Nas horas seguintes à diplomação de Lula da Silva, na passada segunda-feira, dia 12, apoiantes de Jair Bolsonaro atearam fogo a autocarros e tentaram invadir a sede da polícia em Brasília. Os tumultos foram, no entanto, a ponta de um iceberg de protestos que decorrem, ininterruptos, desde o anúncio dos resultados eleitorais, a 30 de outubro, à porta dos quartéis de dezenas de cidades. Mas o que move esses inconformados manifestantes?."O Brasil, é o Brasil que me move, sou uma patriota", disse ao DN, uma manifestante no quartel de Ribeirão Preto, cidade maioritariamente bolsonarista, de primeiro nome Aparecida, que se recusou a divulgar o apelido e a continuar a conversa ao saber que se tratava de uma reportagem. "Deturpam tudo, os de cá [imprensa do Brasil] e os de lá [imprensa internacional]", justificou..Minutos antes, Aparecida e mais umas quatro dezenas de manifestantes cantaram "intervenção militar para a nossa união, forças armadas para a nossa nação", vestidos de amarelo e embrulhados em bandeiras do Brasil, uniforme oficial dos bolsonaristas. Lula, chamado de ladrão umas centenas de vezes, foi mais citado do que Bolsonaro, embora o derrotado nas eleições estivesse omnipresente em T-shirts, toalhas e até meias.."Venho aqui há três semanas seguidas, todos os dias, todas as noites, pedir um golpe mas o golpe verdadeiro foi o que Lula e comparsas do Supremo Tribunal Federal fizeram nestas eleições", disse um homem, reformado, que não se quis identificar..Ele, como milhares de bolsonaristas Brasil afora, enfrentam o sol e as chuvas inclementes do verão tropical a pedir o fecho do STF, uma intervenção militar e novas eleições - o que é ilegal. Em Ribeirão Preto, como noutros pontos, entretanto, os protestos perdem ânimo - primeiro houve estradas bloqueadas, depois apenas uma via e agora resta aos manifestantes ocupar os passeios em redor do quartel..Os protestos, entretanto, geraram momentos tragicómicos transformados em memes ao longo das últimas semanas: um manifestante tentou deter um camião que se recusou a parar e percorreu largos quilómetros agarrado ao veículo; outros usaram as luzes dos telemóveis viradas para o céu a pedir auxílio extraterrestre; um grupo cantou o hino, solenemente, de frente para um pneu, como se a borracha fosse uma representação divina; correram em muitos desses núcleos, notícias, naturalmente falsas, de que tanques do exército já caminhavam por Brasília e de que Bolsonaro reassumiria o poder, gerando choro de alegria..Será que estas cenas pitorescas se assemelham às de uma seita? Segundo os psicanalistas, sim. "É uma analogia possível, como aquelas seitas que acreditam que o mundo vai acabar numa determinada data", diz Christian Duncker, professor titular de psicanálise da Universidade de São Paulo.."Quando chega a tal data e o fim do mundo não acontece, a seita precisa da realidade para fazer uma correção do delírio, do género "o mundo não acabou porque nós oramos, porque nós nos unimos", é nisso que encaixa o pessoal que está nos quartéis, com o delírio de espalhar entre eles que já houve um golpe de Estado ou de achar que conseguem deter um camião com as próprias forças"..Para Duncker, "é um quadro clássico de loucura coletiva, a folie à deux, com alguém como irradiador da loucura e pessoas vulneráveis em torno dela a receber mensagens não de confirmação mas de vinculação, ou seja, "nós sabemos que a mensagem não se confirma mas vamos acreditar nela juntos"".."Concorre com isso, o elemento da identificação com o tal irradiador, o "mito", o "messias": quando nos sentimos completamente nas mãos do outro, gera-se um vínculo amoroso, essa história de passar a noite em frente ao quartel é uma declaração de amor, é uma serenata"..Para Mário Corso, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, "há ali coisas semelhantes à seita, de facto, como a dissonância cognitiva, eles são à prova da realidade, a realidade para eles não importa, o que importa é no que eles querem acreditar, têm uma fé além da realidade".."Mas o que domina aqueles grupos", assinala Corso, "é o medo". "As redes sociais são fábricas de sustos, "vão transformar as nossas crianças em homossexuais", "os pedófilos vão dominar o mundo" e quando ficamos amedrontados paramos de pensar".."No entanto, ao contrário das seitas, este grupo é muito heterogéneo, o que os une não é um ideário comum e sim uma meta, ser contra a esquerda, ser contra o PT, ser contra tudo o que derrote o Bolsonaro", defende o psicanalista.."É um grupo de desencaixados, unidos por serem reacionários: há os fracassados, há os desempregados, há os racistas, há os militares, há os ressentidos do mundo ao verem o digital acabar com as profissões deles, há os assustados com as alterações rápidas dos costumes, aqueles que vêm tudo o que vai além do homem-mulher ou do empoderamento da mulher e dos homossexuais como algo imoral - não há, porém, ricos, esses no máximo passam ao largo a deixar uns lanchinhos para que os coitados façam o serviço por eles"..Para Corso, "o que assusta é que eles usam um tipo de manifestação pouco ligada ao conservadorismo, é a esquerda que costuma ser revolucionária e utópica, não a direita, e os exemplos que temos de direita disruptiva e drástica são assustadores, como o nazismo". E conclui: "Finalmente, como é gente que nunca teve nenhum protagonismo político, estar nessas manifestações para eles é épico, é histórico"..Lula da Silva, presidente eleito do Brasil, vai pedir às Forças Armadas a remoção dos manifestantes que fazem protestos à entrada dos quartéis pelo país a contestar o resultado das urnas e a pedir intervenção militar, logo depois de tomar posse, dia 1 de janeiro. A decisão foi tomada ainda antes dos atos de vandalismo cometidos em Brasília na passada segunda-feira. Flávio Dino, futuro ministro da Justiça e da Segurança Social, lembrou que essa agenda antidemocrática não pode ser confundida com protestos legítimos. "Pedir intervenção militar e contestar eleições é ilegal", afirmou. Entretanto, a polícia federal brasileira cumpriu na quinta-feira, dia 15, mais de 100 mandados de busca e apreensão em oito estados contra apoiantes radicais de Bolsonaro, suspeitos de organizar os atos antidemocráticos..dnot@dn.pt