Lula da Silva disse que ninguém vai proibir que o Brasil aprimore a relação com a China em encontro oficial com Xi Jinping, em Pequim, onde foram assinados acordos económicos entre os gigantes sul-americano e asiático e uma declaração conjunta a favor da paz na Ucrânia.."Ontem fizemos visita à Huawei para dizer ao mundo que não temos preconceito nas nossas relações com os chineses, ninguém vai proibir que o Brasil aprimore a sua relação com a China", disse o presidente brasileiro na reunião aberta entre os líderes, no que foi entendido como um recado aos Estados Unidos, que Lula visitou há cerca de dois meses.."O valor das nossas exportações para a China é maior do que a soma das nossas exportações para os Estados Unidos e para a União Europeia, a China é um grande motor do agronegócio brasileiro", sublinhou instantes depois o presidente do Brasil..Em entrevista recente ao DN, o especialista em relações internacionais Vinícius Vieira lembrou que o governo Lula tenta agir como pivô entre as duas potências mundiais. "O Brasil, como não chega ao estatuto de grande potência, como os EUA ou a China, está a tentar jogar na condição de Estado pivô, sendo cortejado pelos EUA, no âmbito da luta contra a extrema-direita global, tendo em conta que Bolsonaro foi o principal adepto de Donald Trump e a luta contra o trumpismo nos EUA ainda não ter sido ganha, e, pela China, onde cobra de Xi o investimento em indústrias"..Na sua comunicação, Xi disse que "o Partido Comunista está a liderar a nação num esforço conjunto para transformar a China num grande país socialista moderno e para avançar no rejuvenescimento nacional em todas as frentes por meio de um caminho para a modernização".."Nessa jornada", continuou, "a China irá buscar um desenvolvimento de alta qualidade, acelerar a criação de um novo paradigma de desenvolvimento e promover uma abertura de alta qualidade, isso irá destravar novas oportunidades para o Brasil e outros países ao redor do mundo"..À hora do encontro, Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, celebrou o encontro nas redes sociais com uma foto dos dois líderes e a legenda "um aperto de mão entre os dois maiores países em desenvolvimento nos hemisférios oriental e ocidental"..Os dois países assinaram ainda uma declaração conjunta pela paz na Ucrânia. No texto, o Brasil assume publicamente que "valoriza" o plano de paz de Pequim, proposto para lidar com as exigências russas e ucranianas, e a China "reconhece" os esforços de Brasília para buscar caminhos para promover a paz na Ucrânia. Um dos pontos principais da declaração é um apelo para que outros países se unam à defesa de um caminho de paz para o conflito..Enquanto Lula e Xi se reuniam, Janja da Silva e Peng Liyuan, as primeiras-damas, tiveram um encontro separado antes de se encaminharem para o banquete oferecido pelos anfitriões aos visitantes..De acordo com projeção do Ministério da Fazenda do Brasil, os pactos assinados à margem do encontro entre os países totalizam cerca de 50 mil milhões de reais, o equivalente a nove mil milhões de euros, aproximadamente, de investimento. Na lista destacam-se memorandos de entendimento para infraestrutura e parcerias público-privadas, e um protocolo para fabricar e operar satélites CBERS-6..Durante uma reunião com o presidente da Assembleia Popular da China, Zhao Leji, no Grande Palácio do Povo, que antecedeu o encontro com Xi, o presidente brasileiro lembrou que "é com a China que o Brasil mantém o mais importante fluxo de comércio exterior, é com a China que nós temos a nossa maior balança comercial e é com a China que nós temos tentado equilibrar a geopolítica mundial, discutindo os temas mais importantes".."A minha visita à China é de reconhecimento dessa parceria e para que possamos aumentar, ainda mais, a nossa parceria, a minha viagem, neste momento, é uma viagem em busca de aumentar aquilo que nós temos de bom", afirmou na ocasião..Há duas décadas, a China era o quarto maior comprador de produtos brasileiros - atrás de Estados Unidos, Holanda e Alemanha - mas hoje lidera o ranking com folga: em 2022, comprou quase 90 mil milhões de dólares o Brasil, mais do que a soma dos cinco países que aparecem na sequência..Já na lista de países que mais vendem para o Brasil, a China passou de um sétimo lugar, em 2002, para a primeira posição hoje. O saldo da balança comercial, entretanto, é positivo para o país sul-americano por quase 30 mil milhões de dólares..O Brasil exporta para a China sobretudo matérias-primas e importa do gigante asiático bens e componentes eletrónicos que abastecem a indústria brasileira..Lula falou ainda à imprensa em intensificar as relações Brasil-China em áreas como ciência e tecnologia, intercâmbio de estudantes universitários, relações culturais e, sobretudo, estratégias de combate às mudanças climáticas e energia limpa e produção de carros e autocarros elétricos.."Penso que a compreensão que o meu governo tem da China é de que nós precisamos trabalhar muito para criar uma relação Brasil-China que não seja apenas uma relação meramente de interesse comercial", disse Lula.."Contamos com a China na nossa luta pela preservação do planeta Terra, defendendo uma política climática mais saudável em que as pessoas possam respirar ar mais puro e beber água mais limpa, para isso, é extremamente importante uma transição energética para produzir energia mais limpa, sobretudo eólica, solar, biomassa".."O Brasil tem 80% de sua energia totalmente limpa e está comprometido no meu governo a alcançar o desmatamento zero na Amazónia até 2030 para dar a nossa contribuição à preservação do planeta", afirmou..Ainda na quinta-feira, durante a posse de Dilma Rousseff como presidente do banco dos BRICS, o bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o presidente brasileiro defendeu a atuação conjunta de países emergentes para reduzir desigualdades e uma alternativa ao dólar para o comércio entre os membros do bloco.."Quem decidiu que era o dólar a moeda depois de o ouro desaparecer o ouro como paridade?", questionou Lula.Ao longo das últimas horas de visita, Lula participou também numa cerimónia em homenagem aos Heróis do Povo da China, oferecendo uma coroa de flores colocada no monumento localizado na Praça Tiananmen.