam apenas uma divisão. Mas hoje em dia está totalmente diferente. A minha família e os meus amigos que vivem na China, não sendo empresários ou comerciantes, vivem em paz e com certa abundância, tendo de vez em quando planos de férias, tendo visitado até Portugal. O governo investiu muito para a garantia mínima da vida dos habitantes, incluindo os que vivem no campo. E é um povo de 1400 milhões!

Até que ponto a China de hoje é mais o reflexo de Deng Xiaoping, o reformador, do que de Mao Tsé-tung, o ideólogo?
A China de hoje resulta de uma construção ininterrupta nestas últimas sete décadas, desde 1949, pelo que não é adequado separar os trabalhos de Deng Xiaoping dos de Mao Tsé-tung. De facto, Deng fez em finais de 1978 a reforma económica e a abertura ao exterior, mas o que Deng fez foi uma continuação renovada de ideias de Mao, que tinha promovido o estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e os EUA, através da "diplomacia de ping-pong". Cada um deles fez o seu melhor trabalho adaptando-se às circunstâncias de então. O milagre económico que Deng trouxe para a China é baseado no desenvolvimento económico chinês dirigido por Mao. Hoje o mundo admira a tecnologia aeroespacial chinesa, mas ela iniciou-se com a fabricação do 1.º satélite chinês lançado em 24 de abril de 1970, para concretizar uma instrução de Mao: "Nós também queremos fazer satélites." Sem tantos planos quinquenais de construção socialista que serviam de alicerces, não haveria condições suficientes para criar o milagre económico. O próprio Deng sempre defendeu o pensamento de Mao, considerando que o abandono deste pensamento significaria negar a história do PCC. O povo chinês respeita tanto Mao como Deng.

A China é já a segunda potência económica. Qual a ambição da liderança chinesa?
Pelo que entendo, a liderança chinesa está disposta a trabalhar com empenho para realizar o sonho chinês, isto é, o grande rejuvenescimento da Nação chinesa. Procura, a nível nacional, levar o povo a avançar pelo caminho de riqueza e a nível internacional, promover um desenvolvimento harmonioso com outros parceiros, visando ganhos duplos e benefícios mútuos para uma comunidade de destino comum, através da iniciativa "uma faixa, uma rota", tal como disse o ministro Wang Yi: "A China não é uma salvadora, mas estamos dispostos a ser uma chuva oportuna em época de seca e um parceiro sincero que, em tempos de perigo e dificuldade dos amigos, apanha o mesmo barco."

Como vê as críticas ao PCC por querer manter o monopólio do poder e não aceitar uma democratização?
Na Constituição chinesa lê-se "o sistema de cooperação multipartidária e consulta política dirigida pelo PCC". Cada povo tem o direito de escolher o seu sistema político. Os 100 anos da China com o PCC fizeram o povo chinês entender que o PCC é a garantia de uma China poderosa e rica. "O povo chinês levantou-se", tal como Mao declarou em 1949. Nenhum chinês quer voltar a ter uma China humilhada, aberta à força de canhões. O PCC não levou a China a invadir os outros países ou interferir nos assuntos alheios, nem o povo chinês aceita o que aconteceu com a União Soviética com uma democratização ocidental. Na China socialista aplica-se uma democracia centralizada, graças à qual, o país tem conhecido grandes sucessos. Devemos respeitar a história da China, respeitar um partido que serve o seu povo e respeitar a escolha de um povo com 5 mil anos de sabedoria histórica. Penso que devemos tentar perceber a realidade chinesa e a relação entre o PCC e o seu povo, sem enquadrá-las numa visão ocidental.

Depois dos excessos revolucionários, pode-se dizer que a China assume o passado histórico imperial do país sem complexos?
A China tem cinco mil anos de história, com auge e declínio do império chinês, o qual faz parte da nossa herança. O imperador Taizong da dinastia Tang disse: "Tomamos a história como espelho e podemos saber os motivos da prosperidade e decadência de um país." Os chefes comunistas da China, desde Mao Tse-tung até Xi Jinping, costumam estudar a história da China tirando de lá lições valiosas, o que é revelado pelos seus discursos e obras.

A China Popular lidou com um Portugal salazarista e depois com um Portugal democrático. E sempre respeitou a presença portuguesa em Macau. Como define hoje as relações entre os dois países?
Excelentes, desenvolvidas e mantidas com base no respeito mútuo.

leonidio.ferreira@dn.pt

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