Obama, Bin Laden, Angelina Jolie. A eleição no Brasil é um carnaval

Do ator porno Kid Bengala ao intérprete de linguagem gestual de Bolsonaro, milhares tentam concretizar o sonho de se tornarem o novo Tiririca, que concorre pela quarta vez.

Eu voltei, agora para ficar, porque aqui é meu lugar", canta Roberto Carlos no clássico O Portão. O deputado brasileiro Tiririca adaptou para "eu votei, de novo eu vou votar, Tiririca, Brasília é seu lugar". O cantor processou o deputado, perdeu a causa e, com isso, terá dado ao palhaço, em queda livre eleitoral no Brasil desde que foi eleito deputado federal em 2010 com votação recorde, o impulso involuntário que precisava para se reeleger.

Tiririca foi eleito, por São Paulo, com 1,3 milhões de votos. Na eleição seguinte, somou 300 mil a menos. E, em 2018, um terço da votação original. Para 2022, o PL, partido de sempre de Tiririca, acolheu Jair Bolsonaro e filhos nos seus quadros e decidiu atribuir o número eleitoral do palhaço, 2222, a Eduardo Bolsonaro - no Brasil, cada candidato tem um número que os eleitores digitam na urna eletrónica. Sentindo-se desprestigiado, Tiririca ameaçou não se recandidatar, mas voltou atrás e estará pela quarta vez nas urnas, impulsionado pelo processo de Roberto Carlos, mas enfrentando uma onda de candidaturas de teor cómico, às vezes involuntário, que pode ofuscá-lo.

Há de tudo em 2022: de treinadores de futebol a atores porno, de subcelebridades a sósias de subcelebridades. O objetivo dos partidos que dão abrigo a esses políticos de aviário é usá-los como "puxadores de voto", surfando no Sistema Proporcional.

"Para entender a figura do "puxador de voto", é preciso entender como funciona o Sistema Proporcional que, à exceção do Senado, funciona para todo o legislativo brasileiro", explica ao DN Mayra Goulart, cientista política na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"A diferença em relação aos outros Sistemas Proporcionais é que no Brasil o eleitor não vota no partido, vota no candidato, logo, quando termina a eleição, os partidos distribuem o número de vagas a partir dos mais votados, o "puxador de voto" é, portanto, aquele candidato a quem sobram votos depois de obtido o quociente eleitoral e, por isso, puxa outros que não atingiram o quociente, mas são eleitos com essas sobras".

Entre os "puxadores", há, como de costume, muitos desportistas, a começar pelo já experiente Romário, a liderar a corrida ao Senado no Rio de Janeiro pelo partido de Bolsonaro (e de Tiririca).

Além dele, concorre Joel Santana, treinador que ficou famoso pelo mau uso do inglês. "Já viu as minhas propostas para deputado federal? Não? You tá de brinqueichon uite me, bicho? [você está de brincadeira comigo?]", diz o técnico no tempo de antena.

Maurício de Souza decidiu trocar o voleibol, pelo qual fez sucesso internacional, pela política ao ver o seu contrato com o Minas Tênis Clube rescindido em outubro de 2021 depois de usar o seu perfil no Instagram para fazer declarações homofóbicas. O caso ganhou o apoio de bolsonaristas. "Agora me sinto preparado para lutar por tudo aquilo em que acreditamos e não abrimos mão em nenhuma hipótese: Deus, Pátria, Família e Liberdade!", publicou numa rede social.

Wanderlei Silva, ex-Campeão do MMA, aparece na sua propaganda de luvas de boxe para derrubar a corrupção.

Jeferson Thiago Rosário de Sales, cujo nome diz pouco, também avançou. Ele é sósia do famoso atacante Gabigol, não perde um jogo do Flamengo no Maracanã e usa o nome de guerra Gabigordo. Estreante na política, motivou-se no dia em que precisou de atendimento médico num posto de socorro e sentiu na pele "o descaso, a falta de respeito e a negligência com que o ser humano é tratado no Brasil".

Há dezenas de ex-futebolistas espalhados pelas listas dos partidos por todo o Brasil e outros tantos que usam nomes de guerra de velhos craques -- como o político Zidane, candidato por São Paulo, Platinni, com um "n" a mais do que o original francês, ou Bagio, com um "g" a menos que o italiano.

Candidatos anónimos, entretanto, usam nomes de artistas para se destacarem, como a funcionária pública Angelina Vale, perdão, Angelina Jolie (Solidariedade). Outros nem precisam porque o nome de batismo já é suficiente chamativo, como Stallone Ribeiro (Rede).

Na política, Lulas e Bolsonaros são aos pontapés -- nas municipais de 2020 houve até um Borsonaro que jurava ser primo do presidente apesar da letra trocada --, mas há quem tenha preferências internacionais. Como Cláudio Barack Obama dos Anjos, que conseguiu autorização para acrescentar o nome do antigo presidente americano ao seu. Ele concorre pelo Agir, o mesmo partido do candidato Bin Laden Gari, inspirado no terrorista saudita abatido pelos EUA na gestão Obama.

Por falar no Partido Democrata americano, há dois Bill Clinton: o Bill Clinton do Amapá e o Bill Clinton Costa da silva.

Stalin Cordeiro é do Podemos, de centro-direita, e o Prof. Ghandi, do PL, de Bolsonaro, apesar de o ativista indiano homónimo jamais ter pegado em armas de fogo.

Por falar em Bolsonaro, as suas lives semanais de quinta-feira criaram um candidato além dele: Fabiano Guimarães, o intérprete do presidente para a linguagem gestual que se sentava a seu lado, concorre sob o nome "Fabiano, Intérprete de Bolsonaro". Agora, quer fazer ouvir a sua voz "porque a cara muita gente já conhece", disse à AFP.

No entretenimento, candidatam-se, desde um palhaço da dupla Patati Patatá, tentando trilhar os caminhos de Tiririca, a Netinho, intérprete do hit Milla, de 1996, e bolsonarista convicto. Em 2021, Manno Góes, o compositor de Milla, entrou com ação contra Netinho pelo uso do tema num comício de Bolsonaro e chamou o ex-parceiro de "débil mental". Na sequência, Netinho também processou Góes.

Kid Bengala, um dos mais famosos ex-atores pornográficos do Brasil, é dos "puxadores de voto" que vem chamando mais a atenção. Bengala diz-se "disposto a "meter o pau nessa bagunça". "Pode apostar que eu vou entrar é com tudo", completa no pequeno spot de campanha vetado por uma juíza ter visto nele "afronta à moral e aos bons costumes". O União Brasil, partido de Bengala (e do ex-ministro Sergio Moro, por exemplo) vai recorrer. Nas municipais de 2020, sob o slogan "pau para toda a obra", o candidato de 67 anos conquistou pouco mais de 1000 votos.

dnot@dn.pt

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