Kuleba pede "prazo razoável" para adesão da Ucrânia à UE

Chefe da diplomacia alegou, numa intervenção no Fórum La Toja - Vínculo Atlântico, na Galiza, que a guerra "é o resultado da incerteza que houve nos países europeus mais influentes" durante décadas.
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O chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba, disse esta quinta-feira que "quanto mais cedo a Ucrânia entrar na União Europeia, melhor", alegando que a guerra "é o resultado da incerteza que houve nos países europeus mais influentes" nas últimas três décadas sobre a pertença da Ucrânia à Europa.

"Estou convencido que rápido, muito rápido, a Ucrânia estará dentro da família europeia", respondeu o chefe da diplomacia espanhola, José Manuel Albares, que esteve à conversa com Kuleba (que participou por videoconferência) durante o Fórum La Toja - Vínculo Atlântico, que decorre até sábado na ilha A Toxa, na Galiza. Espanha ocupará a presidência rotativa da União Europeia no segundo semestre de 2023.

"Lembro-me que todas as questões sobre a Ucrânia na União Europeia eram acompanhadas da questão: e o que vai achar a Rússia? Como vai ser a relação da União Europeia e a Rússia", explicou Kuleba, dizendo que a proposta que era dada à Ucrânia era a de estar num "caminho intermédio". E diz que é preciso acabar com isso, defendendo a adesão "num prazo razoável".

"A Ucrânia pertence à família europeia e deve estar na União Europeia. Não podemos perder mais tempo. Faremos as reformas que forem necessárias. Apesar da guerra, estamos a introduzir as reformas para dar os passos necessários e esperamos que a União Europeia olhe para os nossos esforços de boa-fé", acrescentou o chefe da diplomacia ucraniano.

"Estamos comprometidos. Vemo-nos num processo histórico em que a fronteira da Europa ficará claramente definida, será na fronteira oriental da Ucrânia. Tudo o que estiver para lá desta fronteira, no futuro, não terá nada a ver com a Europa. Não será Europa", afirmou Kuleba.

Apesar de se mostrar confiante, Albares falou contudo nos desafios do processo de adesão ucraniano. Por um lado, estando o país em guerra, não se pode pedir o mesmo que se pede a outro candidato. "A Ucrânia não é um candidato normal", referiu. Por outro, há a questão dos outros países que já estão neste processo há vários anos. "Temos que equilibrar isto", explicou, dizendo que também será preciso repensar as questões institucionais. Por exemplo, em matéria de política externa, é preciso unanimidade e basta um país para bloquear todo um processo

"Agradecemos que estejam a apoiar a Ucrânia e pedimos que continuem a apoiar, porque quando ganharmos também será a vossa vitória", disse o responsável ucraniano.

A única razão por que o presidente russo, Vladimir Putin, está a fazer isto é por causa da "sensação de impunidade", alegou Kuleba, citando o que aconteceu na Geórgia, em 2008, e depois na Crimeia, em 2014. "Só há um modo de proteger os nossos valores fundamentais: acabar com essa impunidade. Pôr a Rússia no seu lugar. Fazê-los render contas. Os invasores têm que ser acusados de crimes de guerra e genocídio", referiu.

Falando da ameaça nuclear, da mobilização militar e até dos "falsos" referendos, Kuleba disse que todos compreendem porque Putin deu este passo. "Está a perder no campo de batalha e por isso está a pôr todas as suas cartas na mesa para difundir o seu medo". E apelou: "temos que rejeitar as suas ameaças"

O chefe da diplomacia ucraniana pediu para que se continue a enviar armas para o seu país, além do apoio económico e humanitário, lembrando que neste momento a Ucrânia "é o maior defensor dos valores atlânticos" e que apostar na Ucrânia "é o maior investimento que podem fazer".

Neste ponto, agradeceu o apoio que tem sido prestado por Espanha, tendo sido tratado por "meu amigo Dmytro" por Albares, que disse esperar vê-lo em breve em Kiev.

Na sua intervenção, o chefe da diplomacia espanhola lembrou que os ucranianos estão a lutar por mais do que a sua soberania e integridade territorial. Estão a lutar pelos valores europeus. "Há um modelo em que vivemos, com décadas de paz e prosperidade, baseado na pluralidade e democracia e soberania dos estados. E depois há outro modelo. O modelo de Putin é o de nacionalismo violento, do autoritarismo, que não crê na pluraidade", referiu. "Há um modelo que olha para o futuro e há um que olha para o passado, e esse é o que Putin quer para nós, um que nos leva de volta ao tempo dos muros."

Albares lembrou ainda que a Ucrânia nunca foi uma ameaça à segurança territorial da Rússia, nem a União Europeia ou a NATO "empurraram" ninguém para esta guerra. "Putin era o único que queria esta guerra", referiu, reiterando que "Putin não ganhará".

O chefe da diplomacia espanhola repetiu que Espanha "não dá crédito nenhum" à "burla" dos referendos "ilegais" que ocorreram no território ucraniano ocupado e "levantará a voz" para rejeitar a anexação, que deverá ser confirmada esta sexta-feira por Putin.

Questionado sobre a nova arquitetura de segurança, Kuleba diz que toda a gente fala sobre a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, brincando que é como o futebol, de que todos parecem ser especialistas.

Uma coisa é certa, afirma: "O futuro da arquitetura de segurança mundial nascerá dos campos de batalha da Ucrânia." O ministro diz que o resultado da guerra, "a vitória da Ucrânia", terá um impacto direto sobre o futuro da arquitetura de segurança da Europa e do resto do mundo.

Admitindo que não sabe se levará semanas ou meses, Kuleba diz acreditar que o momento de falar da nova arquitetura de segurança mundial está a aproximar-se.

"A guerra na Ucrânia já começou a levar-nos a pensar como vemos a segurança na Europa", admitiu o ministro espanhol. "Percebemos que a guerra pode ser uma realidade para nós", afirmou, lembrando que "era algo que não considerávamos desde a II Guerra Mundial". A consequência é que isso já está a levar a mudanças, falando por exemplo na decisão da Suécia e Finlândia de aderirem à NATO ou até da mudança da política alemã de autorizar o fornecimento de armas à Ucrânia.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, não estava na mesa, mas estava na plateia e foi chamado também a intervir. Falando da na nova arquitetura de segurança europeia, admitiu que será muito difícil, quase impossível, que a Europa se volte a sentar com Putin depois da guerra.

E enumerou três condições base: primeiro, que seja reconhecida a soberania territorial da Ucrânia. Depois, que haja um reconhecimento da Rússia da sua responsabilidade económica e moral. E por fim, é preciso que os responsáveis rendam contas. Estes são "requisitos preliminares para reconstruir a estrutura de segurança na Europa". Uma estrutura que "foi construída depois da Guerra Fria, mas foi destruída pela invasão da Ucrânia".

A jornalista viajou a convite da organização do fórum.

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