Lorent Saleh: "É imoral e injusto que a Europa receba violadores de direitos humanos"

Século Sakharov. 33 anos a completar na próxima semana, Lorent Saleh, Prémio Sakharov em 2017, viveu quatro anos em centros de tortura da Venezuela de Maduro. Esta sexta-feira esteve ao lado de Michel Bachelet e David Sassoli uma conferência global sobre direitos humanos, em Veneza.

O Lorent Saleh está em sintonia com Juan Guaidó?
Na Venezuela há uma crise de liderança política. A liderança de Juan Guaidó foi-se desgastando e diluindo, geraram-se expetativas muito altas, que não se cumpriram, o que provocou o enfraquecimento dessa liderança. Há uma crise e eu creio que a elite política venezuelana tem que olhar para isso. Se não conseguiram os seus objetivos é porque não estão a fazer bem as coisas. Mas nisso não têm só responsabilidade os líderes políticos mas também os cidadãos, os ativistas de direitos humanos, os jornalistas, os advogados... não podemos continuar sem reconhecer que fizemos as coisas mal, em muitos casos. Devemos assumir os erros que cometemos. E depois de dois anos sem avançar, ou em ponto morto, sem dinamizar a política, há que procurar alternativas. O mandato de Donald Trump nos EUA fez muito dano à Venezuela, a relação dos dirigentes do que foi o governo de transição com a administração Trump, até porque se gerou uma expetativa de que Trump ia ser o salvador da política venezuelana, o que não era nem certo nem saudável. Encravou a política venezuelana. Estive nas entranhas do sistema, sei que as coisas não são sempre a preto e branco; ninguém é totalmente bom ou totalmente mau. Há corrupção na oposição e corrupção no regime. Mesmo nos partidos da oposição há pouca democracia interna, há matizes e entraves a que haja resultados diferentes dos que tivemos nos últimos vinte anos.

O que pensa da proposta de Washington de considerar levantar as sanções à Venezuela em troca de negociações do governo com a oposição?
É um tema muito sério. Não é só um problema moral e ético, mas também é uma questão de compromissos internacionais. Há a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ou as convenções sobre a tortura. O que fazem os EUA? Quando detetam que um dado funcionário é responsável por violações dos direitos humanos e torturas, têm de o castigar, não há outra forma. Sanções não são uma barganha para políticos trocarem à volta de uma mesa de café. Por isso, a partir da Europa, eu e muitos temos trabalhado no sentido de um regime europeu de sanções que permita sancionar uma pessoa em qualquer parte do mundo. Parece-lhe justo que um militar ou funcionário que ordena a tortura, assassinato, desaparecimentos, perseguição a jornalistas, alguém que comete tantos crimes, possa entrar e sair da Europa como um normal cidadão? Com o dinheiro que roubam na Venezuela e os negócios que fazem aqui? Parece-lhe justo que enquanto crianças morrem num hospital, não só porque eles roubaram dinheiro mas porque não permitem que entrem medicamentos, porque as sanções económicas não são a causa para a falta de medicamentos já que armas eles compram, o responsável pela morte dos doentes renais possa vir fazer férias de verão para a Europa? Na Venezuela há fome e não há medicamentos desde muito antes das sanções. Nem gasolina, porque o regime destruiu o aparelho produtivo. Para quê? Para que o militar possa fazer negócios, importar e ficar com as comissões. Logo, leal ao regime. E se tiver que torturar e assassinar para que o seu filho estude numa universidade na Europa, ou para a sua família ter um apartamento de luxo em Madrid, porque não o vai fazer? Aqui sabe-se quem são as pessoas do regime venezuelano que compram apartamentos nos bairros mais luxuosos de Madrid. E em Portugal, também sabem quem está a comprar os edifícios mais caros. Creio que é imoral e injusto que a Europa possa ser um espaço de liberdade para os violares de direitos humanos.

Quando em 2014 foi para a Colômbia, o governo venezuelano acusou-o de ter ligações com paramilitares colombianos e com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, de planear golpes e atividades terroristas na Venezuela...
Quando decides defender os direitos humanos, incomodas o poder estabelecido. Muitas vezes, definem-te como de esquerda e comunista, outras vezes de direita e capitalista. Para alguns no regime, sou de ultradireita, fascista, inclusivamente neonazi, com esta cara de índio! Para outros, pela minha crítica à administração Trump, sou comunista! Se denuncio o que se passa na Arábia Saudita, sou um sionista! Eu, que sou palestiniano, filho de refugiados! Se denuncio o que se passa em Cuba, sou fascista! Se denuncio o que se passa na China, sou um agente da CIA! Depois de andar há uns anos nisto, tudo bem, serei aquilo que me quiserem chamar. O que é que aconteceu: o governo colombiano sequestra-me e entrega-me ilegalmente, como concluiu a própria ONU, ao regime venezuelano. Estive preso mais de quatro anos e até hoje não houve um julgamento, nem sequer uma audiência preliminar. Estive mais de quatro anos preso.

Como eram as suas condições na prisão conhecida por La Tumba?
La Tumba é um centro de tortura que fica numa cave, num lugar especializado em tortura branca, uma técnica de tortura que visa a completa privação sensorial e isolamento. São cinco pisos abaixo do solo, na Praça Venezuela. Imagina que no centro de Lisboa há um centro de tortura [já houve, até 1974, no Chiado, Rua António Maria Cardoso, a sede da PIDE], um edifício bastante moderno que é dos serviços de informações. Usam a temperatura, a luz, o som, para molestar e torturar uma pessoa.

Foi torturado?
Claro! La Tumba é um sistema criado para torturar opositores e dissidentes da ditadura. É um lugar terrível que durante muitos anos se manteve oculto e uma das coisas que conseguimos foi divulgar o que lá se passava. Estive lá dois anos. Foi uma luta muito forte a nível internacional, impulsionada pela minha família e com o apoio de instituições como o PE para que me tirassem de lá e me levassem diretamente para o SEBIM, uma prisão política muito famosa na Venezuela porque a usaram também os governos anteriores para prender Chávez, criada por uma ditadura militar de direita. Era também um centro de tortura. Portanto, durante quatro anos, estive nos dois principais lugares de tortura e detenção política do país. Como defensor de direitos humanos e ser humano, como jovem, foi muito doloroso, horrível. Mas também me permitiu sair com vida e crescer muitíssimo, conhecer-me a mim mesmo e de que é feito o ser humano numa cela de prisão. Enquanto estamos a falar, há gente a ser torturada. Não apenas na Venezuela, mas em muitos lugares do mundo, quem sabe em Portugal ou Espanha. Talvez com menos frequência que noutros países fora da Europa, mas também aqui pode acontecer. Temos de entender a tortura como uma ação humana que pode acontecer no lugar onde vives, na tua área de trabalho, na tua escola, na tua comunidade, por razões muito diversas.

Quando foi libertado em Outubro de 2018 já tinha sido galardoado com o Prémio Sakharov. Foi um dos oito venezuelanos premiados. Foi importante?
Sim, totalmente, porque nessa altura já tinha sido tomado por alguma desilusão, estava cansado, física e psicologicamente esgotado, e do outro lado do planeta Terra, a milhares de quilómetros de distância, diziam: "estamos contigo", "não estás só". Naquela solidão, foi um abraço que senti. As possibilidades de que eu saísse em liberdade, até aí, eram zero. Já me tinha convencido disso. Já tinha assassinado a esperança de ser livre.

Porquê?
Há algo que se chama incerteza. Quando estás sequestrado por uma ditadura e sem julgamento, não sabes se vais sair hoje, amanhã ou nunca. É horrível, por isso é preferível convenceres-te de que vais morrer ali e deixares de estar angustiado sobre se te libertam ou não. O pior que te pode acontecer é achares que não faz sentido estares ali. Senti o prémio como um abraço de quem sabe o que eu estava a fazer e me apoiava. É importantíssimo para um defensor dos direitos humanos, dá sentido ao esforço e sacrifício. É uma plataforma para poder ajudar muita gente que está nesta posição, amplifica muito a voz, converteu-se num dos passos mais importantes para os defensores dos direitos humanos. Estou, completa e eternamente, agradecido aos eurodeputados, aos funcionários, a cada uma das pessoas do gabinete Sakharov pelo trabalho que fazem em matéria de direitos humanos. Há muita coisa que não se vê, mas são pequenos grãos que ajudam a fazer esse grande abraço solidário.

Quando foi libertado, sob a figura do exílio, foi levado diretamente da cadeia para o aeroporto?
Sim, quando me tiram da cela, eu não o esperava. Estava completamente convencido de que ia morrer ali. E, nesse dia, dizem-me que começava uma nova etapa na minha vida: "vamos tirar-te daqui, mas não podes regressar mais à Venezuela". Quando te dizem isso é duro, fiquei com vontade de dar pontapés na mesa. Montaram umas patrulhas e levaram-me ao aeroporto. Diretamente! A minha mãe e a minha namorada estavam à porta da prisão com comida e disseram-lhes: "hoje não se entrega comida". Só consegui falar com a minha mãe quando já estava no avião, ligou-lhe o embaixador de Espanha: "está connosco, vamos para Madrid, estamos a descolar". Assim soube ela que fui libertado. Pensei que era um sonho, ia acordar e ver que continuava na prisão.

Conseguiu ver a sua mãe depois disso, após sair em liberdade?
Claro, vieram para Espanha a minha mãe e a minha noiva, passado uma semana.

Como tem sido a sua vida em Espanha?
Bem, há que acostumar à liberdade. Os humanos são muito de hábitos. E também foi uma descoberta de que quando a polarização aumenta, muito ressentimento é gerado. Por vezes, um prisioneiro político não é perdoado por sair ileso. Como se fosse melhor que morresse ou que saísse a odiar o planeta, a dizer atrocidades, mas eu não poderia sair de lá ressentido porque senão era como se continuasse na prisão. Ressentimento e ódio são as formas mais eficazes de opressão. Então, a minha vida em Madrid tem implicado aprender a ser livre. Aprender a sorrir e rir sem culpa, porque a dor de que o mal continua, está lá. A principal ameaça aos Direitos Humanos é a polarização. Por exemplo: quando saí, Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, a alta comissária dos direitos humanos da ONU, quis ver-me. Durante o seu governo, era muito próxima com Chávez. Hoje dirige a mais alta autoridade em direitos humanos do mundo. Não a escolhi para essas funções. Desde que dediquei a minha vida à defesa dos direitos humanos e desde a primeira greve de fome em 2007, quis chamar a atenção do Alto Comissariado para os Direitos Humanos. E a Bachelet telefona-me e pede-me para falar com ela. Para um defensor dos direitos humanos, poder ser ouvido, apresentar provas e queixas ao Alto Comissário, é como para um líder de um partido político chegar ao governo. Lutei por isso toda a vida. Foi um momento emocionante quando pude conhecê-la. E ela também sofreu a perseguição de uma ditadura. Havia essa ligação humana. Olhámos nos olhos um do outro e falámos. Abraçámo-nos, chorámos. Para mim foi muito importante. Mas depois, infelizmente, tornou-se um dia muito doloroso, um dos mais dolorosos da minha vida. Recebi mensagens como estas: "maldito degenerado!", "gostaria que tivesses morrido naquela prisão", "é para isso que te libertaram, para ires brincar", "para falares com uma comunista", "para falares com uma socialista". Imagina só a polarização! Falar com ela era essencial. Mas talvez nem todos entendam. A minha conclusão, depois de conversas com psiquiatras, psicólogos, pais, filósofos, metafísicos, comigo mesmo e o meu travesseiro, é que não posso senão agradecer ao universo. Hoje posso desfrutar das coisas de forma diferente. Não posso ver o sol da mesma forma que há alguns anos atrás, nem conseguiria ver as estrelas da forma que as vejo depois de passar tantos anos desejando vê-las à noite sem poder. Não conseguiria desfrutar da minha família como agora, depois de passar tanto tempo sem a ver. É tudo tão rápido que nos esquecemos de tantas coisas essenciais! Em países como Portugal ou Espanha, ou na Europa, em que vivemos em liberdade e democracia, não devemos esquecer isso, porque tu e eu podemos falar sem medo, mas isso não é de graça. É o resultado da luta e do trabalho de milhares de pessoas ao longo de muitos anos, e não há garantia de que amanhã continuará a ser assim, nem de que amanhã desfrutemos novamente do sol e das estrelas.

A forma como desfruta agora também lhe dá esperança para o futuro da Venezuela? Ou não?
Sim, mas é uma questão complicada. Uma pessoa como Nicolas Maduro ou como os líderes da oposição, por mais grotescos ou moderados, perversos ou nobres que possam ser, são o reflexo e espelho de uma sociedade. Mas coisas novas estão a surgir. Há um movimento artístico que está aí, desenvolvem-se visões de jovens da diáspora venezuelana. Os jovens que tiveram que deixar a Venezuela, estamos a conhecer os sistemas democráticos desenvolvidos e essas experiências vão-se somando e um dia vamos voltar à Venezuela. Um país é democrático porque os seus dirigentes políticos insistem que a democracia é algo que se pratica, um modo de vida de cidadania, no trabalho, na escola, em casa, na comunidade. Acredito que isso resulta mais que ver se Maduro e Guaidó e Leopoldo se entendem; aí eu não tenho grande esperança.

ricardo.alexandre@tsf.pt

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