Israelitas e palestinianos trocam acusações após morte de jornalista

Shireen Abu Akleh, da Al-Jazeera, fazia a cobertura de uma operação do Exército israelita em Jenin quando foi atingida a tiro.

A jornalista Shireen Abu Akleh, que tinha dupla nacionalidade palestiniana e norte-americana e trabalhava há 25 anos para a Al-Jazeera, morreu ontem quando fazia a cobertura de uma operação do Exército israelita no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia. A estação de televisão do Qatar acusou Israel de matar "a sangue frio" a correspondente, que foi atingida a tiro no rosto apesar de usar um colete a identificá-la como membro da imprensa, mas o primeiro-ministro israelita, Naftali Bennett, disse que o disparo veio "provavelmente" do lado palestiniano.

A morte de Abu Akleh veio incendiar mais os ânimos, numa altura de tensão entre israelitas e palestinianos um ano depois da guerra de 11 dias em Gaza - durante a qual a torre onde ficavam os escritórios da Al-Jazeera e da agência de notícias AP foi destruída num bombardeamento. Desde 22 de março que Israel tem sido alvo de vários ataques, que causaram a morte de pelo menos 19 pessoas, sendo três dos atacantes de Jenin. O Exército israelita intensificou por isso as ações nesta área e nas operações de resposta já terá morto 31 palestinianos, incluindo os atacantes.

Era uma dessas ações que a jornalista estava a cobrir. "As forças de ocupação invadem Jenin e cercam uma casa no Bairro de Jabriyat. No caminho para lá, trarei notícias assim que a imagem ficar clara", foi a última mensagem por e-mail que Abu Akleh, de 51 anos, enviou para a redação, 20 minutos antes de ser morta. A jornalista seguia com um grupo de outros quatro jornalistas, todos com capacete e coletes de imprensa azuis. O canal alega que foi morta a "sangue frio" por Israel, com a Autoridade Palestiniana a dizer que os israelitas são "responsáveis" pela morte e a Liga Árabe a falar de um "assassinato".

O primeiro-ministro israelita indicou, contudo, num comunicado, que "segundo as informações que reunimos, parece provável que palestinianos armados - que estavam a disparar indiscriminadamente na altura - foram responsáveis pela infeliz morte da jornalista". Os israelitas alegam ter provas de "fogo indiscriminado" de "terroristas palestinianos", dizendo que provavelmente terão sido eles a atingir a jornalista. Mas outro jornalista da Al-Jazeera, o produtor Ali al-Samudi, que ficou ferido no mesmo incidente, disse que os palestinianos não estavam na área, porque se estivessem os jornalistas não teriam entrado. Também o fotógrafo da AFP alegou que os israelitas estavam a disparar e que não havia atiradores palestinianos visíveis, só tendo, contudo, visto Abu Akleh quando ela já estava no solo.

EUA e UE pedem investigação

A comunidade internacional, desde a União Europeia aos EUA, passando pelos Repórteres Sem Fronteiras, apela a uma investigação independente e transparente. O governo de Bennett acusou os palestinianos de travarem a investigação, nomeadamente uma autópsia conjunta, alegando que eles não têm interesse em descobrir a verdade - a Autoridade Palestiniana alega que não houve qualquer contacto. "Para descobrir a verdade, tem de haver uma verdadeira investigação, e os palestinianos estão atualmente a impedir isso. Sem uma investigação séria, não vamos chegar à verdade", disse Bennett.

Este incidente ocorreu no dia em que o partido árabe Ra"am anunciou que iria regressar à coligação de governo israelita, quase um mês depois de ter suspendido a participação devido à violência na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém. "Decidimos voltar e dar uma oportunidade para o acordo de coligação ser implementado", disse o líder Mansour Abbas. A decisão trava uma tentativa de a oposição do Likud tentar passar uma moção de censura no Knessett, onde Bennett perdeu recentemente a curta maioria que detinha.

susana.f.salvador@dn.pt

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