Mulheres e pobres escolhem Lula, homens e ricos votam Bolsonaro

Antigo presidente do Brasil, que pode ganhar à primeira volta, domina entre católicos. Atual chefe de Estado, em recuperação, aposta no voto evangélico, dizem cinco sondagens numa semana.

Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, pode ganhar a eleição presidencial do Brasil à primeira volta, dia 2 de outubro, mas Jair Bolsonaro, do Partido Liberal, tem razões para acreditar que, no mínimo, consegue levar a disputa para a segunda, dia 30. Estas são duas das conclusões da semana com mais sondagens - nada menos do que cinco - dos últimos quatro anos no país. Nelas, Lula tem de 44% a 47% das intenções de voto. Bolsonaro, de 32% a 37%. As regiões geográficas, as divisões socioeconómicas, as crenças religiosas e o género dos eleitores, entretanto, são considerados decisivos para o resultado.

Na questão do género, não por acaso, nos últimos dias, Janja da Silva, mulher de Lula, e Michelle Bolsonaro, entraram em campo para atrair o voto feminino. E, por falar na primeira-dama, ela, fervorosa evangélica, associou os inquilinos do Planalto anteriores ao seu marido a satanás, suscitando uma resposta de Lula - "quem é possuído pelo demónio é Bolsonaro" - e um novo slogan na campanha deste - "Bolsonaro usa Deus, Deus usa Lula" - dando o pontapé de saída para uma espécie de "guerra santa" eleitoral.

Com menos adesão entre os mais pobres do que o rival, o presidente relançou o Auxílio Brasil, programa de assistência às populações carentes, nas últimas semanas. E enquanto Lula vai privilegiando a campanha no Sudeste, onde nasceu Bolsonaro, este tem feito périplos pelo Nordeste, reduto e região natal do antigo presidente.

A sondagem do Ipec (anteriormente conhecido como Ibope) ilustra essas diferenças ao concluir que Lula, candidato de centro-esquerda, está à frente entre as mulheres, os mais jovens, os mais pobres e os que vivem na região Nordeste. Já Bolsonaro, de extrema-direita, pontua melhor entre evangélicos e aqueles cuja renda familiar mensal é superior a cinco salários-mínimos ou de dois a cinco salários-mínimos. É citado como o candidato de 37% dos homens e apenas de 27% das mulheres contra 46% de voto feminino em Lula.

Dois estados, entretanto, são considerados fundamentais em todas as eleições: São Paulo, por ser o mais populoso, contendo 22% da população, e Minas Gerais, por ter normalmente resultados aproximados da eleição nacional (e por ser o segundo mais populoso). Entre paulistas, Lula vence com 43% contra 31% de Bolsonaro e entre mineiros tem vantagem de 13 pontos, 42% a 29%.

Em resumo, o Ipec, que ouviu 2000 pessoas entre os dias 12 e 14 de agosto em 130 municípios do Brasil, margem de erro de dois pontos para cima ou para baixo e nível de confiança de 95%, coloca Lula na liderança com 44%, uma vantagem de 12 pontos sobre Bolsonaro, que marca 32%. O antigo ministro e governador Ciro Gomes, do PDT, de centro-esquerda, tem 6% e a senadora Simone Tebet, do MDB, de centro-direita, 2% [ver infografia ao lado]. Como o último levantamento do Ipec foi divulgado em dezembro, quando ainda eram consideradas, por exemplo, as eventuais candidaturas do ex-ministro de Bolsonaro, Sergio Moro, ou do ex-governador de São Paulo, João Doria, não há termo de comparação.

Excluindo os votos brancos e nulos, Lula surge com possibilidade de vitória logo à primeira volta, com 52%, dentro, portanto, da margem de erro da pesquisa. Bolsonaro marca 37%, Ciro chega a 7% e Tebet não sai dos 2%. Vera Lúcia, do PSTU, de extrema-esquerda, atinge 1%, fugindo ao pelotão de candidatos secundários. E na sondagem espontânea, em que não são apresentados aos inquiridos os nomes dos candidatos, Lula tem 41%, Bolsonaro, 30%, e Ciro Gomes, 3%. Os demais não são citados - nem Tebet.

Por outro lado, num cenário de segunda volta entre os principais candidatos, Lula soma 51% e Bolsonaro 35%, sendo que 14% disseram votar branco/nulo ou preferiram não responder. Noutro item pesquisado, 77% dos inquiridos disseram que já estão decididos em quem votar.

O Datafolha, última das pesquisas de opinião divulgada, na sexta-feira, revela ainda uma vantagem confortável de Lula sobre Bolsonaro - de 15 pontos - mas menor do que a de junho - 18 - e a de maio - 21 -, o que leva esperança à campanha do presidente. Com 51% dos votos válidos, Lula segue com possibilidades de ser eleito logo no dia 2 de outubro; a haver necessidade de segunda volta, dia 30, o antigo presidente marca 54 pontos e Bolsonaro 37.

A melhor performance de Bolsonaro é na sondagem do PoderData, só sete pontos atrás de Lula - 37% contra 44%. O atual presidente subiu dois pontos face à pesquisa anterior, de finais de julho, e o antigo chefe de Estado cresceu um ponto. Ciro e Tebet, com 6% e 4%, estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro de dois pontos de um inquérito feito por robôs que contactam por telefone 3500 eleitores de 331 municípios das 27 unidades federativas.

Na simulação de segunda volta, Lula tem 52%, Jair Bolsonaro, 38%, os brancos/nulos chegam a 7% e os que não sabem são 3%.

Na Genial/Quaest, os dois favoritos cresceram em simultâneo quando se compara a performance na sondagem anterior: Lula, com 45%, e Bolsonaro, com 33%, acrescentam ambos um ponto à pesquisa de há mês. Na simulação de segunda volta, Lula tem 51% contra 38% de Bolsonaro.

Duas mil pessoas foram entrevistadas face a face pela Genial/Quaest entre os dias 11 e 14 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais. O levantamento tem 95% de confiança. Ou seja, se 100 pesquisas fossem realizadas, ao menos 95 apresentariam os mesmos resultados dentro desta margem.

O antigo presidente voltou, por sua vez, a subir nas intenções de voto, de acordo com a pesquisa encomendada pela BTG Pactual feita pela FSB Pesquisa: o novo levantamento atribui-lhe 45% das intenções de voto - na última sondagem tinha 41% dos votos. Já o atual presidente manteve-se nos 34%.

O aumento nas intenções de voto de Lula pode ter a ver com a desistência de André Janones, do Avante, que tinha 2% e declarou apoio ao candidato no intervalo entre os dois inquéritos.

A sondagem também mostrou que Ciro cresceu de 7% para 8% e Tebet caiu de 3% para 2%.

Foram entrevistadas 2000 pessoas entre os dias 12 e 14, e a margem de erro é de dois pontos, com intervalo de confiança de 95%.

dnot@dn.pt

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