Kiev rejeita tática de negociações forçadas da "terrorista" Rússia

No dia em que o Parlamento Europeu designou o estado russo promotor de terrorismo, e na véspera dos nove meses da invasão, Moscovo lançou mais um ataque em larga escala, com dezenas de mísseis. Os líderes ucranianos dizem que não irão ceder.

Horas depois de um bombardeamento russo ter atingido uma maternidade e matado um bebé, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução carregada de simbolismo ao declarar o estado russo "promotor de terrorismo". Os efeitos práticos desta votação, para lá de irritar Moscovo e ter levado a um ataque informático ao site do Parlamento, estão por determinar. À entrada do nono mês da "operação militar especial", Moscovo aposta no continuado ataque a infraestruturas para levar Kiev a novas negociações ou a uma trégua.

Com a Rússia a confrontar-se com pesadas perdas humanas e materiais e a Ucrânia a deparar-se com gravíssimos problemas para assegurar os serviços essenciais, há vozes a clamar por tréguas e planos de paz, mas a via negocial aparenta estar longe. "Se Moscovo acredita realmente que as falhas de energia farão com que os ucranianos derrubem o governo e implorem por misericórdia, então após nove meses de guerra o Kremlin ainda não sabe nada sobre a Ucrânia", disse o conselheiro do presidente Mikhailo Podolyak. "Ou se força a Ucrânia a alcançar a paz, ou se força o Ocidente a forçar a Ucrânia a alcançar a paz", comentou por sua vez o chefe de gabinete de Zelensky, Andriy Yermak, sobre a tática de Moscovo.

O Kremlin admitiu na semana passada que os ataques continuados a estações elétricas e outras infraestruturas visam levar os ucranianos a negociar. "Sim, queremos negociações, mas também queremos um desfecho que assegure uma Ucrânia soberana e independente", assegurou o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg.

Em Estrasburgo, o texto final da resolução a reconhecer a Federação Russa um estado patrocinador de terrorismo, uma iniciativa inédita entre os parlamentares europeus, teve apoios em todas as bancadas. Foi aprovado com 494 votos favoráveis, 58 contra e 44 abstenções, e segue-se a declarações similares da assembleia parlamentar de outra organização com sede em Estrasburgo, o Conselho da Europa - do qual a Rússia foi expulsa em março -, bem como dos parlamentos da Polónia, Estónia, Letónia, Lituânia e República Checa.

Além de condenarem os ataques e as atrocidades russas, os eurodeputados dizem que é altura de um debate público sobre os crimes do regime soviético.

Como a UE só tem competências para designar indivíduos ou grupos terroristas, o Parlamento pede para cada estado-membro aprovar legislação própria, o que iria ter restringir ainda mais as relações com a Rússia. Quanto ao mais, os eurodeputados instaram o Conselho Europeu a incluir na lista de terroristas o grupo de mercenários Wagner, o 141.º regimento especial motorizado (oriundo da Chechénia, é também conhecido como Kadyrovtsy, em menção ao líder da região) e outras milícias russas.

Nos 18 pontos da resolução, os representantes europeus realçam que os "ataques deliberados e atrocidades perpetrados pela Federação Russa contra a população civil da Ucrânia, a destruição de infraestruturas civis e outras violações graves dos direitos humanos e do direito humanitário internacional equivalem a atos de terror contra a população ucraniana e constituem crimes de guerra".

No entanto, também incitam os cidadãos russos a recusarem entrar na guerra e a "protestar contra os crimes de guerra atrozes contra a população ucraniana" e o seu apoio aos cidadãos que lutam contra o regime. Num ponto para todos, mas em especial para os russos, salienta-se a necessidade de uma "avaliação histórica e jurídica" e de um "debate público sobre os crimes do regime soviético", isto porque "a falta de responsabilização e de justiça apenas conduz à repetição de crimes semelhantes".

Em aparente indiferença à quase unanimidade europeia face à invasão russa e aos seus métodos, as forças militares russas prosseguiram os seus ataques a vários pontos da Ucrânia. Na madrugada, foram as regiões de Kharkiv (dois mortos em Kupiansk) e de Zaporíjia (um recém-nascido morto, a mãe e um médico feridos na maternidade de Vilnyansk). Mais tarde dezenas de mísseis de cruzeiro foram lançados de aviões bombardeiros e de dois navios no mar Negro para vários pontos do país. A Força Aérea ucraniana diz ter derrubado 51 dos 70 mísseis, bem como cinco drones. Porém, os projéteis que passaram as defesas mataram pelo menos cinco pessoas só na região de Kiev e levaram à interrupção temporária de quase todas as centrais de energia.

Kiev ficou sem eletricidade nem água no que foi o quinto ataque em larga escala de mísseis de cruzeiro desde 10 de outubro. "O Parlamento Europeu reconheceu a Rússia como um estado que patrocina o terrorismo. Finalmente, obrigado a todos os eurodeputados. E de seguida a Rússia provou a todo o mundo que esta afirmação é verdadeira ao lançar 67 mísseis nas nossas infraestruturas, no nosso sistema energético, e nas pessoas comuns", reagiu o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

As análises dos serviços de informações ocidentais apontam para a Rússia estar a ficar com os arsenais despidos de mísseis de precisão e os serviços ucranianos dizem que os russos só podem executar ataques em larga escala "três ou quatro vezes". Mas o ex-presidente russo Dmitri Medvedev, depois de ter visitado uma oficina de armamento disse que "há suficiente para todos", ao contrário do que dizem os "inimigos", segundo a agência Tass.

Biden contra rótulo terrorista

O apelo das autoridades ucranianas para que outros países designem a Rússia um estado terrorista não foi ignorado nos Estados Unidos. Em julho, num raro momento de unanimidade, os senadores aprovaram uma resolução - não vinculativa - na qual instavam o secretário de Estado Antony Blinken a designar a Rússia um "estado patrocinador de terrorismo" pelas ações na Ucrânia, mas também na Síria, Geórgia e Chechénia. No entanto, em setembro, o presidente Joe Biden tentou pôr termo à discussão ao responder com um simples "Não" aos jornalistas.

Para a Casa Branca não há vantagens ao situar a Rússia no mesmo plano que a Síria, Coreia do Norte, Irão e Cuba. Segundo Blinken as restrições aprovadas nas sanções "estão totalmente em linha com as consequências que existiriam com a designação", e sem os contras que a Casa Branca alega desencadear (prejudicar a capacidade de "apoiar a Ucrânia na mesa de negociações", ou de "entregar assistência humanitária em certas regiões da Ucrânia". Os senadores não se deram por convencidos e prepararam legislação para contornar o secretário de Estado, mas a lei não passou da fase do seu anúncio, em meados de setembro.

cesar.avo@dn.pt

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