O astronauta que fez 10 caminhadas espaciais. "Estamos tão ocupados que não temos tempo para apreciar a vista"

Nascido em Espanha mas criado na Califórnia, Michael López-Alegria foi piloto de teste antes de entrar para a NASA. Detentor do recorde norte-americano de caminhadas espaciais, vai voltar ao espaço no próximo ano num voo privado. Falou com o DN em Lisboa onde participou no Glex Summit 2021, organizado pelo Clube de Exploradores de Nova Iorque e pela Expanding World, do português Manuel Vaz.

Em criança, Michael López-Alegria teve o sonho de ser astronauta. Até porque aos 11 anos assistiu à chegada do Homem à Lua, um momento marcante, como confessa agora. Mas a vida acabou por o levar para outro rumo e tornou-se piloto da marinha. Foi então que se apercebeu que muitos dos primeiros astronautas tinham sido pilotos de teste - e o sonho voltou. Entrou para a NASA e esteve e, três missões espaciais. Agora está a preparar-se para voltar ao espaço, na liderança de uma equipa com três astronautas privados.

Tem o recorde norte-americano de caminhadas espaciais - dez - e 67 horas. O que pensa quando está lá fora no espaço?
Penso muito.

Tem tempo para pensar?
O tempo é um elemento crítico, porque estamos focados em alcançar certos objetivos. Uma das coisas de que nos queixamos é que estamos tão ocupados a fazer o nosso trabalho que não temos verdadeiramente tempo para apreciar. É como vir a Lisboa para participar numa conferência - não temos tempo para ver a beleza e apreciá-lo tanta quanto se estivéssemos mais descontraídos. Mas também é muito satisfatório porque percebemos que estamos a trabalhar para uma equipa muito grande. E estamos na ponta da lança. Isso pode ser bastante recompensador.

Mas têm algum tempo para olhar em volta e ver a vista?
Temos algum. Diria que é, mais ou menos, como se fôssemos um mergulhador profissional, que está num ambiente maravilhoso mas não deixa de ter um trabalho para fazer.

Quando regressa à Terra, como é que explica às pessoas o que viu e o que fez enquanto esteve no espaço?
É muito difícil de descrever. Diria que a melhor forma de o fazer é através do imaginário, descrevendo os nossos sentimentos enquanto olhamos para imagens lindas. É difícil de traduzir isso em palavras.

A sua primeira missão ao espaço foi em 1995 e reformou-se da NASA em 2012. As coisas mudaram muito nesses anos em que foi várias vezes ao espaço?
Sim. Quando comecei, o foco estava no vaivém espacial. Era o único veículo que tínhamos. Depois, após uns quantos anos, começámos a pensar cada vez mais na Estação Espacial Internacional e quando saí, já não havia vaivéns. Só havia a Estação Espacial Internacional e os nossos astronautas faziam as viagens de ida e volta no foguetão russo Soyuz. Nesse aspeto, passámos de fazer talvez cinco voos por ano, com seis ou sete pessoas a bordo, para levar seis pessoas por ano. O tamanho do corpo de astronautas reduziu-se, portanto, e a nossa expectativa de poder voar também se reduziu, com muito mais tempo a passar entre cada missão.

Além de espanhol, inglês e francês, fala também russo. Teve de aprender para poder voar?
Quem faz voos espaciais tem de saber russo até um certo ponto. E se formos um dos pilotos do veículo - geralmente são dois -, temos de aprender ainda um pouco mais. Foi por isso que tive de aprender.

Como é que se comunica na Estação Espacial Internacional? Falam inglês?
Depende do que estamos a fazer. Diria que agora, como estão lá o dobro das pessoas, as operações são mais segregadas, com os russos a fazer o seu trabalho, cada um a fazer o seu trabalho para o seu lado. Mas quando eu estive a bordo, éramos só três. E funcionávamos quase como uma família. Na altura, se estávamos no segmento russo ou a falar com o controlo de missão em Moscovo, falamos russo. Se estávamos no segmento americano, falávamos inglês.

Quando é que decidiu que queria ser astronauta? Era um sonho que tinha desde criança ou foi apenas uma coisa que aconteceu?
Ambos, na verdade. Quando eu tinha 11 anos foi quando o homem foi à Lua, em 1969, e sem dúvidas que tenho memórias fortes desse momento. Fiquei fascinado com o espaço e os humanos no espaço. Mas as coisas mudam. E não segui esse caminho nos meus estudos superiores. Tornei-me piloto da marinha e depois fui piloto de testes. Foi então que descobri que muitos dos primeiros astronautas também eram pilotos de testes e então o sonho renasceu. Tive o sonho quando era jovem, depois perdi-o e voltei a recuperá-lo mais tarde, já mais velho.

Como é que assistiu à chegada do homem à Lua, foi em família, a ver televisão?
Na verdade estava na praia com a minha família, na Califórnia. Os pais todos começaram a chamar os filhos para irem assistir e ouvimos tudo num velho rádio. E todos aqueles adultos, que eram completos desconhecidos, começaram a abraçar-se como se fossem da família. Foi um momento com muito impacto para eles. E para mim também, assistir àquilo tudo.

Foi um momento patriótico?
Não o senti como uma coisa nacionalista. Foi um momento da Humanidade.

O seu filho aparece ao seu lado no documentário Mira la Luna. Agora que tem 21 anos, ele tem o desejo de seguir as suas pisadas e ser astronauta?
Nada disso. Ele sonha ser algo entre o produtor de cinema e o chef de cozinha.

Além de astronauta, o Michael é também aquanauta. Quais as maiores diferenças quando se está no espaço e debaixo de água?
É muito diferente. Acho que a maior diferença é que no espaço estamos sempre a flutuar, enquanto que debaixo de água não estamos sempre dentro de água, estamos num habitat. Mas também é semelhante: sentimos que estamos num ambiente protegido, mas sabemos que lá fora o ambiente é hostil. Estamos isolados da equipa... há muitas analogias, sem dúvida. Mas é diferente.

A própria preparação é diferente?
Há vários aspetos da preparação. Um deles, numa ida o espaço, é que temos de compreender os sistemas do veículo no qual vamos viver e, enquanto aquanautas, tínhamos pessoas cujo trabalho era tratar disso. Na água não tivemos de aprender essa parte. Outro aspeto é que sempre que temos de fazer "tarefas orientadas para uma operação", e de organizar o nosso cérebro para que ele realize essas tarefas. E essa parte é semelhante em ambos os meios.

Vai voltar ao espaço no próximo ano e vai liderar um grupo de turistas espaciais...
Nós não gostamos de lhes chamar turistas espaciais, preferimos dizer astronautas privados.

Vai então liderar um grupo de três astronautas privados. Com a sua experiência no espaço, que conselho lhes deu?
Bem, eu quero que eles estejam muito bem preparados e que prestem muita atenção durante os treinos. Mas quando chegarmos ao espaço o que eu quero é que eles desfrutem. Quero que possam realmente absorver a experiência. Todos eles estiveram num programa científico, por isso vão poder realizar algumas tarefas operacionais. Mas em primeiro lugar o que eu quero é que eles aproveitem a experiência. Não quero que fiquem tão sobrecarregados com as tarefas que têm de fazer que se esqueçam que estão no espaço.

Quanto demora a preparar-se para uma viagem como esta?
Quatro meses é o mínimo. Para tal fazemos treino no sistema da Estação Espacial Internacional (ISS) para as coisas que eles têm de aprender a usar - o sistema da casa de banho, a cozinha. Eles têm treino também no veículo de lançamento - essa é uma parte que começámos já há algum tempo. Fizemos voos de gravidade zero, fizemos testes de centrifugação, fizemos exercícios de Team Building. O resto do treino é em Houston (no Texas) a estudar a ISS.

Como é que vê a atual corrida dos privados ao espaço. Até bilionário como Richard Branson ou Jeff Bezos quiseram ir ao espaço...
Essa última questão, dos bilionários no espaço, é mais uma distração do que outra coisa. O que é importante é que estamos a assistir a um tipo de voo espacial humano diferente, como nunca vimos antes. Até agora, genericamente falando, eram os governos que iam ao espaço, com astronautas governamentais. Agora vamos começar a ver cidadãos privados a ir ao espaço, seja em voos orbitais ou suborbitais. Este é o nascimento de uma nova era.

Acha que esse será o futuro da exploração espacial?
Estou 100% convencido disso. Na verdade acho que temos de pensar nisto como o que aconteceu com a aviação comercial há cem anos. Era uma coisa nova. Ao início só pessoas muito ricas o podiam fazer e agora qualquer pessoa pode entrar num avião para fazer qualquer coisa: ir a um casamento ou uma festa de anos, por exemplo. Vai demorar tempo para o preço das viagens ao espaço baixar, mas eu acho mesmo que em determinado momento vamos democratizar esta ideia de irmos ao espaço.

No futuro acha então que ir ao espaço vai continuar a ser um sonho - mas um sonho realizável?
Antes quase não era realizável. Agora é-o cada vez mais. Mas, repito, vai demorar algum tempo, para ser honesto.

Quando diz algum tempo, está a falar em...
Décadas.

Qual é a pergunta que as pessoas mais lhe fazem quando sabem que é astronauta, que esteve várias vezes no espaço, que fez vários passeios espaciais?
Bem, é provavelmente aquela para a qual tenho a pior resposta: como é que é no espaço? É tão difícil de descrever. Como disse antes, é mesmo uma experiência. Gostava de a poder engarrafar e trazer para que as pessoas a pudessem cheirar ou assim.

Estava a falar em cheirar. Como é que os sentidos funcionam quando se está lá em cima?
Eu diria que os sentido funcionam da mesma forma, apesar de algumas pessoas afirmarem que o paladar fica mais sensível, mais aguçado. Mas o cheiro, o toque, a visão, a audição continuam iguais, continuamos a ser o mesmo organismo. As coisas que estamos a sentir é que são um pouco diferentes.

É muita coisa para sentir...
Muita coisa, ou muito pouca. Lembro-me de uma vez em que estava a deslocar-me às escuras dentro da nave, estava a tentar chegar à uma determinada zona sem perturbar os meus colegas que estavam a dormir, por isso dei um impulso e estava a flutuar, completamente livre, não estava a tocar em nada. Estava tudo sossegado, não se ouvia nada, estava escuro, por isso não via nada. Esse foi realmente um momento mágico. Privação dos sentidos.

O que é mais desafiante, o espaço ou o mar?
A verdade é que temos de tomar medidas extremas para nos protegermos em ambos os ambientes. Nenhum deles é muito clemente. Quanto mais fundo vamos no mar, mais perigoso fica. Já ir ao espaço por si só consome tanta energia que é muito perigoso. Por isso diria que os desafios são distintos, mas semelhantes.

Já apanhou algum susto?
Tive algumas experiências mais extrema no mar em que fiquei preocupado com a minha segurança enquanto estava a nadar. E estava à superfície da água, não debaixo dela! Nunca me senti assim no espaço, ironicamente. Mas ambos os meios podem ser bastante hostis.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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