Joe Biden - o líder necessário

"America is back", prometeu Joe Biden quando foi eleito presidente dos Estados Unidos a 20 de janeiro de 2020. A ideia de uma América de volta à cooperação internacional e ao multilateralismo gerou entusiasmo e expectativa nos europeus. Mas o processo de saída do Afeganistão ou o acordo AUKUS vieram temperar o entusiasmo e tornar mais realistas as expectativas.

A 20 de janeiro de 2021, Joe Biden, que então iniciava o mandato como 46.º presidente dos Estados Unidos, simbolizava a esperança europeia do regresso do país à diplomacia e ao multilateralismo. "America is back", prometeu. E poucos dias depois, os EUA estavam de volta ao Acordo de Paris e à Organização Mundial de Saúde. Nos meses seguintes, o presidente escolheu a Europa como a sua primeira viagem oficial, assumiu o compromisso com o combate às alterações climáticas, com a cooperação no comércio internacional e, de modo particular, com a NATO, não obstante os desafios que a organização enfrenta.

Este mês, Joe Biden concretizou a promessa de unir países de todo o mundo em torno da defesa dos valores democráticos na Cimeira para a Democracia, reforçando a prioridade assumida por esta administração de defender a democracia à escala global.

Temos assistido a um crescimento do populismo, dos nacionalismos e das tensões sociais. A pandemia foi oportunidade e pretexto para o endurecimento de regimes autocráticos e movimentos antidemocráticos por todo o mundo.

A reversão desta recessão democrática vai exigir mais de Joe Biden, dos Estados Unidos e dos restantes líderes democráticos.

Esse trabalho começa em casa, garantindo a credibilidade da democracia, e da sua inigualável capacidade de atração. O Presidente assumiu uma agenda legislativa forte, que inclui um ambicioso investimento em infraestruturas e um programa de despesa social e climática. Mas a promessa de moderação política confronta-se com a exigente tarefa de governar para todos os americanos e construir pontes, num contexto de crescente polarização.

No plano externo, os EUA mantêm uma posição de liderança militar, económica e tecnológica. Mas a ascensão da China e a crescente tensão com a Rússia, que tem aumentado significativamente as tropas junto da fronteira com a Ucrânia, ameaça a ordem internacional que conhecemos desde o fim da Guerra Fria. Daí resultará uma revisão dos papéis dos EUA e da China no xadrez geoestratégico. E se por um lado esta relação será cada vez mais tensa, ela exige também diálogo e abertura à cooperação de parte a parte para lidar com ameaças globais, como a pandemia e as alterações climáticas.

A resposta a estes desafios passa por uma maior convergência das democracias liberais, em especial da UE e dos EUA. A criação do Trade and Technology Council ou o acordo sobre o aço e alumínio são bons sinais. Mas é evidente que a política externa de Biden segue a mesma linha das anteriores administrações quanto à centralidade da China. É também claro que Biden posiciona a sua política externa como um meio para a prosperidade interna do país e, em especial, da classe média.

É, pois, necessário que a Europa se adapte a este novo contexto, defendendo os seus interesses e valores. A autonomia estratégica da UE é um conceito com interpretações e leituras diferentes para muitos, mas pode e deve significar "a capacidade para agir autonomamente quando e onde for necessário e com parceiros quando possível", tal como definido pelo Conselho da UE. Traduz-se também numa crescente consciência de que precisamos de criar mais Europa nas áreas estratégicas, na segurança e defesa, no comércio, no digital e também na saúde e cadeias de abastecimento, como a pandemia demonstrou.

Mas esta autonomia estratégica da UE nunca deve colocar em causa a parceria transatlântica ou o papel da NATO. Pelo contrário, a chave deve ser cooperação, complementaridade e não duplicação.

2022 será um ano de clarificação. Os EUA publicaram em março de 2021 a orientação estratégica interina de segurança nacional e em breve publicarão a sua Estratégia de Segurança Nacional. Do lado europeu, aguarda-se a Bússola Estratégica. E a NATO concluirá a revisão do seu conceito estratégico, num exigente contexto de ameaças à segurança no mundo.

A ideia de "America is back" - à cooperação internacional e ao multilateralismo - gerou entusiasmo e expectativa nos europeus. Mas o processo de saída do Afeganistão ou o acordo AUKUS vieram temperar o entusiasmo e tornar mais realistas as expectativas.

Em democracia não há líderes perfeitos. Mas Joe Biden é o líder necessário, que foi capaz de vencer no partido e no país, e de afirmar as virtudes da moderação. Sobre si tem agora a responsabilidade de garantir que os EUA continuam a ser capazes de mostrar que a liberdade é um valor a defender e que as democracias têm lugar no mundo de amanhã.

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