ISIS-K: o grupo inimigo dos talibãs que está por detrás do ataque ao aeroporto de Cabul

Pelo menos 85 civis afegãos e 13 militares norte-americanos morreram no duplo atentado suicida. Estado Islâmico-Província de Khorason considera que os "estudantes de religião" não são suficientemente devotos.

A informação de que o aeroporto de Cabul podia ser alvo de um atentado circulava há dias, tendo o próprio presidente dos EUA, Joe Biden, feito o alerta na terça-feira. Desde quarta-feira que vários países ocidentais tinham dado indicações aos seus cidadãos para não se aproximarem do local onde milhares de pessoas aguardavam uma oportunidade para fugir do Afeganistão. As ameaças tornaram-se ontem reais com duas explosões numa das entradas do aeroporto que mataram pelo menos 85 civis afegãos e deixaram outros 140 feridos. Segundo a AFP, sobe para 13 o número de militares norte-americanos que perderam a vida neste ataque.

Os atentados foram condenados pelos talibãs, cujo regresso ao poder duas décadas após a intervenção militar norte-americana desencadeou o caos no aeroporto. O Pentágono confirmou que bombistas suicidas do Estado Islâmico-Província de Khorasan (conhecido pela sigla em inglês ISKP ou simplesmente ISIS-K), que são inimigos dos talibãs, estiveram por detrás dos ataques. Depois das explosões, houve ainda um tiroteio.

A reivindicação oficial chegou no próprio dia, com o grupo a congratular-se de o suicida ter conseguido chegar a cinco metros das forças norte-americanas. "Cada dia que estamos no terreno é outro dia que sabemos que o ISIS-K está a tentar atingir o aeroporto e atacar tanto as forças dos EUA e aliadas como civis inocentes", tinha dito Biden na terça-feira, reiterando que a retirada militar seria até 31 de agosto. Uma data que continua na mesa.

A morte de 12 militares norte-americanos - serão as primeiras baixas desde fevereiro de 2020, quando os talibãs assinaram em Doha o acordo para a retirada - ensombrará uma operação marcada pelo caos e elevará as críticas contra Biden. O Pentágono avisou ainda que são esperados novos atentados, com os EUA a dizerem-se preparados para empreender ações contra os responsáveis pelos ataques de ontem.

Quem é o ISIS-K?

O ISIS-K foi formado por antigos membros do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP, os talibãs paquistaneses), que declararam lealdade ao então líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi. Surgiram em 2015, numa altura de expansão do grupo para lá do califado declarado no Iraque e na Síria. A região de Khorasan (que em persa significa "de onde nasce o Sol") englobava as províncias no leste da Pérsia, incluindo partes do Afeganistão, Paquistão, Irão, Turquemenistão, Tajiquistão e Usbequistão.

O grupo terrorista é responsável por alguns dos piores atentados dos últimos anos no Afeganistão, incluindo o de maio de 2020 contra uma maternidade em Cabul que matou 24 pessoas, incluindo recém-nascidos. A sua base de operações é nas províncias de Kunar e Nangarhar, mantendo várias "células adormecidas" noutros locais do Afeganistão. Um relatório recente das Nações Unidas indicava que pudesse ter entre 500 e 1200 combatentes, com outras estimativas a chegar aos 2200, mas o número pode ter subido com a retirada das tropas estrangeiras do país.

O líder do ISIS-K é, há menos de um ano, o iraquiano Shahab al Muhajir, tendo os seus antecessores sido mortos ou capturados pelas forças norte-americanas e afegãs. O fundador do grupo, Hafiz Saeed Khan, foi morto pelos EUA em 2016 e há relatos, não confirmados, de que os talibãs executaram, dias após terem chegado ao poder, um dos anteriores líderes, que estava numa prisão de Cabul.

Apesar de também serem sunitas radicais como os talibãs, os membros do ISIS-K consideram que os "estudantes de religião" não são suficientemente devotos - chegaram a ser descritos como apóstatas. Além das divergências teológicas entre ambos, dividiu-os também a luta pelo controlo de território. Num editorial recente numa das publicações do Estado Islâmico, alegou-se ainda que a reconquista do poder no Afeganistão por parte dos talibãs era uma conspiração norte-americana.

O ISIS-K criticou o acordo de retirada das tropas dos EUA e dos aliados, acusando os talibãs de terem renegado a causa jihadista. E não os felicitaram quando estes entraram em Cabul, ao contrário de outros grupos terroristas.

susana.f.salvador@dn.pt

(Notícia atualizada às 07:50 com o número de vítima dos ataques no aeroporto de Cabul)

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