Líder espiritual do Irão considera "grave erro" entrevista de ministro iraniano

Declarações supostamente reveladas por engano estão a causar polémica porque o ministro dos Negócios Estrangeiros é muito crítico ao papel do exército na diplomacia do país.

O líder supremo do Irão, Ali Khamenei, considerou hoje "um grave erro" as declarações do ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, nas quais critica a influência do exército na diplomacia do país.

Zarif pediu este domingo desculpas pelos comentários gravados, e divulgados publicamente na semana passada, em que critica a influência do Exército na diplomacia, criando discórdia no país a menos de dois meses das eleições presidenciais.

As gravações do ministro Mohammad Javad Zarif incluíram comentários sobre o poderoso general iraniano Qassem Soleimani, que foi morto por um ataque de 'drone' nos Estados Unidos da América em 2020, segundo a agência Associated Press, lembrando que a situação gerou conflito entre os dois países.

"A política do país comporta as vertentes económica, militar, social, científica e cultural do país, além das relações externas e a diplomacia", sublinhou o aiatola Ali Khamenei num discurso televisivo, acrescentando que "se uma nega ou contradiz a outra não faz qualquer sentido. É um erro grave que qualquer responsável da República Islâmica [do Irão] não deve cometer".

Na gravação de áudio, que foi divulgado na semana passada, o ministro Zarif critica as relações de Soleimani com a Rússia, e por se recusar a parar de usar a transportadora nacional Iran Air para operações na Síria. A Iran Air foi sancionada pelos Estados Unidos.

Numa publicação este domingo na rede social Instagram, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão disse que esperava que a família de Soleimani o perdoasse.

"Espero que o grande povo do Irão e todos os apoiantes do general e especialmente a grande família de Soleimani me perdoem", manifestou Zarif, que chefia a diplomacia do país desde 2013.

Os comentários do ministro foram altamente controversos no Irão, apesar de ter assegurado que o áudio não era para ser divulgado.

A gravação de três horas, divulgada pelos media no estrangeiro provocaram fortes críticas no Irão, nomeadamente no núcleo conservador, condenando Zarif por colocar em causa as grandes linhas políticas do governo do país.

Na terça-feira, o Presidente iraniano, Hassan Rohani, ordenou uma investigação após a fuga da gravação de áudio contendo declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão a criticar o papel do general Qassem Soleimani na política externa do país.

Num extrato publicado no jornal norte-americano The New York Times, o ministro defende: "Na República Islâmica, o campo militar reina. Sacrifiquei a diplomacia [em favor] do campo político", mas o "campo militar" deve estar "ao serviço da diplomacia".

Ainda que alguns o tenham sugerido como um potencial candidato às presidenciais, Zarif afirmou que não concorrerá à presidência nas próximas eleições, que se realizam dentro de menos de dois meses.

"Nós acreditamos que esse roubo de dados é uma conspiração contra o Governo, o sistema, a integridade das instituições nacionais e também contra nossos interesses nacionais", disse o porta-voz do Governo, Ali Rabii, aos jornalistas.

Apelidado de "o homem do campo de batalha", Qassem Soleimani foi morto durante um ataque de 'drones' norte-americanos, em Bagdade, em janeiro de 2020.

Soleimani era o chefe da Força Quds, encarregado das operações externas da Guarda Revolucionária, braço ideológico do exército islâmico República do Irão.

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