Morreu o monge budista que trouxe o "mindfulness" para o Ocidente

O vietnamita, conhecido por liderar o movimento pacifista contra a Guerra do Vietname, tinha 95 anos. Morreu pacificamente num templo na cidade de Hué.

O monge vietnamita que se transfirmou num ativista pela paz, Thich Nhat Hanh, um budista altamente influente que é creditado por trazer o conceito de mindfulness (atenção plena) para o Ocidente, morreu aos 95 anos.

O mestre zen, cuja influência dentro do budismo é vista como ficando abaixo apenas da do Dalai Lama, passou quase quatro décadas no exílio depois de ter sido expulso da sua terra natal por pedir o fim da guerra do Vietname.

Thich Nhat Hanh "morreu pacificamente" no templo Tu Hieu, na cidade de Hué, no coração budista do Vietname, anunciou a sua organização de ensino zen, a Plum Village Community of Engaged Buddhism.

Segundo a organização, Thich Nhat Hanh sofreu um acidente vascular cerebral em 2014 que o deixou incapaz de falar - ele só comunicava desde então por meio de gestos e por escrito.

"Convidamos a nossa amada família espiritual global a tirar um momentos para parar, voltar à nossa respiração consciente, enquanto juntos mantemos Thay nos nossos corações", disse a organização no Twitter, usando a palavra vietnamita para professor (como era conhecido Thich Nhat Hanh).

Antes do seu regresso ao Vietname, em 2018, ele criou retiros à volta do mundo e escreveu mais de cem livros, incluindo de mindfulness e meditação - pedra angular de uma indústria de bem-estar global que vale 4,2 biliões de dólares e é apoiada por Oprah Winfrey, Arianna Huffington e o bilionário do setor tecnológico Marc Benioff.

Liberdade religiosa e paz

Nascido em 1926, Thich Nhat Hanh foi ordenado aos 16 anos e fundou uma escola para jovens que treinava voluntários para construir clínicas e infraestruturas em aldeias devastadas pela guerra.

No início da década de 1960, viajou para os EUA, onde lecionou nas universidades de Columbia e Princeton, mas depois de uma viagem em 1966 para conhecer o ícone dos direitos civis dos EUA, Martin Luther King -- que se juntou aos seus apelos para a acabar com a guerra do Vietname -- foi impedido de regressar a casa.

Acreditando que a guerra era fundamentalmente errada, o monge recusou tomar partido no conflito e, consequentemente, foi perseguido pelos governos tanto do Norte como do Sul.

Thich Nhat Hanh passou os 39 anos seguintes em França, mas continuou a defender a liberdade religiosa em todo o mundo.

Em 1967, King nomeou Thich Nhat Hanh para o Nobel da Paz, dizendo ao comité numa carta que "este gentil monge budista do Vietname é um estudioso de imensa capacidade intelectual" e que "as suas ideias para a paz, se aplicadas, construiriam um monumento ao ecumenismo, à fraternidade mundial, à humanidade".

Thich Nhat Hanh também continuou a ajudar os compatriotas. Quando a guerra chegou ao fim, muitos fugiram do país de barco, enfrentando condições perigosas no oceano, tentando chegar a um santuário no exterior. Thich Nhat Hanh conseguiu salvar mais de 800 pessoas, depois de ter alugado dois barcos grandes.

Tal ação fazia parte na sua crença de "budismo engajado", um termo que cunhou, segundo John Powers, professor de estudos religiosos na Universidade Deakin, na Austrália.

"Um dos problemas historicamente com o budismo é que os budistas têm sido muito bons a falar sobre compaixão, mas mas não têm sido bons em colocá-la em prática", disse Powells à AFP.

Mas Thich Nhat Hanh acreditava que "não basta sentar numa almofada e mediar e isso tornou-se numa verdadeira pedra angular do budismo moderno", acrescentou.

Sob vigilância

Thich Nhat Hanh foi autorizado a passar os últimos dias da sua vida no templo Tu Hieu, mas foi vigiado de perto por polícias à paisana que mantinham a vigilância do lado de fora do complexo.

Desde o seu regresso ao Vietname, centenas de pessoas reuniam-se no seu pagode para se juntar ao monge nos seus passeios nos jardins exuberantes do templo.

A maioria dos seus seguidores é devota das suas mensagens espirituais, não da sua política.

"Ele ensinou-nos a amar as pessoas, a nos amar, a amar a natureza, disse Tran Thi My Thahn, que fez a peregrinação a Hué com amigos vindos de Ho Chi Minh.

As suas mensagens nem sempre foram bem recebidas já que a autoridades no país de maioria budista e de um só partido desconfiam das religiões organizadas. Em 2009, os seus seguidores foram expulsos de um templo no sul da província de lam Dong por multidões contratadas.

Mas os discípulos de Thich Nhat Hanh dizem que vêm em paz. "Sabemos que o Vietname tem dificuldades e sabemos que o mundo também tenta ajudar o Vietname a abrir-se, ter mais liberdade, mais democracia. Tentamos ajudar também, mas fazemos isso de maneira budista", disse Thich Chan Phap An, um dos discípulos mais próximos de Thich Nhat Hanh.

"Não é sábio ter confronto, mas é muito bom ter comunicação", disse à AFP em 2018.

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