Magufuli, o presidente que nunca acreditou na covid-19. Líder da oposição garante que morreu da doença

O presidente da Tanzânia morreu esta quarta-feira. Tinha 61 anos. Há 18 dias que havia rumores da sua morte. Líder da oposição afirma que o chefe de Estado morreu de covid-19 e considera o óbito uma "justiça poética" pelo facto de ter desvalorizado a pandemia.

O Presidente tanzaniano John Magufuli, conhecido como bulldozzer e que morreu esta quarta-feira aos 61 anos, era um ferrenho negacionista da covid-19, desencorajava o uso de máscaras e alegava que o país estava protegido da doença por intervenção divina. A vice-presidente do país, Samia Suluhu Hassan informou que Magufuli morreu de doença cardíaca, mas o líder da oposição garante que foi devido à clovid-19.​​​​

Após 18 dias sem que o presidente aparecesse em público, o que desencadeou inúmeros rumores sobre a sua saúde, o vice-presidente da Tanzânia, Samia Suluhu, confirmou a sua morte devido a problemas cardíacos.

"É com grande pesar que vos informo que hoje, 17 de março de 2021, às 18:00 horas (15:00 em Lisboa), perdemos o nosso corajoso líder, o Presidente John Pombe Magufuli da Tanzânia", disse Samia Suluhu Hassan.

Hassan disse que o chefe de Estado morreu no Hospital Emilio Mzena, uma estrutura governamental em Dar es Salaam, onde estava a ser tratado, adiantando que sofreu de problemas cardíacos durante 10 anos.

No entanto, o líder da oposição garante que John Magufuli morreu devido à covid-19, tendo considerado o óbito como uma "justiça poética", pelo facto de o chefe de Estado ter desvalorizado a pandemia.

"O presidente Magufuli desafiou o mundo na luta contra o corona (...) Desafiou a ciência. Negou-se a adotar as precauções básicas que são recomendadas às pessoas de todo o mudo contra o coronavírus", afirmou Tindu Lissu, candidato à presidência nas eleições de outubro e atualmente no exílio na Bélgica.

Lissu já tinha afirmado que o presidente estava em um hospital de Nairóbi, a capital do Quênia, em estado grave devido à infeção pelo SARS-CoV-2.

"Magufuli morreu de corona", como o vírus é chamado no leste da África, disse Lissu em entrevista ao canal de televisão queniano KTN, gravada na quarta-feira e exibida esta quinta-feira.

"Magufuli não morreu esta noite. Tenho informações, basicamente das mesmas fontes que me disseram que estava gravemente doente, que Magufuli está morto desde quarta-feira da semana passada", afirmou ainda o líder da oposição.

O seu último ano como chefe de Estado foi marcado por uma estratégia de combate ao coronavírus - baseada na fé e na oração - que provocou críticas dentro e fora das fronteiras da Tanzânia.

Além disso, o seu negacionismo deu origem a comparações com o homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, ou com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dois líderes mundiais que rejeitaram a existência da covid-19 e acabaram por contrair a doença.

Em março de 2020, pouco depois da deteção do primeiro caso de covid-19 no país, o presidente tanzaniano afirmou que o coronavírus era "o diabo" e que, portanto, se a população tivesse fé, seria impossível ao vírus "sobreviver no corpo de Cristo".

Rejeitava as vacinas e censurava qualquer medida "criada pelo ocidente", tendo chegando a alegar que testes defeituosos de deteção do novo coronavírus tinham dado resultados positivos numa papaia e numa cabra.

Desde junho, que a Tanzânia não publica quaisquer números relativos a casos da doença, com os dados oficiais estagnados em 509 infeções e 21 mortes.

Nacionalista, contra a comunidade LGBTI, proibiu raparigas grávidas de ir à escola e decretou dezenas de prisões por blasfémia

Nascido em 1959 em Chato, no noroeste da Tanzânia, Magufuli estudou matemática e doutorou-se em química na Universidade de Dar es Salaam, o centro regional do pensamento anticolonialista e pan-africanista onde estudaram várias figuras políticas que governam ou governaram nos últimos anos na África Oriental, como o ugandês Yoweri Museveni ou o congolês Laurent-Désiré Kabila.

Eleito, pela primeira vez, quinto presidente da Tanzânia em 2015 à frente da formação que governa o país desde a sua independência em 1961, o Partido da Revolução, Magufuli foi reeleito para um segundo mandato a 28 de outubro, em eleições descritas pela oposição como "fraudulentas" e nas quais quase não houve observadores.

Chegou à presidência como nacionalista e evocando a herança do "pai da nação tanzaniana", Julius Nyerere, o socialista que continua a ser a grande referência política do país mesmo vinte anos após a sua morte.

Os seus grandes planos de desenvolvimento, ao começar como ministro das Obras Públicas com explorações de gás ou a expansão do porto de Dar es Salaam, valeram-lhe a alcunha de bulldozer, enquanto as reformas que promoveu levaram os seus apoiantes a considerá-lo um "Nyerere" contemporâneo.

A sua popularidade aumentou após ter transformado o Dia da Independência num dia de limpeza coletiva, de ter proibido membros do seu governo de viajarem para o estrangeiro sem a sua autorização, uma proposta poupou ao Estado milhões de dólares, e de ter expulsado dezenas de pessoas acusadas de corrupção.

O seu legado durante o primeiro mandato inclui a assinatura com o Uganda do primeiro projeto regional de gasoduto e da mega-barragem de Stiegler no Parque Selous (sul da Tanzânia), o que lhe valeu críticas de ativistas ambientais por ter alterado uma enorme reserva natural declarada Património Mundial pela Unesco.

Ao longo do mandato, as suas posições foram endurecendo, e na última campanha eleitoral, proibiu qualquer comício político da oposição.

Nas últimas semanas de ausência, quando muitas vozes já duvidavam da sua saúde, a polícia tanzaniana seguiu os seus passos prendendo todos aqueles que espalham alegadas "falsas notícias".

Desde a sua chegada ao poder em 2015, dezenas de pessoas foram presas por sedição ou blasfémia e a principal figura da oposição agora no exílio, o advogado Tundu Lissu, foi preso pelo menos seis vezes.

Magufuli, um católico fervoroso, lançou-se igualmente numa cruzada contra a comunidade LGTBI, proibiu raparigas grávidas e adolescentes de frequentarem a escola, fez campanha contra o uso de contracetivos e minou a liberdade de imprensa e de expressão no país, segundo várias organizações de defesa dos direitos humanos.

Atualizado às 11:09 de quinta-feira, 18 de março

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