Irão. Um ano de Raisi, um ano de mais repressão e crise

O presidente ultraconservador apertou a malha em resposta ao agravamento da crise económica. Acordo nuclear continua prioritário.

Ebrahim Raisi cumpre um ano no poder enquanto presidente iraniano (a segunda figura da teocracia, depois do guia supremo) e o balanço é de intensificação da repressão, verificável pelo número crescente de executados à morte, ou pelo regresso em força às ruas das patrulhas que reprimem as mulheres por não terem o véu islâmico a ocultar cabelo e pescoço como regulamentado, enquanto as condições de vida se agravam. Do lado positivo, a pandemia está controlada e há esperança no levantamento de sanções económicas, assim Estados Unidos e Irão regressem ao acordo assinado em 2015.

Execuções a uma escala não vista há anos. Detenções em massa de críticos de regime, incluindo renomados cineastas. Julgamentos de cidadãos estrangeiros denunciados como uma farsa pelas suas famílias. Os defensores dos direitos humanos afirmam que o Irão está a sofrer uma intensificação da repressão que afeta todos os setores da sociedade, dos sindicalistas aos ativistas contra o uso forçado do véu, às minorias religiosas, como a Bahai, que têm sido alvo de perseguição.

O Irão está numa "onda de execuções", com enforcamentos a processarem-se a um "ritmo horrível", denuncia a Amnistia Internacional.

O Irão está a condenar à morte duas vezes mais pessoas na primeira metade de 2022 do que no mesmo período do ano anterior, segundo a Iran Human Rights, ONG sediada na Noruega, que este ano conta pelo menos 318 enforcamentos. A Amnistia Internacional afirmou que o Irão está numa "onda de execuções", com enforcamentos a processarem-se agora a um "ritmo horrível". Mas também regressaram as amputações de dedos a ladrões e as execuções públicas.

Esta é a face mais visível de um ano de governo do presidente Ebrahim Raisi, o antigo chefe do poder judicial que há um ano substituiu o moderado Hassan Rouhani depois de ter vencido umas eleições marcadas pelo elevado número de candidatos impedidos de concorrer e pela abstenção recorde. "A atual repressão está intimamente ligada ao surto de protestos no Irão", disse Ali Fathollah-Nejad, perito iraniano do Instituto Issam Fares da Universidade Americana de Beirute.

Raisi e o guia supremo Ali Khamenei estão a combater uma crise económica, bem como uma sequência de desastres, incluindo um colapso de edifícios em Abadan, em maio, que provocaram protestos invulgares. Os problemas económicos são parcialmente causados pelas sanções sobre o programa nuclear iraniano. Quando formou o seu gabinete, Raisi nomeou as suas duas principais prioridades: controlar o pior surto de covid na região e dar a volta à economia.

Se a campanha de vacinação e consequente placagem da pandemia foi bem-sucedida, a economia está de rastos, com um défice orçamental que os economistas consideram abissal e uma inflação na ordem dos 54%. Tendo-se comprometido na campanha a ajudar os pobres, o clérigo ultraconservador enfrenta protestos devido ao fim dos subsídios estatais à farinha e ao aumento dos preços de produtos alimentares básicos. "O horizonte económico do país está longe de ser claro e os economistas preveem que vamos enfrentar mais aumentos de preços", disse Mehdi Rahmanian, diretor do jornal reformista Sharg.

O pára-arranca das conversações sobre o acordo nuclear

5 de agosto de 2021
Raisi firme sobre sanções

Ao tomar posse no Parlamento, Ebrahim Raisi diz que Teerão apoia quaisquer medidas diplomáticas para levantar as sanções dos EUA, mas não cederá à pressão. Iniciadas em Viena, em abril, as conversações sobre o reatamento do acordo nuclear são retomadas em novembro após uma pausa devido às eleições presidenciais e à formação do novo governo. Teerão diz que a sua delegação "está em Viena com uma firme determinação em chegar a um acordo".

Março de 2022
As linhas vermelhas do Irão

Se em fevereiro as partes transmitem expressões de otimismo, a invasão russa da Ucrânia altera as perspetivas. A 16 de março, Teerão diz que duas das suas "linhas vermelhas" continuam pendentes. No dia 21, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price, diz que um acordo "não está iminente nem é certo". No dia 30, Washington anuncia novas sanções visando várias entidades que diz estarem envolvidas na aquisição de fornecimentos para o programa de mísseis balísticos do Irão. Teerão diz que a medida mostra "má vontade" dos EUA em relação ao povo iraniano. A 25 de maio, o representante especial dos EUA para o Irão, Rob Malley, adverte que "as probabilidades de uma negociação bem-sucedida são menores do que as probabilidades de fracasso".

8 de junho
Condenação da AIEA

A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) adota uma resolução apresentada por Londres, Paris, Berlim e Washington, a qual condena o Irão por falta de transparência, o que acontece pela primeira vez em dois anos. O Irão responde, removendo as câmaras de vigilância das instalações nucleares. O chefe da AIEA, Rafael Grossi, diz que a medida de Teerão pode ser "um golpe fatal" nas negociações. França, Alemanha e Reino Unido exortam o Irão a "cessar a sua escalada nuclear", enquanto o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, adverte para "uma crise nuclear cada vez mais profunda".

16 de junho
Novas sanções dos EUA

Washington sanciona uma rede de empresas petroquímicas iranianas, bem como alegadas empresas de fachada na China e nos Emirados Árabes Unidos. Raisi condena as sanções, enquanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros diz que o "comboio ainda não descarrilou" nas negociações. Os Emirados instam o Irão a dar garantias sobre a natureza pacífica do seu programa nuclear.

29 de junho
"Nenhum progresso" em Doha

Em finais de junho, dois dias de conversações indiretas em Doha entre o Irão e os Estados Unidos, que foram mediadas pela UE, concluem com "nenhum progresso", diz o Departamento de Estado. Teerão exige garantias de que uma futura administração dos EUA não volte a retirar-se do acordo, ao que Washington afirma não ter como dar garantias legais nesse sentido, como já tinha dito em Viena. O Reino Unido, a França e a Alemanha instam o Irão a aceitar um acordo em cima da mesa desde março e a inverter os passos em relação ao cumprimento das exigências da AIEA.

14 de julho
Biden não permite bomba

Numa visita a Jerusalém, o presidente dos EUA promete utilizar "todo" o poder do seu país para impedir Teerão de adquirir armas nucleares. No dia seguinte, o Irão diz que está "mais determinado" em proteger os seus próprios interesses nas negociações. E no dia 25 diz que não será apressado a fazer um acordo "rápido".

26 de julho
"Crise nuclear perigosa"

Num texto publicado no Financial Times, o chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, anuncia ter apresentado um projeto de acordo, instando as partes a aceitá-lo ou "arriscarem uma perigosa crise nuclear". Meia dúzia de dias depois, Teerão diz manter-se "otimista" de que o processo de negociação conduzirá a "um resultado lógico e razoável".

4 de agosto
Reinício de conversações

Todas as partes que assinaram o acordo nuclear, ou Plano de Ação Conjunto Global no seu nome oficial, em 2015, regressaram à capital austríaca para reiniciarem conversações. Como antes, os representantes iranianos e norte-americanos não se encontram diretamente.

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