Jornal holandês denuncia alegados abusos sexuais de ex-bispo de Díli, Ximenes Belo

O jornal explica que as primeiras investigações a este alegado abuso remontam a 2002, quando um timorense denunciou que o seu irmão era vítima. Nunciatura de Díli remete para a Santa Sé.

O jornal holandês De Groene Amsterdammer publicou esta quarta-feira testemunhos de alegadas vítimas de abusos sexuais, quando eram menores, sobre crimes que terão sido cometidos durante vários anos pelo ex-administrador apostólico de Díli e Nobel da Paz Ximenes Belo.

Na sua edição online, o jornal explica ter ouvido várias vítimas e vinte pessoas com conhecimento do caso, incluindo "individualidades, membros do Governo, políticos, funcionários de organizações da sociedade civil e elementos da Igreja".

"Mais de metade das pessoas pessoalmente conhecem uma vítima dos abusos e outros têm conhecimento do caso. O De Groene Amsterdammer falou com outras vítimas que recusaram contar a sua história nos media", refere a jornalista Tjirske Lingsma.

"O Paulo e Roberto", as duas alegadas vítimas entrevistadas para o artigo, "conhecem outras vítimas", refere o jornal, um dos principais semanários do país.

O jornal explica que as primeiras investigações a este alegado abuso remontam a 2002, quando um timorense denunciou que o seu irmão era vítimas de abusos.

Em novembro desse ano, Ximenes Belo anunciou a sua resignação do cargo, alegando, problemas de saúde e a necessidade de um longo período de recuperação.

"Estou a sofrer de fadiga mental e física, o que requer um longo período de recuperação", referiu Ximenes Belo num comunicado em que informava ter escrito à Santa Sé solicitando a renúncia do cargo de Administrador Apostólico de Díli, função que exercia desde 1983.

"Tenho vindo a sofrer de esgotamento, cansaço físico e psicológico, pelo que necessito de um longo período de repouso em vista de uma recuperação total da minha saúde", referia o comunicado, citado então pela Lusa.

Ximenes Belo, hoje com 74 anos, explicou que o seu pedido -- escrito com base no Cânone 401 do código de direito canónico - foi aceite pelo então papa João Paulo II.

A 27 de novembro de 2002 o Vaticano confirmou, através da gazeta "L'Osservatore Romano", que "o Santo Padre aceitou a renúncia do ofício de Administrador Apostólico 'Sede vacante et ad nutum Sanctae Sedis' de Díli (Timor Oriental), apresentada por sua excelência reverendíssima, monsignor Carlos Felipe Ximenes Belo, bispo titular de Lorium, em conformidade com o cânone 401.2 do Código de Direito Canónico".

Em entrevista à agência de notícias católica UCA News, em 2004, explicava que saiu do cargo em Díli para ser sacerdote assistente em Moçambique, estando atualmente a residir em Portugal.

A saída de Ximenes Belo de Timor-Leste causou grande surpresa na sociedade timorense, porque, até então, o bispo nunca havia indicado essa vontade de abandonar o cargo.

O jornal holandês refere que os alegados abusos terão começado ainda antes de Ximenes Belo ser nomeado bispo, quando ainda era superior nos Salesianos de Dom Bosco, em Díli, na década de 1980.

Os timorenses citados no artigo referem alegados abusos cometidos na década de 1990. Hoje com 42 anos, Paulo, como uma das vítimas é identificado, alega que quando ainda era menor foi alvo de abusos sexuais na casa de Ximenes Belo, por troca de dinheiro.

Algumas primeiras denúncias dos alegados abusos foram dadas a conhecer a jornalistas no início do século, como nota o jornalista.

Formalmente, porém, não há detalhes públicos sobre se as denúncias chegaram a ser formalizadas quer junto das autoridades policiais quer junto do Vaticano.

Ainda assim, os contornos da saída de Ximenes Belo de Timor-Leste, em novembro de 2002, nunca foram totalmente clarificados pelo Vaticano, com o assunto a tornar-se tabu no país.

Fontes da Igreja em Timor-Leste, ouvidas pela Lusa, explicaram que "nenhuma vítima" denunciou alegados abusos, de forma presencial tanto na Nunciatura como na Igreja timorense, não havendo informações de qualquer denúncia junto das autoridades civis.

Ainda assim, apontam a realização de uma investigação, cujos contornos não são conhecidos.

Em 2020, em declarações à Lusa, um elemento superior da Igreja Católica em Díli, que solicitou o anonimato, escusou-se a revelar se houve ou não uma demissão formal de Ximenes Belo pelo então papa João Paulo II.

A mesma fonte referiu-se, porém, ao que disse serem "instruções" para "ter um perfil baixo, não viajar, não mostrar insígnias episcopais, ter uma atitude modesta".

Parte do silêncio sobre o Nobel da Paz deve-se, admitiu a mesma fonte, ao facto da postura do Vaticano relativamente a abusos sexuais na Igreja ter mudado com os dois últimos papas, com a adoção de uma política de "tolerância zero".

"Houve esta progressiva consciencialização da Igreja sobre a gravidade do assunto e sobre a atitude, a reação que a Igreja deve ter para expulsar e corrigir ao máximo possível este crime dentro da igreja, especialmente dentro do clero", afirmou a mesma fonte.

"Isso foi particularmente assim, especialmente com o papa Bento XVI e com o Papa Francisco. E a tolerância zero vale em todos os casos, e também em Timor", explicou.

Neste tipo de crimes, disse, independente do que possa ocorrer na legislação criminal dos vários países, para a Igreja "não há prescrição, e mesmo anos depois de investigados recebem a sanção jurídica e penal" da Santa Sé.

Nunciatura de Díli diz que suspeitas estão na Santa Sé

O caso que envolve suspeitas de abusos sexual de menores pelo ex-administrador apostólico de Díli Ximenes Belo está com os órgãos competentes da Santa Sé, disse hoje o representante do Vaticano em Timor-Leste, sem confirmar se o prelado foi ou não investigado.

"Pessoalmente não posso nem confirmar nem desmentir porque é uma questão de seriedade da minha parte, visto a competência ser dos meus superiores na Santa Sé", disse à Lusa Marco Sprizzi, representante máximo do Papa e do Vaticano em Timor-Leste.

"Esta questão deve ser dirigida diretamente à Santa Sé", referiu, questionado sobre a veracidade das denúncias de alegados abusos de menores cometidos ao longo de vários anos por Ximenes Belo, hoje a residir em Portugal, que foram publicadas pelo jornal holandês.

Marco Sprizzi explicou que o caso "está à atenção dos Dicastérios competentes da Santa Sé e da Secretaria de Estado de sua Santidade o Papa Francisco", numa referência a estruturas que integram a Curia Romana.

"Eles estão a examinar este artigo e o seu conduto e de outros que estão a ser publicados neste momento e a partir disto, qualquer resposta virá diretamente da Santa Sé", explicou.

O "assunto está diretamente com o Vaticano e a Santa Sé. A Igreja local e a Nunciatura não têm mais competência direta", enfatizou.

Em declarações à Lusa, Marco Sprizzi disse que o jornal holandês foi "correto" e colocou várias perguntas à Nunciatura em Díli que foram "transmitidas aos competentes Dicastérios da Santa Sé".

Sprizzi recusou-se a confirmar se foram impostas algumas restrições a Ximenes Belo, nomeadamente impedimento de visitas a Timor-Leste, confirmando só que "não foi laicizado" [retirado das funções eclesiásticas].

Questionado sobre o que ocorreu aquando da saída de Ximenes Belo em novembro de 2002 - numa decisão que na altura causou bastante surpresa -- Sprizzi recordou que a "renúncia voluntária de Ximenes Belo se baseou numa razão de saúde".

Nesse sentido, explicou, a resposta oficial "não pode mudar, tendo sido dada com base no direito canónico".

"Mas se alguma coisa deve ser acrescentada, será acrescentada pelos órgãos competentes", rizou.

Notícia atualizada às 13:37

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