"Julgamento por combate". Desespero de Trump é combustível para manifestantes

Capitólio foi invadido por apoiantes de Trump depois de este ter dito que nunca iria desistir nem reconhecer a vitória de Joe Biden.

No dia em que Raphael Warnock, um pastor da Igreja Batista, foi eleito senador, o ainda presidente dos Estados Unidos, qual líder de uma seita, dirigiu-se aos seus fiéis, no centro de Washington. Aos milhares, sem distanciamento social e a larga maioria sem máscaras, ouviram Donald Trump afirmar que se o vice-presidente fizesse a "coisa certa" as eleições seriam ganhas e o seu advogado pessoal, Rudolph Giuliani, pedir um "julgamento por combate".

Ainda antes de o comício ter terminado e já muitos abandonavam o relvado do National Mall e dirigiam-se para o Capitólio, onde centenas saltaram barreiras e envolveram-se em confrontos com a polícia, tendo alguns chegado a entrar no edifício. A polícia chegou a usar gás lacrimogéneo para controlar a revolta.

No interior, os trabalhos da sessão conjunta do Senado e da Câmara dos Representantes, a contagem dos votos do Colégio Eleitoral, que vai dar a vitória ao candidato democrata Joe Biden, tiveram de ser interrompidos. A mayor da capital, Muriel Bowser, ordenou o recolher obrigatório e os funcionários do Capitólio declararam o isolamento do edifício, tendo os eleitos recolhido para os seus gabinetes.

Donald Trump tinha prometido um protesto "grande" e wild, que tanto pode ser traduzido por "louco" como por "selvagem". Aconteceu um pouco de ambos. O primeiro incendiário de serviço foi Giuliani, que prometeu a verificação das máquinas eleitorais e dos boletins de voto nos próximos dez dias. "Se estivermos enganados seremos considerados tolos. Mas se estivermos certos, muitos deles irão para a cadeia", disse, para gáudio da multidão.

"Portanto, vamos a julgamento por combate. Estou disposto a apostar, estou disposto a apostar a minha reputação, o presidente está disposto a apostar a sua reputação, no facto de que vamos lá encontrar crimes", concluiu, passando por cima dos sete milhões de votos a mais de Biden, de este ter recebido a maioria dos votos dos eleitores do Colégio Eleitoral (306-232) e de os 60 recursos e ações interpostos em tribunais revelarem-se improcedentes.

Depois foi a vez de os filhos Eric e Donald Jr. exigirem aos membros do Congresso que rejeitassem os votos do Colégio Eleitoral, Donald Trump Jr. disse que o Partido Republicano "já não é deles". "Este é o Partido Republicano de Donald Trump". Mas foi o próprio Donald Trump quem jogou gasolina na fogueira. "Nunca desistiremos. Nunca iremos reconhecer [a vitória de Biden]", disse.

Enquanto criticava os "fracos republicanos" do Senado e da Câmara que se opuseram à manobra de objetar à certificação dos resultados oficiais - de qualquer modo, a jogada estava condenada à partida porque os democratas controlam a Câmara -, Trump tentava uma última manobra de pressão ao até agora fiel vice-presidente, que presidia à sessão por inerência das funções. "Espero que Mike tenha a coragem de fazer o que tem a fazer", disse enquanto descrevia as eleições norte-americanas como menos honestas do que as dos "países do Terceiro Mundo".

Mas enquanto Trump estava a falar e o Congresso abria a sessão, com o líder republicano Mitch McConnell a alertar para uma "espiral mortal" ao negar a vitória de Biden, Pence disse em comunicado que não iria intervir a favor do candidato derrotado. "A Constituição impede-me de reivindicar autoridade unilateral para determinar quais os votos eleitorais que devem ser contados e quais os que não devem", afirmou.

A meio das cenas de caos, e antes de ter pedido via Twitter aos seus apoiantes para realizarem protestos pacíficos, Trump não perdoou a Mike Pence. "Mike Pence não teve a coragem de fazer o que deveria ter sido feito para proteger nosso país e nossa Constituição", tuitou. "Os Estados Unidos exigem a verdade!", concluiu.

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