"Ninguém me avisou." Boris escuda-se nos assessores

Primeiro-ministro britânico quebra silêncio e tenta aplacar indignação sobre regras de confinamento infringidas enquanto ex-assessor o desmente e deputados conspiram contra si.

São 14 minutos e 15 segundos de pedidos de desculpas e de alegações de desconhecimento aqueles em que o primeiro-ministro britânico foi entrevistado pela Sky News sobre a festa no jardim de Downing Street em 20 de maio de 2020. "Assumo toda a responsabilidade pelo que aconteceu", disse sobre a reunião em que esteve presente com a mulher e várias dezenas de pessoas quando as regras do confinamento impediam ajuntamentos na rua com mais de duas pessoas. "Mas ninguém me avisou - e posso ser totalmente categórico -, ninguém me disse que este é um evento contra as regras, que está em contradição com o que estamos a pedir para todos os outros fazerem." O seu ex-assessor principal Dominic Cummings afirmou que Boris Johnson foi avisado sobre a festa que tinha como mote "tragam as vossas bebidas" e que se prontifica para declarar sob juramento sobre o assunto.

Em visita a uma clínica em Londres, de gravata colocada para dentro da camisa e máscara cirúrgica na cara, Boris Johnson sinalizou o seu arrependimento de cabeça baixa enquanto voltou a pedir desculpas à rainha Isabel II e ao país por outra festa ter decorrido em Downing Street (embora sem a presença do chefe do governo) durante o luto nacional devido à morte de Filipe, duque de Edimburgo.

Para a número dois dos trabalhistas Angela Rayner, Boris Johnson apenas "lamenta ter sido apanhado", pelo que diz ser "inaceitável" manter-se no cargo.

O antigo estratega de Boris Johnson e agora seu adversário já tinha demolido a versão do primeiro-ministro. No seu blogue, Cummings escreveu: "Eu disse ao primeiro-ministro algo do género: O Martin [Reynolds, secretário principal privado do PM] convidou o edifício para uma festa com bebidas, é disto que estou a falar, é preciso controlar este manicómio", ao que, alega, foi ignorado, tal como outra pessoa, não identificada, também terá advertido Boris Johnson.

Cummings vai prestar declarações à secretária permanente do gabinete do primeiro-ministro, Sue Gray, encarregada de dirigir um inquérito sobre as festas. À pergunta sobre se iria demitir-se, o primeiro-ministro conservador disse na entrevista que há que esperar pelo resultado do relatório. Segundo o porta-voz de Johnson, citado pelo Daily Mirror, este só irá demitir-se se tiver "enganado deliberadamente o Parlamento".

Boris Johnson é hoje questionado na Câmara dos Comuns no debate semanal, tendo nas bancadas atrás de si cada vez mais críticos. O ambiente na véspera era de conspiração, com um conservador não identificado a garantir aos jornalistas que vários colegas já entregaram uma carta a pedir uma moção de censura. São necessários 54 deputados para desencadear o processo, e os críticos dividem-se entre esperar pelos resultados do inquérito ou avançar já.

A ter em conta nestes cálculos que em maio há eleições locais e os deputados temem perdas consideráveis. Numa sondagem Deltapoll, que envolveu quase 4300 eleitores, o Partido Conservador caiu três pontos em relação à anterior, estando agora nos 32%, menos 11 pontos do que o Partido Trabalhista, que subiu um ponto percentual.

cesar.avo@dn.pt

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