Numa mesquita do Paquitequete pede-se mais apoio de Maputo

Num dos bairros de Pemba, o "mualimo" Issufo Mussá diz que se os terroristas fossem do Islão "não podiam queimar mesquitas, nem degolar as pessoas como cabritos".

De uma mesquita do bairro de Paquitequete, um dos que já acolheu mais deslocados em Pemba, sai o apelo de um líder islâmico para Maputo: "Precisamos de apoio" para estancar as mortes às mãos dos ataques armados.

"Nós estamos aqui a sofrer", diz à agência Lusa Issufo Mussá, mualimo (professor) à porta da mesquita e escola básica por onde já passaram figuras como o governador da província e dirigentes militares moçambicanos.

"Perdemos toda a nossa comunidade, os nossos pais, mães, irmãos. Como é que é possível, num país assim, que tem um exército inteiro, ser dominado [por rebeldes] um distrito como Mocímboa da Praia? Um distrito como Palma", questiona, medindo as críticas.

"Eu não estou a falar mal: estou a dizer que estamos a chorar" e a pedir "que nos ajudem", comparando a crise humanitária em Cabo Delgado a outras que afetam Moçambique, como os ciclones, considerando que nessas tem havido outras respostas.

A zona costeira de Cabo Delgado é maioritariamente muçulmana, a família religiosa que mais sofre e que repudia a ação de grupos terroristas na região, que alegam querer impor a sua versão mais rígida da religião muçulmana, sem reconhecer o poder do Estado. "Se fossem do Islão, não podiam queimar mesquitas, nem degolar as pessoas como cabritos", diz Issufo.

A violência resulta em vagas de deslocados que se sucedem a cada ataque e que já atingem 700 mil pessoas, sobrelotando Pemba e outros distritos fora da zona de conflito, deixando a região costeira "sem ninguém", refere.

O vento de fim de tarde levanta pó nas ruas em terra batida do Paquite, diminutivo do bairro, entre casebre precário e valas de drenagem, onde grupos de residentes limpam o lixo acumulado. Há muitas crianças e muita brincadeira, ao lado de praias que em 2020 receberam milhares de deslocados em embarcações precárias, arriscando a vida.

"Parece que não temos dono", sublinha. "Estamos aqui com as nossas famílias que dormem no chão, no quintal, sob chuva. Isto é doloroso, triste. Não é que o governo não esteja preocupado, mas isto está a piorar, precisamos de um apoio", reafirma.

No centro da cidade, Mahomedzicar Osman queixa-se de ter a loja quase vazia. O empresário, um dos principais e mais influentes da região - conhecido pelo nome do pai, Osman Yacob - e representante da comunidade islâmica, diz que a falta de clientes é um reflexo do abrandamento económico que já acontecia e que foi agravado pelos ataques.

"Não sou especialista na área militar, mas, mesmo sem meios, [as forças moçambicanas] conseguiram empurrá-los para perto da fronteira", diz o empresário que tem esperança numa solução.

Os grupos armados já chegaram a estar a 20 quilómetros de distância, em linha reta, da capital provincial, mas agora, o ataque a Palma e outros que o antecederam, este ano, aconteceram junto à fronteira com a Tanzânia, 270 quilómetros a norte.

Osman Yacob considera que o que é necessário são "Forças de Defesa e Segurança (FDS) motivadas, bem armadas e bem treinadas, no sentido de debelar a crise".

Uma crise que "já ultrapassa o que era inicialmente tido como uma pequena insurgência. Não se trata de insurgência. É mesmo violência extrema. É terrorismo", refere, acrescentando que "os efeitos multiplicadores desta situação são enormes para a vida social e empresarial".

"Vivemos na esperança de que haverá meios de minimizar os ataques ou debelá-los completamente, acreditamos nisso, vivemos nessa esperança", resume.

O ataque a Palma, no dia 24 de março, causou um número incalculado de mortes e já levou quase nove mil pessoas a procurar refúgio noutros pontos da província, além de haver 23 mil pessoas à espera de ajuda às portas do aeródromo do recinto de gás da Total, que a empresa abandonou por completo na sexta-feira.

As forças armadas moçambicanas anunciaram durante a semana estar no terreno em perseguição aos grupos que ocuparam a vila, ao mesmo tempo que deslocados que foram chegando a Pemba davam conta da continuação de tiroteios.

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