Kamala: muito mais do que a vice por detrás do presidente Biden

"Está na hora de começar a trabalhar", disse a vice-presidente após a posse. E foi o que fez: os seus primeiros dias no cargo incluíram discursos, almoços e um telefonema ao líder da OMS.

Depois do primeiro almoço de trabalho com a sua vice-presidente, na sexta-feira, Joe Biden escrevia no Twitter: "Uma nova administração significa uma nova parceira de almoço." O 46.º presidente dos EUA pretende recuperar uma velha tradição da Casa Branca, interrompida pelo antecessor, Donald Trump. Mas este é também mais um sinal do protagonismo que pretende dar a Kamala Harris.

Logo na noite da tomada de posse e poucas horas depois do discurso de Biden no Capitólio, a vice falou no monumento a Lincoln, diante da estátua do presidente que venceu a Guerra Civil. Kamala também esteve ao lado de Biden quando este assinou as suas primeiras ordens executivas para reverter algumas das decisões de Trump. E esteve na Sala Oval durante o briefing diário do presidente. Uma visibilidade pensada pela equipa presidencial e que sublinha o seu papel como primeira mulher, primeira afro-americana e primeira asiática (o pai é jamaicano, a mãe é indiana) vice-presidente dos EUA. E um sinal de que ao longo dos próximos quatro anos, a vice será muito mais do que a mulher por detrás de Joe Biden.

"Até nos tempos mais sombrios, não só sonhamos como fazemos. Não vemos só o que foi, vemos como pode ser. Isto é a aspiração americana", afirmou na quinta-feira Kamala Harris no monumento a Lincoln, a poucos passos do local onde Martin Luther King fez o seu discurso "Eu Tenho um Sonho".

Trump nunca deixou grande espaço de manobra a Mike Pence, com o vice-presidente a ser eclipsado pelo gosto dos holofotes e pela quase omnipresença do presidente nas redes sociais, onde tanto atacava adversários, como despedia colaboradores.

Mas tudo indica que a administração Biden vai seguir um rumo muito diferente. Para começar, Biden, de 78 anos, já disse que não irá candidatar-se a um segundo mandato, o que deixa a porta aberta para a sua vice avançar em 2024. E sendo assim, estes quatro anos são essenciais para se afirmar e ganhar experiência.

É que se Biden passou mais de quatro décadas nos corredores do Congresso - foi eleito senador em 1972 aos 29 anos - e mais oito anos como vice-presidente de Barack Obama, aos 56 anos, Kamala serviu apenas quatro anos como senadora antes de Biden a escolher para sua vice-presidente. Antes disso, esta advogada de formação fora procuradora-geral da Califórnia, entre 2011 e 2017.

Consciente de que num país, entre outros desafios, confrontado a uma pandemia que já matou quase 430 mil americanos, a nova administração não tem tempo a perder, Kamala foi a primeira a dizer "Está na hora de começar a trabalhar." E foi o que fez. Na quinta-feira, primeiro dia completo de trabalho, a vice-presidente sentou-se no seu gabinete a meio da manhã, começando por ler o bilhete deixado pelo antecessor. A relação entre Kamala e Mike Pence acabou por ser mais cordial do que a de Biden e Trump, com o vice republicano a optar por assistir à tomada de posse do democrata, enquanto o ex-presidente preferiu seguir cedo para o seu retiro de Mar-a-Lago. Foi lá que passou o fim de semana, dedicando-se a um dos seus passatempos preferidos, o golfe, enquanto espera que avance para o Senado o segundo processo de destituição contra ele.

Segundo a CNN, Kamala já telefonou a Pence e os dois deixaram em aberto a possibilidade de voltarem a falar no futuro, mas fontes próximas da nova vice-presidente garantem que ela irá inspirar-se muito mais em Biden do que em Pence como modelo a seguir.

"Não é difícil para o presidente Biden, uma vez que ele próprio já viveu uma experiência semelhante. Ele sabe que trouxe valor acrescentado ao presidente Obama de múltiplas formas e vai querer que Kamala faça o mesmo com ele", explicou à CNN Jay Carner, diretor de comunicação de Biden quando era vice-presidente.

Instalada, para já, com o marido, Doug Emhoff, em Blair House, mais próxima da Casa Branca do que a residência oficial do vice-presidente, Naval Observatory, Kamala tem passado muito tempo a trabalhar fora do seu gabinete. Talvez por este, ao contrário da Sala Oval, ainda não ter sido redecorado ao gosto da vice-presidente.

Preferindo inicialmente não ficar com nenhuma pasta específica e trabalhar com Biden em todos os assuntos, a vice-presidente também já teve algumas iniciativas a solo, como o discurso que fez para o sindicato internacional dos funcionários dos serviços ou quando ligou ao diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus, para falar da pandemia de covid-19. Sinal de que não pretende descurar a política externa.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG