Isabel II. Sete décadas no trono da Rainha para a eternidade

A morte prematura do pai a 6 de fevereiro de 1952, lançou Isabel II para o trono aos 25 anos. Agora celebra o Jubileu de Platina: um longo reinado em que se tornou "um exemplo" e garante da "estabilidade" nos tempos mais conturbados. Prestes a celebrar 96 anos, falar da sua sucessão é quase inevitável. E com Carlos condenado a ser um rei de transição, deverá caber a William o papel de monarca do século XXI.

A 21 de abril de 1947, a então princesa Isabel estava com o pais, Jorge VI e Isabel Bowes-Lyon, na África do Sul. E num discurso na rádio para celebrar a chegada à maioridade (que na altura só chegava três anos depois do que acontece hoje) garantia: "Declaro diante de vós que toda a minha vida, seja longa ou breve, será dedicada a servir-vos". A jovem princesa estava longe de imaginar que apenas cinco anos depois, também durante uma visita a África, mas desta vez ao Quénia, a morte prematura do pai faria dela rainha aos 25 anos. Estávamos a 6 de fevereiro de 1952. Por isso os 70 anos da ascensão ao trono de Isabel II assinalam-se agora com as celebrações do Jubileu de Platina. O mais longo reinado de um monarca britânico a acompanhar uma vida que afinal se revelou longa e sempre dedicada ao país e à coroa.

Nascido em 1957, Mark Crathorne, como quase um em cada nove britânicos, não se lembra do mundo sem Isabel II como Rainha. Para o vice-presidente da The British Historical Society of Portugal a monarca é sinónimo de "estabilidade". "Nós não temos a turbulência dos norte-americanos que de quatro em quatro anos têm de reeleger o chefe do Estado", explica ao DN. A viver em Portugal há mais de três décadas, Crathorne vê a Rainha como um "exemplo, uma pessoa que é muito discreta, muito linear, não expressa as suas opiniões em público. Ela não deve pronunciar-se sobre assuntos políticos ou mesmo sobre assuntos da sua própria família". E Isabel II tem feito isso de forma exemplar: "É como um navio que vai sempre na mesma direção, sem desvios e sem turbulência".

"A monarquia é uma instituição que está no coração do Reino Unido e é uma parte essencial de quem somos como nação. É importante, não só para como nos vemos a nós próprios, mas também para como os outros nos veem".

- Chris Sainty, embaixador do Reino Unido em Portugal

É também essa estabilidade que o embaixador do Reino Unido em Portugal, Chris Sainty, destaca: "A monarquia é uma instituição que está no coração do Reino Unido e é uma parte essencial de quem somos como nação. É importante, não só para como nos vemos a nós próprios, mas também para como os outros nos veem". Ao DN, o diplomata acrescenta ainda: "Sim, acredito que a Rainha nos deu enorme força e estabilidade durante setenta anos de imensas mudanças políticas e socioeconómicas."

E é de facto um mundo muito diferente aquele em que Isabel II hoje celebra o Jubileu de Platina daquele em que subiu ao trono. Basta pensar que em 1952, Estaline ainda governava a União Soviética, Mao Tse-tung liderava a China que se tornara comunista apenas três anos antes, Harry Truman estava prestes a deixar a presidência nos Estados Unidos e, em Portugal, Salazar ainda estava a 16 anos de cair da cadeira.

Rainha por acaso

Mas a verdade é que Isabel II chegou ao trono por acaso. Quando nasceu, a 21 de abril de 1926 em Londres, era a terceira na linha de sucessão, depois do tio e do pai. Nada indicava, portanto, que um dia pudesse vir a reinar. Depois de uma infância tranquila, tudo mudou em 1936 quando o avô, o rei Jorge VI, morreu e o filho mais velho subiu ao trono como Eduardo VIII. Mas o ano ainda não chegara ao fim quando este abdicou para se casar com a divorciada americana Wallis Simpson. Foi assim que, num dia de maio de 1937, Isabel, de 10 anos, e a irmã Margarida, de seis, assistiram à coroação dos pais na Abadia de Westminster.

Para a pequena Isabel acabou-se a tranquilidade. Como herdeira do trono teve aula de História Constitucional e de Direito. Com as governantas francesas aprendeu a língua que ainda hoje domina, ao contrário do alemão, que não fala apesar de ser falada por parte de uma família real que em 1917 trocou o demasiado germânico Saxe-Coburgo Gotha pelo apelido Windsor. Nadadora premiada e música exímia, Isabel tinha 13 anos quando começou a II Guerra Mundial. No ano seguinte, os pais, preocupados com a segurança das filhas, enviaram-nas para o Castelo de Windsor, enquanto eles insistiam em ficar em Londres, dando apoio às populações vítimas dos bombardeamentos da Alemanha nazi. Questionada sobre porque não mandava princesas para a segurança do estrangeiro, é famosa a resposta da rainha: "As crianças não vão sem mim. Eu não vou sem o Rei. E o Rei, nunca irá".

Mal fez 18 anos a princesa Isabel alistou-se no Auxiliary Territorial Service, o ramo feminino do exército britânico. Aí aprendeu a mudar pneus, consertar motores e conduzir ambulâncias. E foi de uniforme que apareceu, ao lado dos pais e do primeiro-ministro Winston Churchill, na varanda do Palácio de Buckingham para celebrar o fim da guerra. Naquele dia 8 de maio de 1945, Isabel e a irmã conseguiram autorização do rei para se juntarem à festa do povo - mesmo vigiadas de longe por alguns guardas do palácio.

Casada com Filipe desde 1947, foi ao lado do marido que soube da morte do pai em Sandringham. "Subiu à árvore princesa e desceu rainha", conta o embaixador José de Bouza Serrano, numa referência ao hotel da selva queniana onde Isabel estava alojada. Para o embaixador, autor do livro As Famílias Reais dos Nossos Dias (Esfera dos Livros), Isabel II é "uma rainha para a eternidade. Ela é uma referência e uma figura tutelar". O antigo chefe do protocolo recorda como a imagem da monarca está presente em tudo no Reino Unido: "Nos correios, nos selos, nas notas - é alguém que também está muito próxima em coisas pequenas mas que marcam muito".

"Lembro-me desde pequenino. Às 15h00 em ponto ligávamos a televisão e víamos a Rainha. Tínhamos o hábito de ir a casa dos meus avós e o meu avô era ex-militar. No fim do discurso tocam sempre o hino nacional, ele levantava-se, ficava muito direito até ao fim do hino."

- Mark Crathorne, vice-presidente da The British Historical Society of Portugal

E na vida de Mark Crathorne, Isabel II entrou muito cedo - através do discurso de Natal. "Lembro-me desde pequenino. Às 15h00 em ponto ligávamos a televisão e víamos a Rainha. Tínhamos o hábito de ir a casa dos meus avós e o meu avô era ex-militar. No fim do discurso tocam sempre o hino nacional, ele levantava-se, ficava muito direito até ao fim do hino". Leitor no ISEG e casado com uma portuguesa, Mark recorda, claro, os casamentos reais, mas em termos mais pessoais a Rainha também esteve de certa forma presente quando durante uns meses frequentou a Academia Militar de Sandhurst, como voluntário e a farda, no chapéu, tinha o emblema ER - Elizabeth Regina. "E vi-a uma vez quando estive em Londres. Já era casado e estávamos a passear na cidade quando de repente a polícia fechou a rua e passou a Rainha-Mãe com o príncipe Carlos, porque eram a celebrações do centenário da mãe de Isabel II", conta. E para ele são este momento que tornam a família real "mais palpável, mais... real"

Também para o embaixador Chris Sainty as primeiras memórias de Isabel II remontam à infância. "Eu tive consciência da Rainha e da Família Real desde muito novo. Numa época em que não havia internet e a comunicação social era muito menos intrusiva, havia também mais mistério: o príncipe Eduardo é três anos mais velho do que eu e lembro-me, quando era criança, de me perguntar se a vida dele seria parecida com a minha. Em casa, ouvíamos a transmissão do dia de Natal da Rainha e sempre foi muito claro para mim que a Rainha se importava comigo e com a minha família."

O diplomata, em Portugal desde setembro de 2018, conta já ter tido a sorte de encontrar Isabel II em algumas ocasiões e garante: "São momentos que jamais esquecerei." Mas, para ele, "a memória mais especial é da minha filha de seis anos oferecer flores à Rainha quando Sua Majestade visitou a Holanda em 2007."

Sempre evitando comentar questões políticas - mesmo se é ela que todos os anos lê o programa do governo escrito pelo primeiro-ministro (e já conheceu 14 chefes do governo) no Discurso do Trono -, Isabel II soube tornar-se esta figura de referência para os britânicos. De jovem mãe de quatro filhos a avó de oito netos e bisavó de 12, a monarca criou uma família sempre ao lado de Filipe Mountbatten, filho de um príncipe grego e ele também descendente da rainha Vitória. O príncipe consorte manteve-se ao longo das décadas como um verdadeiro pilar para Isabel II, até à sua morte aos 99 anos, em abril do ano passado.

Juntos fizeram muitas das 265 visitas oficiais (a 116 países, entre eles Portugal, onde a Rainha esteve pela primeira vez em 1957) que Isabel II realizou no seu longo reinado. E nem precisou de passaporte, afinal todos os passaportes britânicos são emitidos em nome de Sua Majestade, logo, a própria não precisa do documento de identificação quando se desloca ao estrangeiro. Apesar de o Reino Unido já ter perdido a Índia, joia da coroa do império, quando subiu ao trono, e de hoje pouco mais restarem do que migalhas desse domínio colonial britânico, Isabel II é ainda rainha de 15 dos 53 países da Commonwealth, como, por exemplo, os gigantes Canadá ou Austrália.

"Eu tinha seis anos. No Rossio. Fui com a minha primeira precetora, a prima Etelvina, e acenei muito ao coche. Depois até fiz um desenho. A Rainha vinha com Craveiro Lopes, que era o presidente, e toda a gente a aclamava.

- José de Bouza Serrano, embaixador e autor do livro As Famílias Reais dos Nossos Dias

José de Bouza Serrano assistiu à chegada de Isabel II a Lisboa naquele ano de 1957. "Eu tinha seis anos. No Rossio. Fui com a minha primeira precetora, a prima Etelvina, e acenei muito ao coche. Depois até fiz um desenho. A Rainha vinha com Craveiro Lopes, que era o presidente, e toda a gente a aclamava. Foi um sucesso aquela visita", conta. Lembrando que era um momento difícil para Isabel II que não via o marido há quatro meses e que aqui se lhe juntou numa visita de quatro dias a Portugal.

1992 - o annus horribilis

Ao longo destas sete décadas, foram muitos os acontecimentos que Isabel II testemunhou enquanto rainha. Mas quando olhamos para o longo reinado da 40.ª monarca de Inglaterra, é impossível não falar do ano 1992. No annus horribilis, como a própria Isabel II o definiu, a monarca teve de lidar com o fim dos casamentos de três dos quatro filhos - Ana, André e Carlos. E com os detalhes escandalosos que os tabloides britânicos não se cansaram de publicar sobre o assunto. E até o seu amado Castelo de Windsor foi parcialmente destruído por um incêndio, gerando-se depois uma controvérsia sobre o recurso a fundos públicos para as obras de recuperação.

A morte da princesa Diana, a 31 de agosto de 1997 num acidente de automóvel em Paris quando era perseguida por paparazzi, foi talvez o culminar deste período negro do reinado de Isabel II. Perante uma nação em choque com a morte da Princesa do Povo, como era conhecida a ex-mulher do príncipe Carlos, a rainha teve de regressar da Escócia, onde estava de férias, para se dirigir aos súbditos.

William, um rei para o século XXI

Depois do ponto baixo nos anos 1990, a verdade é que a monarquia é hoje extremamente popular entre os britânicos, com a última sondagem YouGov a mostrar de dois terços a apoiam - mesmo se essa percentagem baixa um pouco nas gerações mais jovens. E no ranking dos royals mais populares, a Rainha lidera destacada - com 76% de taxa de aprovação -, logo seguida do neto William (com 66%) e da mulher deste, Kate (65%).

Com o 96.º aniversário da rainha a aproximar-se - nasceu em abril mas as celebrações são sempre em junho, para aproveitar o bom tempo - é inevitável pensar na sucessão. Abdicar para Isabel II esteve sempre fora de questão - afinal assumiu um compromisso para toda a vida. A coroação, essa, só aconteceu em junho de 1953, mais de um ano depois de Isabel ter subido ao trono e a pompa e circunstância da cerimónia refletiu bem os 14 meses de preparação. Transmitida em direto pela BBC, foi também o primeiro acontecimento a ter direito a transmissão internacional - para chegar aos súbditos de todo o mundo, do Canadá à Austrália. E numa altura em que ainda poucos tinham televisão em casa, a coroação teve uma impressionante audiência de 277 milhões de pessoas.

Lembrando que Carlos esperou toda a vida para ser rei - em 2011 tornou-se no herdeiro do trono há mais tempo à espera da sua hora de reinar e no ano seguinte o próprio príncipe de Gales admitia: "Estou a ficar sem tempo" - e por isso não deverá passar o trono logo ao filho, José de Bouza Serrano recorda contudo que o herdeiro do trono já tem hoje 73 anos e que portanto será sempre "um rei efémero". Sendo assim, o embaixador acredita que "o rei do século XXI será William". Com Kate ao lado: "Catarina até é nome de rainha", lembra. E destaca o papel dos Middleton na educação da filha. "Sendo da pequena burguesia e da classe operária, os pais puseram-na no melhor colégio possível. E foi aí que ela encontrou o seu príncipe". Uma relação que parece ter toda a bênção da Rainha. E uma família - William, Kate e os filhos George, Charlotte e Louis - que está a trazer a monarquia para a modernidade. Até na forma como estão a educar os filhos. "William e Kate não têm muita gente à volta deles. Claro que têm três filhos e precisam de nannies. Mas adoram estar na cozinha, como qualquer pessoa de 30 e tal, 40 anos".

Mark Crathorne não tem dúvida que "há mais benefícios do que contra-benefícios" em o Reino Unido ter uma família real. O vice-presidente da The British Historical Society of Portugal sublinha não só a estabilidade que a monarquia traz mas também as vantagens para o turismo, além de toda a "pompa e circunstância" que lhe estão associadas e que "faz parte" da essência do seu país - "os ingleses têm certa nostalgia e orgulho nisso".

Quanto ao futuro, Crathorne também destaca o "bom papel" que o príncipe William, de 39 anos, está a fazer, talvez seguindo "os conselhos da avó". E não deixa de elogiar Kate - "discreta e charmosa, dedicada à família e às obras de caridade". Por isso acredita que "o futuro está mais ou menos assegurado" Afinal estamos a falar de uma instituição que existe desde 1066, apenas com uma interrupção de apenas 11 anos.

Sem personalizar tanto, o embaixador Chris Sainty também afirma: "A Rainha tem sido um exemplo inspirador para os Seus sucessores e para todos nós ao longo da Sua vida de serviço e dever para com nosso país. Ninguém pode antever o futuro; mas as pessoas britânicas apreciam a Rainha e uma grande maioria continua a apoiar a monarquia. Sinto-me muito confiante no futuro desta instituição extraordinária e única."

Festas, pudins e árvores

Para já o tempo é de festa. Buckingham Palace já divulgou o calendário das celebrações do Jubileu de Platina, que inclui festas nas ruas, um mega-concerto, um feriado de quatro dias e até um pudim real. Em Portugal, a embaixada do Reino Unido vai juntar-se às festividades com a plantação de uma árvore. "Nos últimos 70 anos, Sua Majestade a Rainha plantou mais de 1.500 árvores e falou juntamente com David Attenborough sobre a importância das árvores para o futuro do nosso planeta. Neste ano do Seu Jubileu de Platina, como parte de uma iniciativa denominada The Queen"s Green Canopy, pessoas de todo o Reino Unido são convidadas a plantar árvores e a sustentar e proteger as nossas florestas tão antigas. Ao lançar a campanha, o príncipe Carlos disse: "Plantar uma árvore é uma declaração de esperança e fé no futuro". Para mim, esta é uma forma de mostrar respeito não apenas por Sua Majestade, mas também pelo mundo natural do qual dependemos", explica o embaixador Chris Sainty.

Com a idade e alguns problemas de saúde a mantê-la mais afastada dos eventos públicos nos últimos meses, espera-se que a Rainha partilhe com a restante família real a pesada agenda das celebrações do Jubileu.

Numa mensagem em novembro por ocasião da COP26, a conferência sobre o clima que decorreu na Escócia, Isabel II fez uma rara referência à morte. "Claro que os benefícios dos nossos atos [pelo clima] já não serão apreciados por muitos de nós que estamos aqui hoje: nenhum de nós viverá para sempre. Mas não estamos a fazer isto por nós, mas pelos nossos filhos e pelos filhos dos nossos filhos, e todos os que virão depois deles".

Figura capaz de inspirar filmes como A Rainha, com Helen Mirren a interpretar a monarca, ou séries como The Crown (Netflix), para Mark Crathorne uma coisa é certa: Isabel II "é um símbolo. Ela uniu o país. Quando temos tempos mais difíceis, as pessoas olham para a Rainha". "God Save The Queen", já diz o hino britânico que tanto se irá fazer ouvir nos próximos meses.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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