Líder grego aponta para "erro humano trágico" no choque de comboios que fez 42 mortos

Ministro dos Transportes demitiu-se e chefe da estação de Larissa foi detido. Mas sindicatos contestam.
Publicado a
Atualizado a

O primeiro-ministro grego, o conservador Kyriakos Mitsotakis, disse ontem que o choque de comboios que causou pelo menos 42 mortos (segundo o balanço desta quinta-feira de manhã) no centro da Grécia terá sido um "erro humano trágico". Numa declaração ao país, após ter visitado o local do acidente, revelou que ainda assim ordenou a criação de uma comissão de peritos para investigar o que aconteceu, de forma a que "nunca mais" aconteça uma tragédia como esta. Foram declarados três dias de luto nacional.

O acidente, sem precedentes no país e o mais grave na Europa desde o de Santiago de Compostela (que matou 80 pessoas em 2013), ocorreu pouco antes da meia-noite de terça-feira, quando um comboio com 342 passageiros e dez tripulantes a bordo, que fazia a ligação entre Atenas e Tessalónica, entrou na linha errada e vários quilómetros depois embateu de frente num comboio de mercadorias, que seguia em sentido contrário com dois tripulantes.

As duas primeiras carruagens do comboio de passageiros ficaram esmagadas e a terceira foi envolvida pelo fogo (as temperaturas terão chegado aos 1300 graus Celsius). As famílias estão a fornecer amostras de ADN para ajudar à identificação das vítimas. A maioria eram estudantes, que tinham ido a casa para um fim de semana prolongado, por causa de um feriado ortodoxo. Além dos 38 mortos (e o número deverá aumentar), houve 72 feridos. Seis estão em estado crítico.

"Quando algo assim tão trágico acontece, é impossível continuar e fingir que nada aconteceu", disse o ministro dos Transportes e das Infraestruturas grego, Kostas Karamanlis, ao anunciar a demissão. Considerou que era o seu "dever" e "o mínimo sinal de respeito pela memória" das pelo menos 42 pessoas que morreram "injustamente".

A polícia deteve o chefe da estação de Larissa e acusou-o de homicídio por negligência, mas segundo a Reuters este negou qualquer responsabilidade e apontou para uma possível falha técnica. Os sindicatos do setor apressaram-se também a dizer que o funcionário está a ser usado como bode expiatório e que os problemas nesta linha já são conhecidos há anos.

Kostas Karamanlis, que tem o mesmo nome de um antigo primeiro-ministro (seu primo em segundo grau), visitou o local do acidente junto com Mitsotakis e disse que herdou em 2019 uns caminhos-de-ferro que não são compatíveis com o século XXI. "Nestes três anos e meio fizemos o possível para melhorar esta realidade. Infelizmente, estes esforços não foram suficientes para evitar o acidente. E isto é muito duro para todos nós e para mim, pessoalmente", indicou. Na carta de demissão, assumiu "a responsabilidade pelas deficiências do Estado e do sistema político grego ao longo dos anos".

Além do ministro outros responsáveis dos caminhos-de-ferro apresentaram a demissão, com o primeiro-ministro a prometer que "a justiça fará o seu trabalho" e "responsabilidades serão atribuídas". Indicou ainda que o ministro de Estado Georgios Gerapetritis assumirá a pasta dos Transportes até às legislativas de julho. Vários líderes da oposição, incluindo o ex-primeiro-ministro Alexis Tsipras (do Syriza) e o líder do PASOK, Nikos Androulakis, estiveram no local e o tema promete entrar na campanha.

susana.f.salvador@dn.pt

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt