Os pagers, ou bips, como eram popularmente conhecidos no fim do século passado, podem ser um dispositivo de comunicação ultrapassado, mas serviram para uma operação tecnologicamente avançada contra o Hezbollah, o movimento xiita que domina o Líbano e tem estado envolvido em trocas diárias de violência armada com o exército israelita..Milhares de pagers de membros do grupo pró-iraniano explodiram às 15.30 locais, matando pelo menos 11 pessoas -- entre elas uma criança, o filho de um deputado e dois combatentes -- e ferindo 4000, 400 deles em estado grave, um pouco por todo o país e até na Síria. De acordo com o canal saudita Al-Hadath, cerca de 500 militantes perderam a visão. Entre os feridos está o embaixador iraniano em Beirute. Utilizados por setores profissionais que necessitam de receber comunicações urgentes inclusive em locais onde a rede dos telemóveis falha, os pagers entregaram desta vez uma mensagem mortal ao grupo que tem atacado o norte de Israel desde os atentados do Hamas de 7 de outubro. O emissor não reivindicou a inédita ação, mas segundo fontes ouvidas pela Sky News Arabia, a responsável pela detonação em massa foi a Mossad, a agência israelita de serviços de informações e de operações especiais. Esta ação de sabotagem envolveu o acesso aos dispositivos, tendo sido colocado em cada bateria PETN, composto químico altamente explosivo. Os pagers foram detonados aumentando a temperatura das baterias de forma remota. À Reuters, duas fontes disseram já este ano que os combatentes do grupo recorriam aos pagers porque acreditavam escapar às medidas de localização israelitas. Mohamad Elmasry, professor no Doha Institute, no Qatar, em declarações à Al Jazeera, ao analisar o sucedido, disse que até recentemente o Hezbollah recorria a mensageiros, o que indicia que os dispositivos eletrónicos eram uma relativa novidade..Também à Al Jazeera, uma fonte libanesa disse que os aparelhos tinham sido importados há cinco meses, embora ao The Wall Street Journal outra fonte em Beirute tenha especificado que um carregamento de dispositivos foi recebido há dias. Ao jornal nova-iorquino foi dito que alguns dos utilizadores sentiram o aquecimento do aparelho e puseram-nos de lado antes da explosão. Uma mensagem de voz que circulou entre os membros do Hezbollah indicava a quem tinha recebido um pager para deitá-lo fora, disse um militante ao The Washington Post. Em comunicado, o Hezbollah concluiu que “o inimigo israelita” foi “totalmente responsável” pelo “ataque pérfido” que se desenrolou no Líbano e na Síria e disse que o “inimigo traiçoeiro e criminoso será certamente punido por este ato agressivo” enquanto voltou a afirmar o seu apoio à “resistência palestiniana”. O Hamas, por seu turno, mostrou-se chocado com um “crime que desafia todas as leis”, um “ato terrorista [que] faz parte de uma agressão mais vasta do inimigo sionista na região”. Até que ponto o Hezbollah ficou com a rede de comunicações danificada e a que ponto isso poderá ser usado em proveito do exército israelita é a questão. “O que se pretende fazer antes de uma invasão em grande escala é desativar ou interromper a rede de comunicações do inimigo. Teremos de prestar muita atenção ao que vai acontecer nas próximas horas”, comentou o já citado Elmasry. Na véspera foi noticiado que o general Ori Gordin, chefe do Comando Norte do exército, está a pressionar o governo para ser lançada uma incursão em grande escala no Líbano para combater o Hezbollah. Os contínuos ataques com drones e foguetes na zona fronteiriça do norte de Israel levou à retirada de dezenas de milhares de habitantes. Segundo os media israelitas, o ministro da Defesa Yoav Gallant e o chefe do Estado-Maior Herzi Halevi têm dúvidas sobre a abertura de uma segunda frente de guerra. cesar.avo@dn.pt