Lula e Bolsonaro entram em modo sedução até à segunda volta

Antigo presidente vai escrever "carta aos conservadores", espécie de réplica de carta redigida em 2002. O atual promete auxílio financeiro às mulheres. E os flirts não ficam por aí.

Lula da Silva, do PT, e Jair Bolsonaro, do PL, entraram no "modo sedução" de forma a alargar o leque de apoios com vista à segunda volta das eleições, marcada para dia 30. O antigo presidente, que teve 48,4% dos votos no domingo, busca sobretudo atrair o voto mais conservador, hoje nas mãos do atual chefe de Estado. E este, que chegou a 43,2% na primeira votação, pretende unir forças na conquista do eleitorado feminino, mais próximo do rival.

Bolsonaro anunciou ontem que pretende conceder o pagamento do décimo terceiro mês do Auxílio Brasil, programa de assistência social semelhante ao Bolsa Família dos governos PT, a mulheres chefes de família a partir de 2023. "Já está acertado só para mulheres, são 17 milhões [3,3 milhões de euros], a partir do ano que vem, não dá para pagar já por ser ano eleitoral, não se pode tratar desse assunto agora, é proibido pela lei eleitoral, a partir do ano que vem, há décimo terceiro para o Auxílio Brasil", disse.

O jornal Folha de S. Paulo, entretanto, lembra que dois terços das ações que beneficiam mulheres no Orçamento tiveram cortes na proposta para 2023, enviada pelo governo Bolsonaro ao Congresso no fim de agosto: nos casos mais expressivos, o corte representa 99% do que havia sido reservado inicialmente em 2022.

Por outro lado, num sinal de abertura aos mais pobres, também normalmente próximos de Lula, o presidente brasileiro reafirmou que manterá em 600 reais [116 euros] o Auxílio Brasil no próximo ano e garantiu que o governo já sabe de onde irá tirar os recursos para arcar com esse custo. "O Auxílio Brasil de 600 está garantido para todo o nosso governo, isso está acertado com [o ministro da Economia] Paulo Guedes, os recursos já sabemos de onde virão, está garantido".

No campo de Lula a ordem é sublinhar que estas medidas de Bolsonaro são "eleitoreiras", assim como a redução do preço da gasolina, e comparar o estado atual da economia com o dos governos do antigo presidente, de 2003 a 2010. "Vocês sabem que o país está pior. Que a economia não está boa, que a qualidade de vida não está boa, que o emprego não está bom, que a renda não está boa, que a saúde não está boa. E que nós precisamos recuperar esse país", disse Lula, logo após se conhecerem os resultados da primeira volta.

Mas o principal objetivo da frente de esquerda é na agenda dos costumes, mais do que na económica. Em 2002, quando Lula, depois de três tentativas frustradas, parecia finalmente a um passo da primeira eleição para o Planalto, o seu guru económico à época, Antonio Palocci, que intermediava o diálogo entre o "feroz sindicalista" e os "donos do PIB", sugeriu a redação de uma "Carta ao Povo Brasileiro" a piscar o olho à Avenida Faria Lima, a Wall Street brasileira.

Vinte anos depois, hoje chamado de "antigo presidente" por aqueles "donos do PIB" e não mais de "feroz sindicalista", Lula mete menos medo ao mercado e mais aos cristãos. Vai, por isso, redigir nova "Carta ao Povo Brasileiro", desta vez ao eleitorado mais conservador. Sem a ajuda de Palocci, claro, que além de não ser especialista na agenda dos costumes rompeu com o chefe depois de o delatar na Lava-Jato, mas com o apoio do seu candidato a vice, Geraldo Alckmin, fervoroso católico, e da sua nova-velha aliada Marina Silva, evangélica.

A avaliação da campanha do PT é que a notícia falsa de que Lula fecharia igrejas pode ter contribuído para o crescimento de Bolsonaro nos últimos dias, além do que indicavam as sondagens.

Palmo a palmo político

Em paralelo aos campos económico e social, na política os apoios também são negociados palmo a palmo. Bolsonaro conseguiu, como esperado, declaração de apoio do recém-eleito governador de Minas Gerais, segundo estado mais populoso do Brasil e barómetro do país. "Sempre dialoguei com o presidente Bolsonaro, sabemos que em muitas coisas convergimos e noutras não, mas é o momento em que Brasil precisa caminhar para a frente e acredito muito mais na proposta do presidente Bolsonaro do que na do adversário", disse Romeu Zema.

Bolsonaro e Lula agora tentam seduzir Rodrigo Garcia, ainda governador de São Paulo, estado que vai recorrer a segunda volta, entre o bolsonarista Tarcísio de Freitas e o lulista Fernando Haddad, para eleger novo líder. Terceiro mais votado nas eleições, Garcia, do PSDB, de centro-direita, deve pender para Bolsonaro.

Já Simone Tebet, terceira mais votada nas eleições com 4% pelo MDB, de centro-direita, deve optar por Lula. Ciro Gomes, o quarto mais votado com 3%, e o partido dele, PDT, de centro-esquerda já confirmaram nesta terça-feira 4 o apoio.

Geograficamente, Lula vai mapear as regiões no Sudeste, que votaram Bolsonaro, onde pode crescer ou virar o voto da primeira volta, nomeadamente em São Paulo e Minas Gerais. "Vamos conversar com todas as forças políticas que têm representatividade para que a gente consiga somar num bloco os democratas contra aqueles que não são democratas".

Bolsonaro, por seu lado, dará atenção às periferias das grandes cidades, onde vive boa parte dos brasileiros que ganham até dois salários mínimos, na sua maioria eleitores tradicionais do PT.

dnot@dn.pt

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