Como surgiu a oportunidade de uma autora francesa, filha de pais revolucionários que andaram pela América Latina, ajudar o rei Juan Carlos a escrever as suas memórias?Foi ele que me escolheu e me convidou. Já estava em Abu Dhabi há alguns meses e tinha este projeto de escrever as suas memórias. Telefonou-me. Eu estava em Paris, durante a pandemia de Covid, e estava em confinamento. Ele pediu-me para ir vê-lo, disse que queria falar comigo e era para me apresentar este projeto. Eu já o conhecia, já tinha escrito um livro sobre ele, de que ele gostou, e já lhe tinha feito uma longa entrevista para um documentário em França, que foi a sua última entrevista antes de abdicar. Portanto, já tínhamos uma relação de vários anos, a falar, a encontrarmo-nos. Ele tentou trabalhar com outras pessoas antes, mas não resultou, e depois ligou-me. Disse-lhe que não, que não podia, porque escrevo os meus próprios livros e não me sinto muito à vontade a escrever para um rei. Não confiava nele, mas ele confiava em mim. E como foi o processo?O importante era ter a sua voz no livro, ou seja, a sua forma de escrever, de falar, de dizer as coisas. Que fosse ele, a sua forma de se expressar. Disse-lhe que só escrevia em francês, por isso tinha de ser em francês, mas para ele isso não era um problema, porque é a sua língua materna, uma vez que passou a Guerra na Suíça. É raro um rei espanhol escrever as suas memórias em francês, mas, no final de contas, é descendente direto de Luís XIV, pelo que é um Bourbon francês. No início ia a Abu Dhabi por alguns dias para o entrevistar. Ele disse-me: “Estamos a trabalhar bem, mas estamos a ir muito devagar.” E pediu-me para me mudar para Abu Dhabi, para que me pudesse dedicar integralmente ao livro. E mudei-me para lá com a minha família durante dois anos. Por sorte existem escolas francesas por todo o lado, por isso consegui matricular os meus filhos numa. Foram dois anos a fazer este trabalho diariamente?Havia muitas conversas informais, porque quando se está a gravar, as pessoas contêm-se. Acho que os chefes de Estado, as pessoas em posições de poder, ficam um pouco stressados quando estão a ser gravados. Portanto, íamos, bebíamos um café e conversávamos de forma muito informal sobre um tema que ele escolhia ou que eu escolhia, dependendo um bocadinho de onde estávamos. Eu transcrevia e ele corrigia, às vezes acrescentando as suas próprias palavras. São as memórias dele, porque trabalhamos sem arquivos. .O título é Reconciliação. Estamos a falar do papel reconciliador que o rei desempenhou durante a Transição ou estamos a falar de uma tentativa de reconciliação com a família e com Espanha depois dos escândalos?Para ser sincera, demorámos muito tempo a encontrar um título. Queríamos uma frase curta ou uma única palavra que fosse fácil de traduzir mundialmente. Porque foi escrito em francês, mas foi publicado em espanhol, português, está a ser traduzido para árabe, inglês e por aí adiante. Tinha de ser fácil. E, tentando resumir o que o rei significava para mim, disse-lhe: “Bom, o senhor é o rei que reconciliou o povo espanhol durante a transição.” E ele disse que sim, que era boa ideia, reconciliação. “Que maravilha.” Mas depois a imprensa espanhola começou a ver isto como uma possível tentativa de reconciliação com a sua família. Na realidade, tem uma ótima relação com a família, não precisa de se reconciliar com a família.Uma reconciliação com Espanha, depois de ter saído...Diria que procura uma aproximação. Uma relação mais próxima com Espanha e o povo espanhol. Mas reconciliação, não sei. Bem, não era essa a intenção inicial.A mensagem do livro parece ser a de que o homem falhou, e Juan Carlos admite erros na sua vida pessoal, mas que o rei não falhou e tentou sempre fazer o melhor pela Espanha. Gostei muito do seu resumo. O rei sente que o povo espanhol se esqueceu do que aconteceu antes e apenas se concentra nas polémicas dos últimos anos? Que se esqueceram da Transição e de tudo o que ele fez? Não é esquecimento, porque, no final de contas, os espanhóis vivem em democracia todos os dias. A Constituição é a Constituição do rei Juan Carlos. Mas acho que é a distorção por parte de alguns políticos, por parte de algumas pessoas que querem apresentar uma versão diferente dos acontecimentos que ele viveu em primeira mão. Portanto, a ideia foi um pouco apresentar a versão dele dos factos, para que não sejam distorcidos ou manipulados pelos políticos tendo em conta os seus próprios interesses. Acho que foi mais sobre isso, deixar um testemunho para a história.E de que tipo de manipulação está a falar? Estamos a falar dos políticos do passado ou os de hoje?De hoje, sim. O vilão desta história não é Felipe VI, mas sim Pedro Sánchez e o seu governo?Sim, exatamente. Está a falar de forma mais direta do que eu. Mas é isso mesmo. A questão é que Pedro Sánchez está a governar com a Constituição do rei Juan Carlos, mas está a tentar debilitar as instituições democráticas. O rei não vê como traição pessoal a decisão de o filho o afastar, mas sim como algo que tem que fazer para proteger a própria instituição.Exatamente. [Juan Carlos] admira muito o filho como rei e respeita as decisões que ele toma, sabendo que visam proteger a Coroa. Claro que a relação entre pai e filho é mais dolorosa, mas, entre reis, respeitam-se muito.E ele acredita que a democracia pela qual tanto lutou está em risco?Ele vê isso em todo o mundo. Deve ser muito difícil para ele, porque ele fez tanto para estabelecer a democracia. Juan Carlos é uma espécie de rei da democracia e vê que ela está a desintegrar-se em todo o mundo. Acho que a dada altura ele pensou que a história estava a caminhar para mais democracias no mundo. E hoje é o contrário. Isso choca-o muito. Ele acompanha o que está a acontecer em Espanha?Sim. Lê todos os jornais diariamente. Está muito bem informado sobre o que se passa em Espanha e no mundo. Além disso, acho que depois de quase 40 anos no trono... Ele conhece tudo como a palma da mão..Quem vai ler o livro à procura dos mexericos e dos escândalos não os vai encontrar. Não há pormenores dos casos que admite ter tido... Não, mas ele reconhece os seus erros. Ele tinha muito claro que o livro precisava de abordar tanto os aspetos positivos como os negativos. O que eu achei muito saudável. E depois, sobretudo em relação à questão das amantes, também esclarece as coisas. Mas nem refere nomes. Quem conhece os escândalos, sabe do que fala, lê a sua versão, mas quem não sabe o que está a falar, não vai ficar a saber.Porque o livro não é para os tabloides espanhóis. É uma versão para o mundo. Em França, e eu sou francesa, não sabemos quem são estas pessoas, mas também não temos muito interesse em saber quem são. Penso que não farão parte da história. Ele escreveu este livro para os jovens, queria deixar o seu testemunho pessoal não apenas aos jovens espanhóis, mas aos jovens de todo o mundo. Para que pudessem ouvir os acontecimentos por palavras suas. Neste livro estamos a falar de figuras históricas - Adolfo Suárez, Franco, chefes de Estado de todo o mundo. São dois níveis diferentes. Em relação a Franco há uma certa admiração pelo que fez e por lhe ter permitido ser rei... Escreve que nunca permitiu que ninguém o criticasse à sua frente. Existe gratidão. Ele reconhece que foi rei graças a Franco. É assim que é, é a história. Acho que é leal a Franco. O livro não diz que Franco era um santo, nem nada que se pareça. Descreve a relação dele com Franco de uma forma muito honesta. O livro é muito direto e muito honesto. Não é politicamente correto, pode incomodar algumas pessoas. Mas a sua relação com Franco era muito próxima. E sugere que Franco sabia que haveria uma mudança. Que ele não a podia fazer, mas a nova geração podia. A verdade é que Franco era um animal político. Não era estúpido, isso é certo. Fez coisas terríveis, todos podemos concordar com isso. Cometeu crimes, concordamos. Mas devemos reconhecer que se manteve no poder durante 40 anos. Ninguém o depôs. Morreu no poder. Portanto, claro, muita gente pode não gostar, mas esta é a realidade histórica. Durante muitos anos disse-se que os espanhóis não eram monárquicos, eram juancarlistas. E que poderia ser difícil passar o testemunho ao filho...Mas no final de contas foi muito fácil. Mas foi fácil porque Juan Carlos acabou por sair no meio das polémicas e isso acabou por facilitar a vida ao filho, que é hoje muito popular?Penso que, no final de contas, a situação fortaleceu a Coroa espanhola. Porque apesar do descrédito de Juan Carlos, a Coroa manteve-se firme. Ele passou o trono ao filho que estava muito bem preparado e está a fazer um bom trabalho. Portanto, no final de contas, acho que toda esta história, que deve ter sido difícil do ponto de vista pessoal, beneficiou a instituição. Penso que talvez os espanhóis se tenham tornado mais monárquicos do que juancarlistas ou felipistas. Acho que finalmente perceberam a utilidade da Coroa.Juan Carlos sai de Espanha a achar que ficará fora só alguns meses, mas já lá vão mais de cinco anos. Acha que se arrepende de ter partido? Que se soubesse que não ia ser autorizado a voltar não tinha ido?Como vive o presente, não é uma pessoa amargurada que guarda muitos arrependimentos. Ele não é assim... Mas imagino que se questione, não é? É mais fácil ir embora do que voltar. Saiu, fecharam-lhe as portas dos palácios do património nacional, não pode voltar. É uma situação difícil. E será possível ele voltar um dia? Há informações de que está muito doente.Está a ficar idoso, tem 88 anos, mas está a receber ótimos cuidados médicos. Tem aquele problema de mobilidade que sempre teve, quer dizer, já o tem há muitos anos. Mas do ponto de vista do cérebro está perfeito, está muito alerta. E está de boa saúde, no geral. Apesar da idade, está bem.Ainda há tempo para uma reconciliação e um regresso a Espanha? Nem ele nem eu sabemos e acho que tudo depende de Espanha, do governo e do filho. Não faz planos, vive um dia de cada vez.O livro aborda também a ligação a Portugal. O pai dele viveu no exílio no Estoril. Sim, ele gosta muito de Portugal. Mas surpreende que um acontecimento que o próprio admite ter sido significativo, a morte do irmão mais novo num acidente com uma arma de fogo, só mereça duas páginas.Bom, mas é a primeira vez que fala sobre isso.Mas não diz quem disparou a arma. Diz que estavam a brincar, não sabiam que estava uma bala na câmara, a arma disparou e o irmão morreu... Ele deu-me a versão dele dos factos e foi a primeira vez que falou publicamente sobre isso. Acho que é um momento tão doloroso na vida dele que também há um pouco de vergonha, não é? Uma relutância em voltar a mencioná-lo, uma relutância em aprofundar o assunto. É militar, não se abre muito. Quer dizer, é muito simpático e tudo mais, mas qualquer coisa muito pessoal ou sentimental... É militar, é muito íntegro, com um carácter forte.Referiu que ele gosta muito de Portugal. Por vezes surge na imprensa cor-de-rosa que poderia vir viver para cá, para estar mais perto de Espanha. Ele falou-lhe dessa possibilidade?Não, não falámos sobre isso. Não quer chatear o filho, por isso imagino que se se aproximar muito de Espanha, isso possa incomodar um pouco o filho. Mas não sei. Mas adora Portugal. Era muito feliz no Estoril, tem grandes recordações, e Portugal trata-o muito bem quando visita o país. Surpreendeu-a a forma como o livro foi recebido em França e Espanha?A receção foi muito diferente. Foi publicado primeiro em França, os franceses adoraram e receberam muito bem o livro. O livro recebeu ótimas críticas e vendeu muito bem. Em Espanha, a situação foi mais complicada, porque muitos o criticaram, alegando mesmo não o terem lido. A condenação deveu-se mais ao ato de escrever o livro em si, mas, ainda assim, as vendas foram excelentes. Existem seis edições do livro em espanhol..Juan Carlos admite sentir-se abandonado pelo filho e nega relação extraconjugal com princesa Diana.'Reconciliação': Juan Carlos I vai publicar as suas memórias