"Kim" Netanyahu vê estreitar-se caminho para formar governo

No mesmo dia em que ouvia em tribunal a procuradora acusá-lo de estar envolvido em corrupção, o líder israelita vê a continuidade no poder cada vez mais incerta.

Se há alguém que sabe tirar máximo partido das virtudes e das insuficiências da democracia de Israel, esse alguém é Benjamin Netanyahu. É primeiro-ministro há 12 anos consecutivos, um caso único de longevidade naquele país do Médio Oriente e não tem hesitado em coser e descoser alianças internas nem em devolver a palavra aos eleitores. De tal forma que nos últimos dois anos os israelitas votaram nas legislativas por quatro vezes, ao ponto de o presidente Reuven Rivlin ter comentado que "a democracia esgotou-se". No entanto, o espectro de uma quinta eleição está no ar, após um dia em que o julgamento do primeiro-ministro começou na fase probatória e o chefe de Estado ouviu os partidos para saber em quem depositam a sua confiança para ser nomeado primeiro-ministro, não havendo para já quem consiga reunir votos de 61 deputados.

A sessão no tribunal de Jerusalém Oriental, a primeira em dois meses, ficaram marcados pela presença de Benjamin Netanyahu, acusado de fraude, abuso de confiança e corrupção em três casos, enquanto na rua apoiantes e críticos do primeiro-ministro se manifestavam. Depois de ter ouvido as alegações iniciais da procuradora Liat Ben-Ari, nas quais esta disse aos juízes que o primeiro-ministro estava envolvido "num caso grave de corrupção governamental", Netanyahu deixou a sala de audiências.

Foi acusado pela procuradora de aceitar presentes impróprios e de trocar favores de regulamentação com empresários dos media em troca de cobertura positiva. Ben-Ari disse que Netanyahu tinha "feito uso ilegítimo do grande poder governamental que lhe foi confiado" nas relações com os executivos dos meios de comunicação social "a fim de favorecer os seus assuntos pessoais".

O ex-diretor do Walla disse em tribunal que a redação mostrava-se furiosa com a interferência, ao ponto de um editor chamar Kim [Jong-un] a Netanyahu.

O início da fase probatória, na qual uma fila de testemunhas deverá tomar posição contra o primeiro-ministro, começou com o antigo diretor do site de notícias Walla, Ilan Yeshua. Este declarou que recebia instruções dos aliados de Netanyahu com regularidade para publicar artigos favoráveis ao primeiro-ministro e informações que manchavam os seus rivais. "Era evidente que éramos um site que fazia o que o gabinete do primeiro-ministro nos pedia", disse Yeshua ao tribunal.

Não poucas vezes eram os próprios donos da empresa proprietária, a Bezeq, a escolher títulos e fotografias. Shaul e Iris Elovitch são arguidos no chamado caso 4000, suspeitos de terem beneficiado de centenas de milhões de dólares. O ex-diretor disse que a redação mostrava-se furiosa com esta interferência, ao ponto de um editor apelidar Netanyahu de "Kim", referência ao ditador norte-coreano Kim Jong-un.

De acordo com o testemunho de Yeshua, um alvo chave da alegada campanha de difamação de Netanyahu foi Naftali Bennett, o antigo protegido do primeiro-ministro, que agora lidera o partido nacionalista religioso Yamina, o que pode significar problemas para Netanyahu, que provavelmente precisará do apoio de Bennett para formar um governo.

Numa mensagem televisiva que não estava agendada, horas após a audiência ter terminado, o primeiro-ministro cessante atacou a procuradoria. "Isto é o que parece um golpe", disse, tendo voltado a usar a expressão "caça às bruxas".

É neste contexto que Reuven Rivlin sugeriu a possibilidade de entregar a missão de formar um governo a outro que não Netanyahu, cujo partido Likud ganhou as eleições com 24,1% dos votos. "Pode haver outras ponderações, incluindo considerações baseadas em valores que não sei se o presidente tem autoridade", disse Rivlin, que tem até amanhã para designar um candidato a primeiro-ministro.

Rivlin passou a segunda-feira a ouvir os representantes dos partidos eleitos para o Knesset darem as suas indicações e mostrou-se pessimista quanto à formação de uma coligação.

Netanyahu recebeu a recomendação de 52 deputados, o centrista Yair Lapid de 45 e Bennett de sete. Os restantes 16 deputados, dos partidos árabes e da Nova Esperança (direita) abstiveram-se, embora este último defenda uma coligação liderada pelo Yesh Atid de Lapid, segundo classificado nas eleições, e pelo Yamina de Bennett, quinto mais votado. No final do dia, Lapid confirmou que decorrem negociações para que essa coligação se materialize. No entanto, o presidente poderá acabar por dar a Netanyahu a tarefa de formar um governo, dispondo então de 42 dias para o efeito.

cesar.avo@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG