Lula da Silva: "O Bolsonaro é uma má cópia do Trump"

Lula da Silva foca na ecologia, na economia e na luta eleitoral em conversa com a imprensa estrangeira. "Ele diz que só Deus o tira do cargo mas quem o vai tirar é o povo brasileiro"

Lula da Silva não acredita que Jair Bolsonaro resista a ceder o poder em caso de derrota nas eleições de 2 de outubro nas presidenciais do Brasil. "É inconcebível para mim a ideia de que um país que fez a luta que nós fizemos para reconquistar a democracia, a perca por obra de um homem", disse o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), em conversa com 70 representantes da imprensa estrangeira, em São Paulo.

Numa reunião em que ecologia e economia estiveram sempre em cima da mesa, Lula dedicou parte do tempo à campanha eleitoral iniciada na semana passada e ao seu rival: "Nós não somos um país qualquer, não podemos brincar com a nossa democracia, ele diz que só Deus o tira do cargo mas quem o vai tirar do cargo é o povo brasileiro no dia 2 de outubro".

"Esta campanha é a luta do amor contra o ódio: nós temos um presidente que conta sete mentiras por dia, que desafia as mais diferentes instituições, incluindo as forças armadas, que ele diz que são dele, mas são do povo brasileiro, que ofende o poder judicial e qualquer organismo que criámos para defender a ecologia e ele não chorou uma lágrima por 680 mil pessoas neste país, por crianças que ficaram sem pai nem mãe", continuou.

"Não é a primeira campanha em que eu participo mas jamais envolvi a mulher dos rivais, se a pessoa bebe ou não bebe, se é católico ou evangélico, quando se envolve mulher em campanha é porque não tem o que falar", respondeu, a propósito de ataques nas redes sociais a Janja da Silva, a sua atual mulher.

"Depois, ele queixa-se da urna eletrónica, apesar de ter sido eleito oito vezes através dela, quem se devia queixar era o PT que perdeu as últimas eleições graças a fake news que ele importou do Trump, ele é uma má cópia do Trump, que tentou invadir o Capitólio e teve de ceder", disse Lula, numa conferência de imprensa com fortes medidas de segurança - quatro horas antes do início, a polícia federal, o FBI brasileiro, fez uma revista a cada centímetro do recinto - na sala Di Cavalcanti, em homenagem ao pintor modernista brasileiro, no Hotel Intercontinental, a um quarteirão da Avenida Paulista, em São Paulo.

Lula estava de colete à prova de balas - "não tenho medo, não tenho tempo de ter medo mas temos de ter cuidado com a segurança".

Ainda sobre Bolsonaro, "tivemos um presidente, [João] Figueiredo, que não quis passar a faixa para o [José] Sarney mas não me passa pela cabeça que alguém não aceite o resultado, quem ganha, toma posse, quem perde, vai para casa chorar, eu sou experiente nisso, perdi duas para o Fernando Henrique Cardoso e uma para o Collor de Mello, fui para casa chorar e voltei de lá a pensar no que tinha de fazer para ganhar".

Ladeado por Celso Amorim, seu ex-ministro das relações exteriores, e Aloizio Mercadante, presidente do think tank do PT, Lula sublinhou ainda que quer relações internacionais "focadas na ecologia" e recuperação económica "focada na inclusão social".

"Vocês vão ver o Brasil a cuidar do clima como não cuidou", prometeu Lula. "O Brasil precisa ser levado em conta na discussão do problema do clima no planeta pela sua dimensão e potencial extraordinários, precisamos tomar uma atitude, se não o desmatamento continua, é com esse ímpeto que estamos".

"Da mesma forma que não podemos permitir que no planeta 900 milhões passem fome, não podemos permitir que alguns irresponsáveis desmatem, não é apenas lei, é profissão de fé acabar com o garimpo ilegal, a manutenção de uma árvore em pé talvez valha mais do que qualquer outro bem, o Brasil é soberano em relação à Amazónia, isso que fique claro, mas não pode ser ignorante em relação à ciência". "Temos de cuidar da fiscalização e vamos criar o ministério dos povos originários", concluiu.

Para Lula, a economia brasileira está hoje pior do que quando tomou posse há quase 20 anos. "O Brasil de 2023 estará, do ponto de vista económico, político e social, muito pior do que o que nós pegamos em 2003, mais ainda porque o país vive um momento de confusão porque o presidente não respeita as instituições, o país é um pária, porque o atual presidente não viaja para lugar nenhum e nenhum presidente vem ao Brasil, quando, nos governos do PT, o Brasil foi protagonista internacional, respeitado por EUA e União Europeia".

"Temos muitos amigos na Europa", destacou, "e teremos com a Europa a melhor relação possível, porque a Europa também está num encrenca, por tudo o que tenho conversado, e acredito que eles estão tão ávidos quanto nós em concretizar o acordo União Europeia e a América Latina".

"Para mim não é novidade pegar o Brasil com problemas económicos, temos de baixar taxas de juro e inflação e gerar muito emprego, para isso, precisamos de um governo com credibilidade, daí vem a estabilidade e daí vem a previsibilidade, as pessoas precisam de saber o que vai acontecer no Brasil à luz do dia", afirmou sobre economia.

Segundo Lula, "tudo isso vai ser feito como da outra vez, com toda a gente sentada à mesma mesa, de indígena a pastor evangélico, de empresário a padre da igreja católica, mas as palavras chave são inclusão social porque temos 33 milhões de pessoas a passar fome, sei o tamanho do desafio e faço ginásio toda a manhã para me preparar ele".

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