Lula e Bolsonaro travam guerra das estrelas  

Apoio de Anitta ao antigo presidente, o preferido da maioria dos artistas, agitou a internet. Bolsonaro aposta em sertanejos. Mas as celebridades influenciam o eleitor? Especialistas divergem.

A partir deste momento eu sou "Lula lá" na primeira volta. E lutarei por uma novidade na política presidencial brasileira nas próximas eleições", escreveu no Twitter Anitta, estrela da música brasileira com 100 milhões de seguidores nas redes sociais. "Não sou petista [simpatizante do Partido dos Trabalhadores] e nunca fui. Mas este ano estou com Lula [candidato do partido] e quem quiser a minha ajuda para o fazer bombar no Tik Tok, Twitter, Instagram, é só me pedir que, estando ao meu alcance e não sendo contra a lei eleitoral, eu farei".

"Vamos juntos envolver o Brasil!", respondeu Lula da Silva, presidente de 2003 a 2010 e candidato líder das sondagens para a eleição presidencial de 2 de outubro de 2022, numa alusão ao mais recente êxito - Envolver - da cantora. Não muito depois, Jair Bolsonaro, atual presidente e em segundo lugar nas pesquisas de opinião como candidato do Partido Liberal (PL), também se pronunciou, através do filho, Carlos, responsável pela comunicação digital do pai: publicou um vídeo antigo da cantora, no qual ela se perguntava se os ministérios fazem parte do poder judicial.

O anúncio de Anitta mexeu com a campanha presidencial. Mas ela vale votos? Especialistas em ciência de dados, dizem que "sim". Professores de marketing político acham que "muito pouco". Cientistas políticos, como Alberto Carlos Almeida, autor de O Voto do Brasileiro, optam por um rotundo "não".

"Apoio de celebridade não tem impacto nenhum", diz ao DN. "Só quem tem uma visão preconceituosa do eleitor, que o vê quase como um vegetal sem cérebro, é que pode achar que ele, por gostar de uma celebridade, vota no candidato que ela defende".

"O eleitor não é bobo, não é infantil, tem uma vida densa, sabe separar os mundos, o eleitor ouve Lula ou Bolsonaro no mundo deles e ouve Anitta ou outro artista qualquer no mundo deles, não confunde", afirma Almeida.

"O eleitor toma decisões com base em pouca informação, sim, mas não é uma ameba que escolhe quem o artista que gosta manda, quem pensa assim são os elitistas preconceituosos deste país muito desigual, que se acham muito informados e veem o povo como desinformado".

O cientista político Leonardo Gabiati tende a concordar: "Eu posso eventualmente escutar A ou B, mas o voto é muito racional. Eu decido muito pela empatia que tenho com o candidato, principalmente falando de uma eleição presidencial. O voto tem uma série de orientações muito racionais", disse ao site Poder36

Para Marcelo Vitorino, professor de marketing político da Escola Superior de Propaganda e Marketing, "o apoio de celebridades para candidatos tem sempre dois lados que precisam ser observados, principalmente tratando-se de personalidades marcantes ou com potencial de gerar controvérsia". "É o caso da Anitta, por exemplo, que defendeu publicamente a descriminalização da maconha [cannabis], uma posição apoiada por uma parcela dos progressistas mas muito criticada pelo eleitorado que Lula mais precisa conquistar, os conservadores", continua, em conversa com o DN.

"No meu entendimento, Anitta não agregou eleitores ao Lula e ainda servirá como ponto de críticas para a campanha de Bolsonaro. Nem tudo que traz audiência é bom para uma candidatura. É preciso ir além da audiência pura. Uma celebridade gospel, por exemplo, mesmo com audiência muito menor do que a de Anitta, contribuiria muito mais ao projeto de expansão de eleitorado de Lula", defende Vitorino.

Mas Fábio Malini, ouvido pelo jornal Folha de S. Paulo, diz que na era em que vivemos, "a onda emocional acaba ajudando na tomada de decisão". "Se fosse há duas campanhas, eu diria que não [tem influência]. Mas no nível de tecnologia em que estamos, é fundamental criar uma onda emocional que no fim vai acabar facilitando a tomada de decisão".

"A Anitta é o arquétipo de um novo tipo de cidadão com influência, que é capaz não apenas de declarar voto e sedimentar público jovem mas também de criar uma campanha paralela à oficial", defende Malini.

Anitta soma os tais mais de 100 milhões de seguidores nas três principais redes sociais - Instagram, TikTok e Twitter. Mas o segundo classificado nessa lista é apoiante de Bolsonaro: o cantor de ritmo sertanejo universitário, Gusttavo Lima, com 75 milhões.

Nesse segmento, Bolsonaro lidera: é apoiado pelo cantor Zezé de Camargo e nomeou os integrantes da dupla Bruno e Marrone como embaixadores do turismo, por exemplo. Mas em todos os outros, é Lula o preferido.

"Quem não votar para Lula, vai estar votando contra os pretos, contra os pobres, contra os trabalhadores, contra os artistas, contra o país, contra a Amazónia, contra tudo o que a gente acredita e vem lutando democraticamente nesse país", disse a cantora baiana Daniela Mercury. Do outro lado, Andressa Urach, ex-Miss Bumbum Brasil que se tornou evangélica, defende Bolsonaro. "Eu não vou me calar e aceitar meu país virar um comunismo! Os artistas, na grande maioria, têm medo de se posicionar a favor do Bolsonaro, com medo de perder empregos e fãs! Eu não quero fãs, o único que tem que ser adorado é Jesus".

E os apoiantes de Ciro Gomes, terceiro nas sondagens, tendem a optar por Lula pelo voto útil. Como o humorista Fábio Porchat: "Se chegar agosto e o Ciro continuar com 7%, para tirar esse animal, esse verme, esse cancro que está no poder, eu vou pintado de estrela vermelha [símbolo do PT], cantando "Lula lá", e aperto o 13 [o número correspondente ao PT na urna eletrónica] trezentas vezes".

dnot@dn.pt

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