Novo escândalo sexual abala partido de Boris

Após uma semana centrado nas cimeiras do G7 e da NATO, primeiro-ministro britânico regressa às polémicas em Londres.

O deputado Chris Pincher foi ontem suspenso do Partido Conservador, depois de alegadamente ter apalpado dois homens num clube privado, o que o levou a demitir-se do cargo que ocupava no governo britânico. Mais uma dor de cabeça para o primeiro-ministro Boris Johnson, que após quase uma semana no estrangeiro com o foco em temas internacionais - primeiro com a cimeira do G7 e depois a da NATO - regressou a Londres para enfrentar mais um escândalo sexual dentro do partido.

Na carta de renúncia como vice-responsável pela disciplina parlamentar dos deputados conservadores, com data de quinta-feira, Pincher admitiu que bebeu "demasiado" na noite de quarta-feira e pediu desculpas pela "vergonha" que causou a si próprio e a outras pessoas. Não deu pormenores do que aconteceu mas, segundo a imprensa britânica, o político de 52 anos foi acusado de apalpar dois homens - um deles um deputado - diante de testemunhas no londrino Carlton Club. Um comportamento que desencadeou queixas ao partido. "Acredito que o correto nestas circunstâncias é que renuncie", escreveu na carta a Johnson.

Um porta-voz do primeiro-ministro disse ontem que ele aceitou a demissão de Pincher, considerando que "foi a coisa acertada a fazer". Recusou comentar as acusações, mas reiterou que Johnson considerou que o seu comportamento era "inaceitável". Para o chefe do governo, o tema estava fechado, mas dentro do partido levantaram-se as vozes para que fosse suspenso. Até o ex-deputado Neil Parish, que em abril foi suspenso e se demitiu após admitir ter visto pornografia no Parlamento, se queixou da dualidade de critérios.

Esta demissão desencadeou eleições intercalares no mês passado na circunscrição de Tiverton and Honiton, que desde 1997 votava nos conservadores, mas que virou para os liberais-democratas. No mesmo dia, perderam para o Partido Trabalhista em Wakefield, onde foi preciso convocar eleições após a condenação do deputado conservador por abuso sexual de menores. O partido não quererá voltar às urnas também em Tamworth, a circunscrição de Pincher.

A decisão de suspender o deputado, que agora se sentará no Parlamento como independente, chegaria ao final da tarde. "Tendo ouvido que uma queixa formal foi apresentada [ao órgão independente que investiga denúncias de bullying, abusos e assédio sexual no Parlamento britânico], o primeiro-ministro concordou com o responsável pela disciplina parlamentar do partido [Chris Heaton-Harris] que Pincher devia ser suspenso enquanto decorrer a investigação", indicou um porta-voz. Entretanto, para o cargo que Pincher ocupava foi nomeada a deputada Kelly Tolhurst.

Esta não é a primeira vez que o nome de Pincher surge ligado a um escândalo. Em 2017, já se tinha demitido de um cargo como assistente do órgão de disciplina parlamentar e sido alvo de uma investigação interna do partido, depois de ser acusado de assédio por um antigo remador olímpico e potencial candidato conservador que teria convidado para a sua casa. O porta-voz de Johnson disse que este não estava ciente de qualquer acusação específica contra Pincher quando o convidou em fevereiro para o cargo que ocupava.

O Partido Trabalhista, o maior da oposição, exige mesmo a demissão do deputado, considerando que o primeiro-ministro só o suspendeu porque foi obrigado a isso. "Boris Johnson foi arrastado aos pontapés e aos gritos a agir. Não se pode confiar que ele faça a coisa acertada. Este escândalo todo é mais uma prova da sua falta de julgamento", disse a número dois do Labour, Angela Rayner, defendendo também a saída do chefe do governo.

O próprio Johnson está debaixo de fogo por causa do partygate, tendo já sobrevivido a uma moção de censura dos deputados do seu partido. Apesar de cerca de 40% dos deputados terem dito que perderam a confiança no seu líder, o primeiro-ministro afastou a hipótese de se demitir, mas ainda não está livre de perigo, sendo alvo de um inquérito parlamentar sobre se mentiu ou não no Parlamento sobre as festas ilegais que se realizaram no número 10 de Downing Street durante o confinamento.

A última sondagem YouGov coloca os conservadores, que atualmente têm a maioria absoluta no Parlamento, com 33% das intenções de voto, três pontos atrás dos trabalhistas liderados por Keir Starmer (que também aguarda o resultado de uma investigação policial sobre se violou ou não o confinamento, tendo prometido demitir-se se for multado como Johnson).

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG