A vitória de Donald Trump nas eleições dos EUA introduziu uma nova dinâmica na guerra na Ucrânia, não ao nível militar, mas diplomático, tendo em conta que o presidente eleito prometeu acabar com o conflito no primeiro dia em que entrar em funções. Até lá, a administração cessante deverá gastar o dinheiro que resta do pacote aprovado em abril pelo Congresso para garantir a contratação de suficiente material para garantir a assistência militar para os próximos meses. Do lado do maior aliado da Ucrânia ao nível de ajuda militar, bem como de Kiev, há um crescente alinhamento para que as negociações com a Rússia venham a tomar lugar nos próximos meses. Mas se é verdade que Vladimir Putin já se mostrou interessado em responder de forma positiva a conversações, os analistas não esperam que, dada a situação no campo de batalha, o líder russo queira pausar ou terminar aquilo que iniciou. Em setembro, Volodymyr Zelensky foi à Casa Branca apresentar o plano de vitória a Joe Biden: um convite para aderir à NATO no futuro, garantias de segurança dos aliados com uma cláusula secreta - entretanto revelada, de fornecimento de mísseis de longo alcance Tomahawk -, melhorar as capacidades de defesa ucranianas, e em troca assinar investimentos conjuntos na exploração de minérios como o urânio, o lítio ou o titânio. As circunstâncias mudaram e o presidente ucraniano, perante a nomeação por Trump do general Keith Kellogg como enviado para a Ucrânia, modulou o discurso. “Chegar à paz pela força”, uma frase que resume a estratégia de Kellogg, passou também a ser defendida por Zelensky. Até que ponto a estratégia do militar norte-americano será adotada por Trump, é uma das muitas incógnitas. Assim como foi conhecido, o plano apresenta muitas dificuldades para Kiev aceitar: desde a manutenção dos territórios ocupados nas mãos russas ao alívio das sanções económicas a Moscovo, e de adiar as conversações sobre a entrada da Ucrânia na NATO durante largos anos. Por outro lado, a estratégia assenta em acabar com o isolamento do líder russo no Ocidente, o que também se apresenta como complicado, porque legitima a sua ação. Os ucranianos reconhecem que o plano não cede na desmilitarização do seu país, uma das exigências de Moscovo, nem no reconhecimento das anexações. A peça mais difícil do quebra-cabeças é, neste momento, um mecanismo que dê garantias de que, perante uma violação do acordo por parte da Rússia, esta seja forçada a recuar, o que suscita preocupações quanto à viabilidade do plano. Do lado russo, Putin declarou em junho estar pronto para um cessar-fogo e negociações de paz desde que os ucranianos retirassem das quatro regiões parcialmente ocupadas pela Rússia, que reconhecessem a anexação da Crimeia e abandonassem a pretensão de aderir à Aliança Atlântica. Há dias, o ministro russo da Defesa disse que o objetivo militar para 2025 é conquistar Kherson, Zaporíjia, Lugansk e Donetsk na sua totalidade, enquanto o seu líder afirmou que a “vitória está mais perto”. Na verdade, as tropas russas vão avançando, aldeia a aldeia, pelo leste da Ucrânia, numa tática com elevados custos humanos, mas a “carne para canhão” não falta do lado russo, seja com recursos a reclusos, mercenários ou norte-coreanos, ou aumentando o soldo. Já Zelensky reconhece ter um problema: rejeita baixar a idade da mobilização (fê-lo em abril, de 27 para 25 anos) e não consegue captar voluntários em número suficiente, o que impede a rotação de tropas na linha da frente e leva militares especializados a serem desviados para o bilhete só de ida que é a infantaria. Daí que a única pressão que Putin sente é o agravamento da crise económica em resultado das sanções e do esforço de guerra. “A Rússia vai potencialmente empatar os EUA e o seu enviado especial e passará meses a fazê-lo, ao mesmo tempo que tenta obter ganhos no campo de batalha”, prevê o analista militar Michael Kofman.